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Vítor Mendes: "Toureio é quase como respirar"

Vítor Mendes celebra os 30 anos de alternativa na Corrida do Sporting que o Campo Pequeno recebe amanhã à noite. Ao 'CM', explica a sua arte.

25 de agosto de 2011 às 00:30

Já se retirou das arenas e acabou sempre por voltar. O que representa este reconhecimento dos 30 anos de alternativa?

Vítor Mendes - É quase como admitir uma dupla personalidade, ou melhor, uma dupla forma de estar na vida. Sou um comum mortal: tenho as minhas preocupações, a minha vida, a minha família e os meus negócios. Mas há algo diferente de tudo, que é íntimo, muito meu, que é ser matador de toiros. Pouca gente passa pela vida tendo um projecto, lutando por ele e conseguindo atingir um estatuto ao mais alto nível. Pensei que, ao chegar ao respeito do público e estando bem castigado pelos toiros, era capaz de deixar a arena. Era impossível! Estou constantemente a ser bombardeado com petições para colaborar em festivais. Há toda uma recordação de uma época... ‘Mea culpa'! Não fui capaz de superar isso. Sinto falta, é como sentir falta de respirar. Objectivamente, se não me sentisse minimamente preparado para assumir em consciência o repto de ter de tourear numa corrida de toiros, na principal praça do País, não avançava. Sinto-me bem...

Nota alguma diferença, hoje, quando entra numa arena?

Posso ter perdido na reacção imediata, não há tanto brilho na rapidez. O que posso jurar é que consegui ganhar em experiência, calma e no acto de desfrutar o toureio. Regra geral, o toureio em si é um jogo de racionalidade. Isto não é para ‘kamikazes'! Se assim fosse, o toiro jogaria em 70 ou 80 por cento de vantagem na força, na estupidez. O toiro não é sempre consequente. É preciso adaptar-se às circunstâncias... Joga-se com terrenas, com distâncias.

Como descreve o cartel da Corrida do Sporting, de sexta-feira?

O Sporting joga hoje e daí houve a necessidade de passar a corrida para amanhã. Sou sportinguista e participei na Comissão de Honra do Centenário do clube. Tem um certo sabor por isso. Quanto ao cartel, sinto que estão reunidas as condições para que o espectáculo corra ao mais alto nível. Pode-se ser extraordinário e talentoso, mas a base principal é o toiro, a ganadaria. Neste caso, está anunciada uma das ganadarias de maior prestígio, que são os toiros de Falé Filipe. A partir daí...

Já é meio caminho andado...

Exactamente. Depois vou tourear ao lado de um matador de toiros que ajudei a fazer, ajudei a treinar, o António Ferrera.

Receia que o discípulo ultrapasse o mestre?

São espectáculos e estilos diferentes. O Ferrera é um toureiro vibrante, de fazer agarrar o público, muito explosivo. São personalidades e maneiras de estar diferentes. Creio que por parte do aficionado deve apreender aquilo que é bem feito. Creio que ele irá procurar o triunfo à sua maneira e eu, obviamente, tentarei não deixar o crédito por mãos alheias.

Lida bem com as novas gerações?

A festa dos toiros, nesta época em que está a ser bombardeada com os movimentos anti-taurinos - e que é importante que nos respeitemos uns aos outros -, é sempre uma montra do que se passa na sociedade. Há necessidade, para a manutenção do espectáculo, do grande público. E este, hoje em dia, vive muito em função do produto como imagem, que tem de ser o artista. O grande público não entende o comportamento de público e vai mais atraído por um nome do cartel ou por causa de determinada ganadaria que lhe dê garantias. O que se impõe, neste momento, é uma procura de um novo regulamento que incidisse na necessidade do espectáculo em si não ser tão demorado, onde não se perdesse tanto tempo e onde o toureio fosse encarado pelos seus profissionais, e por todos os que estão à volta dessa dinâmica, com maior seriedade. Há 35 ou 40 anos falava-se de grupos de forcados na verdadeira acepção da palavra: havia 15 ou 20 grupos que se preparavam fisicamente para serem bons naquilo que faziam. Hoje em dia, dentro de uma perspectiva de ‘tauromaquia de curral', qualquer um é um ‘agarra-bois'. Por isso é que há 30 ou 40 grupos de forcados... Não queria romper a estrutura, mas para dignificar o espectáculo devíamos entrar por essa dinâmica e entrar na procura do incentivo da dinamização de corridas mistas, que vão mais de encontro ao sabor do grande público. Chegou-se a uma altura em que tem de haver uma evolução com um ambiente diferente, mais próximo do grande público. É importante que as pessoas saiam das praças felizes. Mas sei que não é fácil ir contra um ‘statu quo', um grupo de interesses que foi constante. É que mesmo havendo uma evolução, com o aparecimento de novos valores de dinastias, não são melhores que os pais, que foram figuras e que alguns ainda dão cartas.

