Jorge Araújo. O autor de ‘Comandante Hussi’ começou por escrever uma reportagem e acabou a escrever um livro. A história por detrás da história já a seguir.
Correio da Manhã - Como é que acontece o contacto com a história e a decisão de a escrever?
Jorge Araújo - No princípio "Hussi" era uma reportagem. Quando se deu o golpe de estado que derrubou Nino Vieira, eu era jornalista do "Independente", mandaram- -me para Bissau fazer a cobertura juntamente com o fotógrafo João Francisco Vilhena. O aeroporto de Bissau estava fechado, mas fomos na mesma, a partir do Senegal. Quando começámos a fazer-nos à pista, ao pedido de identificação da torre de controlo, saiu-me (a sorte grande): "Jorge Araújo, BBC". Segundos depois, tínhamos autorização para aterrar.
- E como é que chegam à criança e à sua história ?
- Eu tinha uma vantagem grande... As pessoas de Bissau conheciam-me porque há uma rádio que os revoltosos agora voltaram a usar e que eu, de certa maneira, ajudei a criar, quando era jornalista da BBC. Quando disse "sou o Jorge Araújo da BBC", reconheceram-me logo. E foi o que nos valeu porque, uma vez na rádio, houve logo quem nos levasse de carro para a romaria dos vencedores até ao palácio presidencial. Completamente destruído... Acontece que eu quando chego às coisas, gosto só de ver, cheirar, sentir... E foi assim dei com o miúdo!
- Abordagem fácil ou namoro difícil?
- Nem uma coisa nem outra... A verdade é que, naquela altura, nem falei com ele. O Vilhena ainda lhe fez algumas fotografias e ele, de metralhadora em punho, a fazer-se à pose mas eu, nada. Só quando voltámos ao hotel e começámos a trocar ideias, aí é que foi! Não há melhor reportagem do que contar a história de uma guerra vista pelos olhos de uma criança. No dia seguinte fomos atrás dele...
- E ele não falava português...
- Pois não mas, vantagem de ser cabo-verdiano, falo eu crioulo e lá chegámos à história que ultrapassou a reportagem. A história de uma guerra que não começa com os primeiros disparos nem termina com os últimos bombardeamentos. Começa no dia em que o Hussi é obrigado a deixar para trás a sua bicicleta e só termina no dia em que a recupera... É a vitória de um sonho sobre uma guerra.
- O reencontro com o Hussi quase aconteceu...
- Estava previsto para sábado passado com uma equipa da SIC mas não foi possível a minha ida a Bissau. A reportagem fez-se na mesma mas sem mim. Hussi foi localizado, deve ter uns 16 anos. Tinha muitas perguntas para lhe fazer. Gostava de saber se sobreviver a uma guerra é mais difícil do que vivê-la. Será que ele virou menino de rua? Será que ele come todos os dias? Será...
Jorge Araújo tem 44 anos, dois filhos de carne e osso e um de papel... O livro chegou com o Verão mas está para durar que é o que acontece quando se escrevem histórias com gente dentro.
O autor, jornalista e nosso colega de redacção, trouxe da Bélgica, mais que os cursos de Comunicação e Teatro, a paixão pelo francês. Trouxe mais... Do teatro, o primeiro ordenado. Do jornalismo, o papel principal: contador de histórias!
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