Peça foi escrita "forma irregular". Ricardo Neves-Neves começou pelo final, passou para o meio e depois para o início.
A peça "A reconquista de Olivenza", que se estreia na quinta-feira, em Lisboa, tem pressupostos como a existência de monarquia em Portugal, de um califado, em Alcácer do Sal e de uma região autónoma comunista, na margem Sul do Tejo.
"A reconquista de Olivenza", que se estreia no Teatro S. Luiz, em Lisboa, é um "Portugal do faz-de-conta", que mistura História, animação, vídeojogos e cinema, disse à agência Lusa o encenador Ricardo Neves-Neves, autor do texto do espetáculo que dirige e que tem composição e orquestração de Filipe Raposo, constituindo o segundo trabalho conjunto dos dois autores, depois de "Banda Sonora", estreado em março de 2018, também no S. Luiz.
Sem ter "propriamente um fio condutor em termos de dramaturgia", o espetáculo "A reconquista de Olivenza" está "mais ligado à geografia", entrando depois numa "zona muito livre, de pensamento, de existência de personagens, de ligação ora com história, ora com o cinema de animação, com as séries televisivas e os videojogos", explicou o encenador à Lusa, no final de um ensaio de imprensa.
A peça foi escrita sem "plano e de forma irregular". Ricardo Neves-Neves começou pelo final, passou para o meio e só depois para o início, numa escrita feita "aos pulinhos", e na qual cada página escrita "acabava por condicionar a seguinte".
A obra não gira em torno da chamada questão de Olivença e, embora esteja implícita, não conta para a ação.
Partindo da suposição de que Portugal ainda teria monarquia, um califado e uma região autónoma na margem Sul do Tejo, Ricardo Neves-Neves construiu a "viagem" de uma corte -- onde existe uma rainha, um infante e uma infanta, que começa em Lisboa e passa por essas 'zonas autónomas'.
Uma suposição que lhe ficou na memória quando, aí com uns 12 anos, na década de 1990, ouvia um programa de entrevistas dirigidas por Mário Soares na RTP, e em que, "numa das vezes, o convidado era alemão e ambos fizeram uma suposição de como seria Portugal, se em vez de se tornar um país capitalista, se tivesse tornado um país comunista como fora a Alemanha de Leste".
"Na altura, achei essa suposição muito engraçada embora não percebesse nada, e este espetáculo parte muito desse tipo de suposição", frisou.
De forma "ligeira e até superficial", Ricardo Neves-Neves confessou ter construído uma história em que personagens reais se misturam com personagens de séries de animação, do cinema ou de videojogos.
Daí que o público se depare figuras do Dragon Ball, Bubu, Mary Poppins, Chun-Li, do videojogo Street Fighters ou com o Beep Beep e Willy Coiote, num espetáculo que alia vários universos, da música ao teatro, à animação, ao cinema, à banda desenhada e ao vídeo.
Mas há também a infanta Beatriz, inspirada em Beatriz Costa, ou a rainha portuguesa, baseada numa americana conservadora dos anos 1960. E é neste jogo de faz de conta, que se chega à margem soviética e ao Califado de Alcácer do Sal, onde a rainha vai pedir ajuda para chegar a Olivença.
Esta viagem acaba, porém, por ter alguns percalços, como uma paragem no Paço Ducal de em Vila Viçosa, onde a corte é atacada por espanhóis e acaba por pedir ajuda à China, que envia a lutadora Chun-Li, dando azo ao autor de falar de "outros enclaves de Espanha, como Gibraltar com o Reino Unido, ou o de Ceuta com Marrocos".
A rainha zarpa então da Marina de Vilamoura, rumo a Ceuta, para destruir os muros da cidade autónoma e devolvê-la aos marroquinos e entregar o ouro resultante do saque à cidade aos ingleses de Gibraltar para que estes possam ocupar a Andaluzia.
Os espanhóis, porém, antecipam-se: retiram o ralo do Mediterrâneo, fazendo com que o galeão português não chegue a lado algum.
