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Trabalhar por amor à camisola

Passar um dia inteiro a trabalhar, chegar a casa cansado, comer à pressa e sair logo a seguir, perante os protestos da família, porque se tem de ensaiar uma peça! Eis o dia-a-dia de um amador de teatro, actividade que muitos dizem estar em vias de extinção mas que, quem faz, garante que nunca acabará.

27 de março de 2005 às 00:00

Enquanto o Mundo for Mundo, haverá sempre quem queira fazer teatro por amor, sem ganhar dinheiro.

É nesse espírito que vivem os elementos do Grupo de Teatro de Carnide (GTC), provavelmente um dos grupos de teatro amador mais antigos do País e certamente o mais velho da capital, onde subsiste na zona histórica de Carnide, rodeado de hortas e de casinhas velhas, desde 1959.

Fundado pelo mítico Bento Martins, encenador carismático e “grande condutor de homens”, o grupo tem sobrevivido estes anos todos graças ao patrocínio da autarquia local, que o apoia de várias formas.

“Não é só o dinheiro”, explica João Gualdino, 32 anos, há 11 no GTC. “É também a logística. Eles põem o pessoal à nossa disposição e, quando precisamos, usamos os faxes, os telefones, as carrinhas... Enfim, coisas que, no fundo, acabam por ser mais importantes do que o dinheiro”.

ESPÍRITO DE MISSÃO

De resto, para funcionar, o grupo nem sequer precisa de muitos euros. A renda que paga pelo espaço é, segundo Conceição Loureiro, 34 anos e há 12 no GTC, risível: “Este espaço pertencia a um senhor que, ao morrer, deixou em testamento que enquanto aqui funcionasse a Sociedade Dramática de Carnide, nós poderíamos ficar cá, por uma renda simbólica”.

É por essas e por outras que no GTC impera um forte espírito de missão: há uma relação de interdependência entre o grupo e a comunidade em que se insere. Uma das ‘obrigações’ que os seus elementos levam mais a sério é a de fazer teatro para os jovens desfavorecidos dos bairros periféricos de Lisboa.

“Temos uma grande responsabilidade para com essas crianças, que são, de resto, o nosso público preferido”, revela Jorge Miranda, de 55 anos e há 35 no GTC. “Temos de lhes dar a ver espectáculos cheios de magia, algo a que não estão habituados no cinzentismo do seu dia-a-dia”.

ENCENADORES PRECISAM-SE

Normalmente, o Grupo de Teatro de Carnide produz dois espectáculos por ano: um para crianças e outro para público adulto. A cada nova montagem, porém, o problema é sempre o mesmo: encontrar um encenador disposto a trabalhar por pouco dinheiro.

“É uma das maiores dificuldades com que se defronta neste momento o teatro amador”, admite Jorge Miranda acrescentando que a falta de “boas peças” é outro drama.

“Eu não percebo onde é que os profissionais vão buscar os textos... Ou melhor, percebo. Vão lá fora, e depois pagam traduções das peças melhores”, queixa-se. “Não há assim tantas peças boas para montar, e, infelizmente, os originais portugueses que a Sociedade Portuguesa de Autores disponibiliza, não têm muita consistência...”

QUERO SER FAMOSO

Mas se há falta de encenadores e de textos, do que o teatro amador não se pode queixar é da falta de actores. Há muito quem queira fazer teatro, até porque a Arte de Talma, como diz a Conceição Loureiro, “está na moda”. Há muitos jovens atraídos por uma actividade que pode torná-los famosos de uma dia para o outro.

“Para aqui, eles só têm de trazer o corpinho e a boa vontade”, adianta Jorge Miranda. “Depois, se quiserem, com alguma sorte podem fazer uma telenovela, aparecer na televisão... Há poucos jovens que resistam ao apelo de se tornarem mediáticos”.

É por isso que há cada vez mais pessoas a inscreverem-se nos cursos ministrados pelo GTC. Maioritariamente jovens.

“A procura é muito grande, o que de certa forma nos tranquiliza em relação ao futuro”, acrescenta Jorge Miranda. “Enquanto houver gente interessada em vir para o teatro, o Grupo de Carnide não acabará. Eu, pela minha parte, não me importava nada de morrer no palco...”

COMEÇAR COMO AMADOR

João Ricardo, Pedro Górgia ou Miguel Barros foram alguns dos actores que hoje conhecemos do pequeno ecrã e que deram os primeiros passos no Grupo de Teatro de Carnide. Aliás, esta coisa de começar no teatro amador e depois dar o salto para a profissionalização, nem sequer é invulgar.

Se Jorge Miranda trabalha num Banco e Conceição Loureiro na Divisão de Inclusão Social da Câmara Municipal de Setúbal, já João Gualdino optou pela profissionalização. Mantendo muito embora a sua actividade no grupo, ganha a vida a fazer espectáculos para crianças, na companhia O Sonho.

A PRESSÃO PARA FAZER RIR

Uma das expectativas que o público de teatro tem neste momento é de que os espectáculos a que vai assistir, façam rir. La Féria e a dupla António Feio e José Pedro Gomes estão a dar cartas todas, mas os amadores também não escapam a esta realidade. No GTC, porém, optou-se por não ceder a esse tipo de pressões. “Nós não vamos atrás das correntes. Aliás, nem precisamos”, afirma Jorge Miranda. “Temos uma renda baixa e não fazemos isto para viver, logo, antes de tudo está o nosso próprio prazer”. No entanto, não escondem que não há nada melhor para um actor do que ter a casa cheia de gente. “É a nossa grande recompensa. É para isso que nos esforçamos tanto”.

667 GRUPOS EM PORTUGAL

De acordo com os dados mais recentes da ANTA – Associação Nacional de Teatro de Amadores, existem neste momento 667 grupos de teatro amador a funcionar no nosso País. Quase todos, garante Carlos Vicente, da associação, a braços com um problema de espaço. “É o maior problema dos grupos amadores, mas não é o único”, confessa ao CM. Outro é a falta, congénita, de dinheiro. “O Ministério da Cultura disponibiliza uma verba de apoio para as associações populares, verba essa que contempla o teatro, mas que é claramente insuficiente para as nossas necessidades”, conclui. A ANTA existe desde Julho de 2001 e, desde então, tem-se esforçado por promover o diálogo entre os grupos de teatro amador espalhados por esse país fora. Um dos seus objectivos é que os grupos consigam deslocar-se e mostrar o seu trabalho uns aos outros.

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