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Willem Dafoe em versão "não-actor" no Estoril

Willem Dafoe voltou este sábado a ser a grande figura do Lisbon & Estoril Film Festival, no Centro de Congressos do Estoril. Descontraído e bem disposto, de negro integral vestido, o actor norte-americano foi protagonista de uma masterclass muito concorrida, que quase encheu a sala. E confirmou a sua diferença entre os actores de Hollywood, ele que se diz mais "intuitivo", sem método de preparação para cada personagem um 'não-actor', mais antes um "colaborador" na arte de fazer filmes.

11 de novembro de 2012 às 01:00

Ao lado do director do festival, Paulo Branco, e do encenador Tiago Rodrigues - que conduziu a conversa -, Dafoe recuou no tempo para lembrar as origens da sua carreira, no Wooster Group, companhia de teatro experimental nova-iorquina onde começou. "Era tudo muito experimental e eu sentia-me mais um bailarino, com vontade de fazer coisas em frenteàs pessoas", começou por dizer, esclarecendo os mais cépticos: "Nunca pensei em vir a ser actor ou numa carreira. Quando se tem 22 anos, não se pensa no amanhã".

Mas o amanhã chegou quando Kathryn Bigelow ('Estado de Guerra') o chamou para 'The Loveless', em 1982. "E quando chegou a hora do contrato, atirei um número (para o cachet) e aceitaram", riu-se, justificando. "Eu não tinha amigos no cinema, não fazia a mínima ideia de quanto poderia cobrar e pedi um valor que me aprecia uma fortuna mas aceitaram."

Satisfazendo a natural curiosidade da audiência, Dafoe não deixou de falar de 'Platoon - Os Bravos do Pelotão', de Oliver Stone, fazendo rir a plateia com a sua frontalidade e descontração. "Ele era doido. Pegou num bando de  miúdos e largou-nos na selva", contou sobre as filmagens nas Filipinas em que brincaram a "jogos de guerra como os soldados."

Questionado sobre o seu método de preparação para cada personagem, Dafoe foi peremptório. "Prefiro ser não-actor. Para mim não há método, faço misturas e sinto-me melhor quando tenho algum medo e não sei para onde vou", disse. Daí que se sinta também distante de tantos colegas de profissão em Hollywood."Não me sinto como os outros actores que trabalham no cinema porque olho para tudo aquilo de forma intuitiva."

Sem nomear os realizadores com os quais mais gostou de trabalhar, Dafoe admitiu que prefere aquelesque não o querem como actor, mas sim como colaborador. "A parte divertida é não ter uma forma rígida de trabalhar." Ainda assim, o actor norte-americano de 57 anos deixou um desabafo sobre 'Homem Aranha 3' (2007), de Sam Raimi: "Confesso que talvez não tenha sido o melhor filme para trabalhar".

Já outros filmes marcantes como 'A Sombra do Vampiro' (2000), de E. Elias Merthige, ou 'Um Coração Selvagem' (1990), de David Lynch, deixaram boas memórias. "Funciono melhor quando não me sinto eu e estou longe de mim. No 'A Sombra do Vampiro' tinha muita maquilhagem e no filme do David Lynch a persnagem tinha dentes postiços", salientou.

Já na fase de perguntas do público, que esteve sempre muito atento e participativo, Dafoe admitiu que o papel que mais representa, o de vilão, é uma escolha natural dos realizadores com os quais trabalha. "Não podia propriamente representar o rapaz da porta ao lado", ironizou. Além do mais, "os vilões são divertidos de representar e, se pensarmos em termos de Hollywood, quando se tem sucesso numa coisa querem sempre repetir."

E, à semelhança de outros actores, gostaria Willem Dafoe de experimentar a realização, questionaram da plateia. "Não me interessa a realização e, além disso, não gostaria de dizer a ninguém o que tem de fazer".

No final, solicitado para vários autógrafos, já à saída - enquanto na sala ainda se mostravam imagens raras dos tempos de palco -, o actor foi sempre simpático e disponível.  Amanhã, domingo, pelas 21h00, no Espaço Nimas, em Lisboa, um documentário assinado pela mulher do actor, a realizadora italiana Giada Colagrande, mostrará Dafoe em palco, ao lado da controversa performer sérvia Marina Abramovic. 'Bob Wilson's Life & Death of Marina Abramovic' é um documentário que mostra os bastidores e making of da ópera biográfica da artista sérva dirigida por Robert Wilson em 2011.

PAULO BRANCO RECOMENDA

Um dos pontos fortes do programa é o filme "Bob Wilson' s Life & Death of Marina Abramovic, uma obra que junta quatro "monstros" da cultura mundial: a realizadora Giada Colagrande, o actor Willem Dafoe, o coreógrafo Bob Wilson e a performer Marina Abramovic. A sessão é apresentada por Willem Dafoe e Giada Colagrande, que desde sexta-feira estão presentes entre nós. - Espaço Nimas, 21h00

Começa no domingo o percurso de Miguel Alexandre, realizador português quase ignorado no nosso país mas com uma vasta obra bem conhecida na Alemanha. Miguel Alexandre participa uma conversa pública antes da exibição de "The Man with the Bassoon". - Cinema Medeia Monumental, sala 1, 17h30

Destaco para este dia dois grandes filmes: "Dans la maison", de François Ozon, e "Antiviral" de Brandon Cronenberg. Este segundo filme terá a a presença do realizador e da sublime Sarah Gadon, que pela segunda vez está presente no Festival. - "Dans la maison", Cinema Medeia Monumental, 19h00

"Anti-viral", Cinema Medeia Monumental, 22h00

O realizador Monte Hellman apresenta pessoalmente a sessão com três filmes seus,entre os quais o último que realizou: "Stanley's Girldfriend in trapped Ashes", de 2006. - Centro de Congressos do Estoril, 18h30.

Uma última sugestão para este dia, dirigida especialmente as que se interessam pela História do séc. XX e também pelo grande cinema: "Hitler, ein Film aus Deutschland", de Hans-Jurgen Syberberg. São sete horas de filme, numa visão única sobre um momento terrível da História da Europa que nos faz reflectir no tempo tão difícil que vivemos. - Espaço Nimas, 11h30, legendado em inglês

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