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Correio da Manhã

Cultura
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Um espectáculo com bolinha vermelha

Foi o espectáculo que, em 2007, recebeu o prémio de Melhor Encenação do ano, razão que justifica que o Teatro Municipal São Luiz o reponha, de 29 de Abril até 15 de Maio.
29 de Abril de 2010 às 00:30
Romeu Costa e Carla Maciel, numa cena do espectáculo de Gonçalo Amorim
Romeu Costa e Carla Maciel, numa cena do espectáculo de Gonçalo Amorim FOTO: d.r.

‘Foder e Fazer Compras’, que o britânico Mark Ravenhill escreveu e o português Gonçalo Amorim encenou para a companhia Primeiros Sintomas é, tal como o título sugere, um espectáculo para maiores de 18 que faz de prostitutos, toxicodependentes e traficantes de droga os seus protagonistas. Com a linguagem que normalmente caracteriza esses universos.

 

Muito calão, violência quanto baste, humor negro e ironia são as grandes armas do autor, que acompanha o quotidiano de três pessoas que não parecem ter outra expectativa senão a de viver um dia atrás do outro – de preferência tendo qualquer coisa para comer. Roubam por necessidade, engatam por desfastio, consomem drogas por dependência.

 

O ponto de partida para a acção é estranho. Mark (Pedro Carmo) é um toxicodependente que comprou Robbie (Romeu Costa) e Lulu (Carla Maciel) no supermercado. Um dia, decide sair de casa para fazer uma desintoxicação e os seus amigos têm de arranjar forma de subsistirem sozinhos. Traficar droga parece ser a solução.

 

Num momento de bondade duvidosa, Robbie decide quebrar as “regras do sistema”, recusa-se vender a droga e oferece tudo de borla numa discoteca. Quem não aprecia o gesto de generosidade é o ‘dealer’ (Pedro Gil) – que ameaça a integridade física dos ‘heróis’ numa situação já vista no cinema centenas de vezes.

 

Aliás, o texto de Ravenhill tem alguns desequilíbrios de construção. A fase de exposição – quando se apresentam as personagens e a situação em que se encontram – é demasiado longa. Felizmente, a extrema banalidade da primeira parte da peça é compensada com uma surpresa, no final. Numa cena de horror, um prostituto (interpretado por Carloto Cotta) oferece-se em sacrifício ao trio, ao mesmo tempo que salva a vida de Robbie e Lulu.

 

O espaço é ‘clean’, claro e minimal, a luz crua mas agradável. Os ritmos que Gonçalo Amorim imprimiu à sucessão de cenas – sempre acompanhadas por música – são acertados. Mas a mais valia desta produção são as interpretações. Dado o tipo de personagem em causa seria fácil cair na ‘tipificação’ mas os actores evitaram a caricatura com brilhantismo. Pedro Carmo é um toxicodependente problemático, sólido e credível, Carloto Cotta surpreende na pele do prostituto desesperado, Romeu Costa é uma ‘bicha’ perfeita – nele, tudo está certo, desde a voz aos trejeitos.

Só pelas interpretações valeria a pena ver este espectáculo, em cena no São Luiz até 15 de Maio.

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