No dia 13 de Setembro de 1981, em Barcelona, quando recebeu alternativa, alguma vez pensou que ia chegar tão longe?

Não, de todo. Naquele momento não se pensa nisso. Tem-se 22 e 23 anos e acaba-se por se entregar de alma e coração à questão.

Se houvesse essa consciência não teria corrido tão bem?

Sim. Claro que estamos a falar ao mais alto nível. Tinha um 'staff' por trás de mim: homens que tinham idade para ser meus pais. Mas quem dava a cara era eu. Tinha o meu talento e o meu carisma, mas com base na experiência que tenho, vi uma quantidade de jovens espanhóis, franceses, colombianos a morrer na arena. Mas não via aquilo como a morte. Preparava-me física e psicologicamente e ia para a cara do toiro feliz. Acontecesse, o que acontecesse... E aconteceram algumas.

Tem 19 marcas de cornadas no corpo. Lembra-se de cada uma delas?

Sim, sim. Exceptuando três ou quatro, foram erros ou abusos.

Foram lições...

Sim. Normalmente, o toiro antes de colher avisa. Parece dizer "por esse lado não vou" ou "não faças isso que reajo desta maneira", no fundo dá sinais. O toiro bravo em si mesmo é cultura, porque é o resultado de centenas de anos de selecção. Depois arriscas.

Já passou por praças de todo o Mundo. O que distingue o aficionado português?

As perspectivas são distintas, os ambientes culturais também. Um miúdo com 12 anos em Espanha, que se habituou a ver desde pequeno, não é o mesmo que o que vê aqui. O grande público português vai mais atrás da espectacularidade, no entanto o toureio no sentido global é uma questão de sensibilidade: chegar ao indivíduo e passar-lhe uma mensagem e passar características, o talento, a capacidade, o carisma. Pode ser uma tauromaquia de poder como uma puramente estética. Os espectáculos de Espanha e do México realizam-se da mesma maneira, mas os mexicanos são muito senhores do seu nariz e já têm um ambiente autóctone, um toureio mais duradoiro. Em Espanha aposta-se no toureio de poder, de domínio. Aqui em Espanha, o toureio é mais agressivo e temperamental do que no México. Em Portugal, há um 'handicap': por cá, como também há a componente do negócio por trás, foram seleccionando os toiros maioritariamente para toureio a cavalo. Só duas ou três é que se adaptam mais ao toureio a pé.

No mês passado foi inaugurada a Praça Monumental Vítor Mendes, no Canadá. Foi o cúmulo do reconhecimento?

Foi, mas não só. Tive de me agarrar ao estatuto de emigrante, na vida, para conseguir aquilo que desejava. No Canadá, estão lá emigrantes em terceira e quarta geração, que não largaram as suas raízes e que tiveram de batalhar contra as autoridades locais - que são bastante tensas e radicais - para conseguir esta praça. No fundo, há um grupo de portugueses e de amigos, influenciados por um embrião que existe na Califórnia, que conseguiram a realização deste espectáculo, sempre no contexto de que o animal não seja agredido com sangue à vista. Para mim, o facto de terem conseguido essa mobilização e de ser convidado foi uma honra. Cheguei lá e fiquei estupefacto com a estrutura e o espírito de comunidade.

Portanto, não pensa parar enquanto se sentir bem.

Sinto-me bem e sei que a cabeça pode, mas há muitas coisas que começam a estar condicionadas. Costumo dizer que elas estavam habituadas a andar a 15 mil rotações por minuto e agora andam a cinco ou seis mil. Quando abuso, o corpo já dá sinais. Há fracturas que condicionam o aspecto físico, mas este é compensado pela presença de espírito, pelo ‘know how'. Ir ao Campo Pequeno, não é aquele atrevimento de quando se tem 25 anos e se pode fazer tudo. Agora, é um toureio mais assente, calmo, com mais mestria e tranquilidade.

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