Peripécias várias e Bubu levam então o galeão português até à Palestina, "que tem um universo muito mais violento que Olivença, Ceuta ou Gibraltar", disse o encenador -- e acabe por atingir Olivença, onde a tripulação é salva por Mary Poppins.
"O ponto de partida foi aquilo que conhecemos como milagre de Ourique, em que Deus aparece num sonho a Afonso Henriques e lhe dá força para avançar para a batalha". Mas na versão de Neves-Neves aparece Bubu, do Dragon Ball, que diz: 'Iniciem a reconquista, os descobrimentos, não da forma como aprendemos nos livros (...) mas para procurar as sete bolas e cumprir o Quinto Império", disse Ricardo Neves-Neves.
A crença do Quinto Império não aparece no espetáculo como glorificação, mas como garantia de "mil anos de paz".
"É isso que interessa pôr em evidência", disse o encenador: "A vontade de encontrarmos mil anos de alegria, mil anos de leveza de espírito, mil anos dessa paz que no fundo é a felicidade". Neste contexto, frisou Neves-Neves, a questão do território e das fronteiras é "absolutamente secundária". E ainda que possa estar implícita, "está totalmente diluída na narrativa", acrescentou.
Para Filipe Raposo, "A reconquista de Olivenza" é uma das mais importantes e mais intensas experiências que teve em teatro, "porque há uma partilha muito grande, uma dádiva muito grande da poética da palavra associada à música".
Admitindo tratar-se de um trabalho onde se notam influências do crítico literário Georg Steiner, que morreu na segunda-feira, e que dizia que a "música não podia ser desligada da palavra nem vice-versa", Filipe Raposo destaca a peça, "por não ter medo de explorar o absurdo".
"Falamos de absurdo do princípio ao fim, porque o nosso humor também é feito de absurdo e das partilhas que vamos fazendo", afirmou. A peça explora "o absurdo até 'bater no fundo'".
"E é quando se 'bate no fundo' que nos olhamos também ao espelho e refletimos sobre a forma como pensamos a nossa história e sobre o que é isso da nossa história", argumentou. "É uma espécie de sofá de Freud, mas sofá coletivo".
Com música ao vivo, uma orquestra que podia ser barroca, com cravo em palco e uma pequena dimensão, ao estilo "Barry Lyndon" (filme de Stanley Kubrik, 1975), sublinhou que a música de cena é inspirada em compositores como Jean-Baptiste Lully, Jean-Philippe Rameau, Henry Purcell e Handel, que escreviam e viviam esses momentos de corte, nos séculos XVII/XVIII, recordou o compositor.
Ao mesmo tempo, porém, no contexto do absurdo e do faz de conta, também a música passa ao "universo Disney", numa influência "direta da música de cinema".
"Ricardo trabalha e vê a palavra de uma forma muito musical. Há uma relação rítmica, melódica harmónica e textural que está presente nos uníssonos coletivos, nos uníssonos a três, na forma como ele divide o texto como se de frases musicais se tratassem", observou.
Com direção musical de Cesário Costa e direção vocal de João Henriques, "A Reconquista de Olivenza" tem interpretação de Ana Valentim, Bruno Huca, David Mesquita, David Pereira Bastos, Diana Vaz, Joana Campelo, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Rubem Madureira, Sandra Faleiro, Samuel Alves, Sílvia Figueiredo, Sílvia Filipe, Sissi Martins, Susana Madeira, Tadeu Faustino, Tânia Alves, Teresa Coutinho, Teresa Faria, Tiago da Cruz e Vítor Oliveira.
Coproduzido pelo Cine-Teatro Louletano, Teatro do Eléctrico, Culturproject e S. Luiz Teatro Municpal, "A reconquista de Olivenza" fica em cena no S. Luiz até 16 de fevereiro. Em 21 e 22 de fevereiro, subirá ao palco do Cine-Teatro Louletano.
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