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Yôga, Sámkhya e Tantra

Encerramos este mês como o iniciámos: falando de Sámkhya. Qual o papel de Íshwara no Sámkhya e qual a relação entre Yôga e Sámkhya e entre Yôga e Tantra, descortinando, assim, um pouco mais sobre os pilares nos quais o SwáSthya Yôga acenta: o Yôga – a filosofia prática–, o Sámkhya – filosofia teórica naturalista – e o Tantra – filosofia comportamental matriarcal, despressora e sensorial.

28 de novembro de 2005 às 00:00

Íshwara traduz-se por senhor, sendo, de acordo com Miréa Éliade, o arquétipo do yôgi. Este princípio passou também, a partir de um certo período da história profundamente marcado pela fé e crenças religiosas, a designar em algumas escolas do Sámkhya, a divindade.

Na verdade, o Sámkhya nunca se preocupou em afirmar ou negar a existência de Deus, já que, simplesmente, isso não fazia parte do seu contexto original. É correcto afirmar que os pré-ariamos valorizavam, reverenciavam e até cultuavam toas as formas da natureza, um pouco como os índios o fazem; por isso é que são chamados de naturalistas. Nessa concepção de vida, toda a natureza pode ser divina.

No séc III a.C., Pátañjali define Íshwara, dizendo: “Íshwara é um Púrusha especial não afectável pelas aflições, nem pelas acções ou suas consequências e nem por impressões internas de desejos. Nele está a semente da omnisciência. É também o Mestre dos mais antigos Mestres, pois não está limitado pelo tempo”.

Foi assim que, a partir de Pátañjali, o Sámkhya passou a ser denominado Sêshwarasámkhya – Sámkhya com Senhor –, para diferenciar do outro tipo mais antigo, designado como Niríshwarasámkhya – Sámkhya sem Senhor – que é o tipo de Sámkhya do SwáSthya Yôga, o Yôga mais antigo.

O princípio Íshwara não teve repercussão em todas as linhas do Sámkhya. conquanto tal elemento sempre estivesse discretamente presente nessa filosofia, só começou a ser propagado dentro da efervescência espiritualista da época medieval, transformado-se, então, num princípio tão importante quanto os vinte e quatro tattwas e o Púrusha

Quando um Ocidental vai à Índia para pesquisar sobre Yôga, ele confunde-se e não consegue distinguir onde termina o Yôga e onde começa o Vêdánta.

Em qualquer texto mais antigo sobre Yôga ou sobre Sámkhya verifica-se que essas duas filosofias sempre foram ligadas uma à outra. A tradição hindu considera o Sámkhya como o darshana mais antigo e, como o Yôga, também teve origem na pré-história indiana. Ambos são chamados de sanate dwê, as duas mais antigas disciplinas.

Apesar desta relação, cada qual tem identidade própria. O Sámkhya é pura especulação, enquanto o Yôga é essencialmente prático. As duas filosofias complementa-se, não obstante o Sámkhya dependa mais do Yôga que o contrário.

Para maior compreensão do Sámkhya torna-se necessária a utilização de determinadas técnicas do Yôga como, por exemplo, a concentração e a meditação. De facto, para ter a percepção e a compreensão dos níveis mais avançados da Natureza é preciso meditar. E a meditação, que é um estado de consciência yôgi, em si, independe de qualquer fundamento teórico.

Originalmente, o Yôga, o Sámkhya e o Tantra eram sistemas inseparáveis.

Como vimos, o tantrismo possui trinta e seis princípios, dos quais, os últimos vinte e cinco, são os mesmos do Sámkhya. Conclui-se, então, que o Sámkhya é parte do Tantra. Isto demonstra-nos que a afinidade do Sámkhya é com o Tantra, como ocorre com o Yôga Pré-Clássico, e não com o brahmácharya, como ocorre no Yôga Clássico,

É de grande valia verificarmos que o tantrismo exibe-nos outros níveis além do Púrusha e Prakriti, e demonstra-nos a relação inseparável do Tantra com o Sámkhya. De acordo com Pátañjali, “é graças sobretudo às técnicas do Yôga que o tantrismo pôde organizar-se como sistema coerente, com ideologia e com rituais característicos, rituais estes que quando associados à prática do Yôga tomam outra direcção.

Podemos afirmar que o Yôga é vinculado à tradição shivaísta e que Shiva é considerado o patrono do tantrismo, assim como é o criador do Yôga. como atesta a arqueologia, ele é um personagem pré-ariano e a sua presença confirma a existência do Yôga nesses tempos remotos.

Com base no livro “Yôga, Sámkhya e Tantra”, Mestre Sérgio Santos, Presidente da Federação de Yôga do Estado de Minas Gerais, Director Geral da Unidade Savassi, em Belo Horizonte

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