Mesmo sem ter sido um ano brilhante, houve óptimos momentos na 63.ª edição do Festival de Cannes, onde o cinema sedutor do tailandês Apichatpong Weerasethkuk obteve a Palma de Ouro com o sobrenatural 'Lung Boonmee Raluek Chat'. Desde logo Manoel de Oliveira, em grande forma física e cinematográfica, em ‘O Estranho Caso de Angélica’, sentindo-se a falta de Jean-Luc Godard a apresentar o seu ‘Film Socialism’.
Pode dizer-se que a 63º edição do Festival de Cannes encerrou no domingo sob o signo da descoberta dos novos caminhos do cinema, mas também da confirmação do talento interpretativo. E como não ficar seduzido pela jornada do Tio Boonmee, homem doente e no fim da vida que leva a família pela floresta até à gruta onde diz ter nascido a primeira das suas inúmeras vidas.
Ao longo de 12 dias, o realizador Tim Burton, acompanhado pelos actores Benicio Del Toro, Kate Beckinsale e Giovanna Mezzogiorno, dos cineastas Shekar Kappur e Victir Erice, do escritor e realizador Emmanuel Carrère, do compositor Alexandre Desplat e do director do museu de cinema de Turim, Alberto Barbera, tiveram a tarefa aliciante de encontrar os mais merecedores entre os 19 filmes candidatos.
Mas Cannes não existe sem festa e ‘glamour’. E parte da iconografia do festival passa mesmo pelo desfile de vedetas, a subir os míticos degraus da passadeira vermelha, ofuscados pelos flashes dos fotógrafos, até entrarem no Palais para as sessões oficiais.
Este ano, o destaque foi para Naomi Watts, Josh Brolin e Woody Allen, em ‘You Will Meet a Tall Dark Stranger’ e ainda o casal Shia LaBeouf e Carey Mulligan, além de Michael Douglas, em ‘Wall Street: Money Never Sleeps’ - ambos fora de competição -, e ainda Javier Bardem, em ‘Biutiful’, de Alejandro González Iñárritu, ou até Mick Jagger, que incendiou a multidão que o aguardava para a apresentação do documentário ‘Stones in Exile’, na Quinzena dos Realizadores.
No que diz respeito aos filmes, mesmo sem a presença de grandes obras-primas, o nível foi bastante satisfatório, com direito a saborosas surpresas. Caso da agradavelmente decadente incursão na realização do actor Mathieu Almaric, em ‘Tournée’, a impressionante visão serena e arrebatadora dos monges e mártires de ‘Des Hommes et Des Dieux’, de Xavier Beauvois, e até mesmo o subtil exercício de cinema de ‘Copie Conforme’, em que o iraniano Abbas Kiarostami, pela primeira vez a filmar na Europa, sugere uma terna cumplicidade entre o espectador e o aparente romance entre Juliette Binoche e William Shimell.
Em todo o caso, difícil foi algum filme superar o grau de simplicidade e emotividade proposto por Mike Leigh (vencedor em 1996, com ‘Segredos e Mentiras’), em ‘Another Year’, e o admirável grupo de actores que nos transporta no turbilhão emocional de um grupo de amigos ao longo das quatro estações de um ano.
Uma palavra ainda para ‘Fair Game’, de Doug Liman, único filme americano em competição. Mesmo sem ter sido um dos favoritos, não deixa de ser um cinema absolutamente sedutor na procura da verdade, no caso sobre a existência das armas de destruição em massa no Iraque. Um filme consistente, que em nada fica a dever aos grandes clássicos dos anos 70, na linha de ‘Os Homens do Presidente’, de Alan J. Pakula (1976), ou ‘Os Três Dias do Condor’, de Sydney Pollack (1975), a revelar um realizador de grande maturidade.
Nas secções paralelas Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica, fizeram-se algumas descobertas importantes. Desde logo, o documentário ‘Benda Bilili’, sobre um grupo de músicos das ruas de Kinshasa, vencedor do disco de world music em 2009 (e com espectáculo agendado para o Castelo de Silves, a 31 de Julho), que abriu a Quinzena. E ainda o impressionante ‘Armadillo’, documentário do dinamarquês Janus Metz sobre um esquadrão militar no Afeganistão, premiado com galardão da Semana da Crítica.
PALMARÉS COMPLETO
Palma de Ouro:
‘Lung Boonmee Raluek Chat’
Grande Prémio:
‘Des Hommes et des Dieux’, de Xavier Beauvois
Prémio Realização
: Mathieu Almaric, em ‘Tournée’
Prémio do Júri: ‘Um Homme Qui Crie', de Mahamat-Saleh Haroun
Prémio Interpretação Masculina
: Javier Bardem, em ‘Biutiful’, 'ex aequo' com Elio Germano, em ‘La Nostra Vita’
Prémio Interpretação Feminina:
Juliette Binoche, em ‘Copie Conforme’
Prémio Argumento:
Lee Chang-dong, em ‘Poetry’
Prémio Curta-Metragem:
‘Chienne d’Histoire’, de Serge Avedikian
Prémio Câmara de Ouro:
Prémio Un Certain Regard:
‘Ha Ha Ha’, de Hong Sangsoo
Prémio FIPRESCI:
‘Tournée’, de Matthieu Almaric
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