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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Wallenstein dá vida a desempregado

Uma peça sobre o desemprego e a exclusão social serviu de base à mais recente encenação de Jorge Listopad, que tem em cena, na Sala Experimental do Teatro Municipal de Almada, ‘Pedra, Papel e Tesoura’, do australiano Daniel Keene. Trata-se de uma reflexão amarga sobre a forma como as sociedades contemporâneas são incapazes de reintegrar as suas ‘ovelhas tresmalhadas’.

08 de maio de 2007 às 00:00

Aqui conta-se a história de um homem, Kevin (José Wallenstein), pedreiro de profissão, que, depois de encerrada a pedreira onde costumava trabalhar, deixa de ter forma de sustentar a família. A partir desse momento, assume algumas das tarefas domésticas e passa o resto do tempo a beber cerveja no café e a pensar nos dias que lá vão e nos colegas que perdeu.

À sua volta movem-se uma mulher conformada (interpretada por Maria Arriaga), uma filha deprimida (Catarina Ascensão) e um amigo, também desempregado, companheiro de copos e lamúrias (António Banha).

Não há esboço de revolta neste universo de poucos recursos, quer financeiros quer intelectuais. Antes uma espécie de aceitação passiva do ‘destino’, como se ele não fosse forjado pelas situações sociais e pelas estratégias económicas do ‘sistema’. As personagens são completamente impotentes perante aquilo que lhes acontece e o autor não lhes dá qualquer solução de vida.

De resto, Daniel Keene sabe do que fala. Filho de um operário e de uma mulher-a-dias, antes de ser um dramaturgo conceituado – não tanto na Austrália mas sobretudo em França, onde as suas peças são frequentemente levadas à cena – chegou a trabalhar como servente de pedreiro e, durante a década de 80, já totalmente dedicado ao teatro conheceu a pobreza extrema.

O espectáculo de Jorge Listopad não aligeira de forma alguma a mensagem dolorosa do texto. Pelo contrário, sublinha toda a sua melancolia, através de uma luz sombria (desenho de luz de José Carlos Nascimento) e de um ritmo de actuação lento, em que cada palavra é dita pausadamente e com cuidado, apesar do conteúdo muitas vezes prosaico do texto.

Num cenário em arena (cenografia de António Casimiro), o público está disposto em volta dos actores – opção que aproxima muito intérpretes e espectadores – e torna-se cúmplice dos acontecimentos que se desenrolam à sua frente.

Definitivamente, este não é um espectáculo para quem se queira divertir e esquecer os problemas do dia-a-dia. Pelo contrário: eis um projecto destinado àqueles para quem o teatro é espaço de reflexão da nossa vivência colectiva. No entanto, mesmo sem solução à vista – e, portanto, sem qualquer possibilidade de nos deixar ‘bem-dispostos’ – um espectáculo intimista e pertinente, para ver em Almada até dia 13.

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