Maniche: "As divisões no Sporting têm de acabar"

Maniche diz que concretizou um “sonho de infância” e que perdeu dinheiro quando trocou o Colónia pelo Sporting, mas sublinha que, em Alvalade, encontrou um clube “sem estabilidade” e em que os jogadores são “pouco protegidos”. Afirma estar agradecido ao FC Porto por o ter contratado após um ano sem jogar no Benfica. “Tinha uma filha pequena e não sabia como iria ser o meu futuro”, recorda.

10 de novembro de 2012 às 15:00
entrevista, futebol, maniche, sporting, liga, fc porto, selecção, europeu, mundial Foto: Pedro Simões
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Correio Sport – Como tem sido a sua vida desde que acabou a carreira?

Maniche – Estive no Europeu de 2012 como um dos convidados da UEFA que elegiam os melhores em campo. Neste momento, tenho tudo pronto para participar num projecto que está aí a chegar. Por enquanto, não posso adiantar muito sobre o assunto... só que vou continuar ligado ao futebol.

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- Não lhe parece que deixou o futebol muito cedo?

- Podia jogar mais tempo, é verdade. Tenho apenas 33 anos, mas foi opção minha. Comecei a jogar cedo, aconteceu tudo muito rápido. Cheguei ao FC Porto com 24 anos, fui campeão nacional e da Champions. A partir daí foi sempre a subir. Estive no Dínamo de Moscovo, Chelsea, Atlético de Madrid, Inter e Colónia. Sou dos poucos que podem dizer que jogaram onde quiseram, ao lado dos melhores jogadores e do melhor treinador do Mundo, José Mourinho.

- A má época do Sporting (3º lugar, a 36 pontos do campeão FC Porto) no seu regresso a Portugal (2010/11) pesou muito na decisão?

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- Regressei depois de ter jogado muitos anos no estrangeiro, com expectativas que não correspondiam à realidade do Sporting ou do futebol português. Acabei por sofrer um enorme desgaste psicológico. A decisão de deixar o futebol foi difícil, embora bem pensada.

- Mandou uma mensagem de felicitações a Pinto da Costa pelo jogo 1000 como presidente do FC Porto?

- Não tenho o número do presidente, mas ele sabe que gosto muito dele. Foi alguém muito importante na minha aprendizagem, como futebolista e como homem.

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- De todos os clubes onde jogou, o FC Porto...

- ... foi o que mais me marcou. Não só pelos títulos, mas pela forma como fui tratado. Estava sem jogar há um ano no Benfica, tinha uma filha pequena e não sabia como iria ser o meu futuro. O FC Porto foi buscar-me e nunca mais me esquecerei disso. Também foi o clube onde comecei a ser conhecido internacionalmente.

- Que recordações guarda do Benfica?

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- Eu era muito acarinhado pelos adeptos, gostavam de mim e eu era o capitão da equipa. Joguei três épocas no Alverca com muito orgulho e, a partir daí, segui o meu caminho. Só não fiquei porque queriam que eu mudasse de empresário e eu recusei. Sou uma pessoa honesta. Não gosto do trair ninguém.

- Sofreu represálias por ter recusado mudar de agente?

- Puseram-me a trabalhar à parte. Nunca direi mal do Benfica e posso sempre dizer que joguei num dos grandes clubes do Mundo. No entanto, a minha passagem pelo Benfica nada tem a ver com a felicidade que conheci no FC Porto.

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- A desilusão no Sporting ainda foi maior de que aquela que conheceu no Benfica?

- O Sporting foi o clube onde sempre sonhei jogar. Eu era pequenino e o meu pai levava-me ao antigo Estádio de Alvalade e eu admirava aquela equipa, que tinha, entre outros jogadores, Douglas e Luisinho. O meu pai fez de mim sócio do clube e, para mim, jogar no Sporting foi um privilégio, a concretização de um sonho de infância. É verdade que choquei com uma realidade que não esperava, mas jogar em Alvalade deixou-me satisfeito.

- Aquilo que viu permite-lhe diagnosticar a raiz da crise que o Sporting vive?

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- Estive muitos anos no estrangeiro e cheguei com uma vontade enorme de jogar e ajudar a mudar essa mentalidade que tem impedido o Sporting de ganhar títulos. Queria fazer parte da história do Sporting. Não vim pelo dinheiro, tinha um contrato vantajoso no Colónia. Voltei para concretizar um sonho.

- Esse entusiasmo foi provocado somente pela vontade de jogar no Sporting?

- Vim para Lisboa, para junto da família, para um país que tanto adoro. Quando assinas um contrato, não sabes a realidade que te espera, chega-se com ilusão. Depois percebi que os jogadores do Sporting são pouco protegidos.

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- Que quer dizer?

- Falta estabilidade ao Sporting e é preciso blindar o clube. O FC Porto, por exemplo, é um clube extremamente organizado e está blindado. No Sporting, isso não acontece. A equipa tem grandes jogadores, mas há muitas divisões, e têm de tomar medidas para acabar com isso. Há pessoas ligadas ao clube que parecem estar à espera de um mau resultado para lançar a confusão.

- Qual é o clube favorito à conquista do título?

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- Os três grandes são sempre. Porém, agora também há que contar com o Braga. O presidente, António Salvador, fez um grande trabalho, e as suas equipas são muito equilibradas. Acho que o Braga não atingiu ainda o nível de FC Porto e Benfica, mas já pode lutar pelo título. O Sporting é sempre candidato a ter em conta, só que nesta época está longe de o ser. FC Porto e Benfica estão bem, mas os dragões têm a vantagem de serem mais fortes mentalmente.

- Quem é o jogador mais desequilibrador da Liga?

- Olho mais para o colectivo do que para o individual. Todavia, há um jogador que me está a impressionar: James, do FC Porto. Jackson Martínez é outro grande jogador. Chegou agora, mas dá a impressão de que está há muito tempo na equipa.

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- Pode chegar ao nível de Falcão?

- Sei que vai mostrar muito mais. Quando o Falcão saiu, o FC Porto já tinha controlado o Jackson. Daqui a um ou dois anos, vai ser vendido e irá chegar outro tão bom como ele. Isto não é sorte, é a organização do FC Porto a trabalhar.

- Como vê as dificuldades da Selecção em qualificar-se para o Mundial de 2014?

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- Têm a ver com as mudanças. Entraram muitos jogadores novos. Isto acontece quando há transição. Além disso, o futebol está mais equilibrado, as outras selecções conhecem melhor as capacidades de Portugal. Em minha opinião, há que apostar mais na formação.

- A causa das dificuldades pode ser essa?

- Pode haver problemas mais tarde. Acho que vamos ao Mundial, mas a Selecção não pode ter só um lote de jogadores de qualidade. Tem de haver mais soluções, e isso está na formação. A Lei Bosman foi benéfica, eu também joguei lá fora, mas, antes, os estrangeiros que vinham tinham muita qualidade. Há bons jogadores na formação de vários clubes que só precisam de ser lançados. O Benfica tem apostado, e bem, em André Almeida e André Gomes. Mas não se pode dizer-lhes, ao fim de dois jogos, que já são estrelas.

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PERFIL

Nuno Ricardo Oliveira Ribeiro, conhecido como Maniche, nasceu em Lisboa a 1 de Novembro de 1977 (35 anos). Formado no Benfica, foi emprestado ao Alverca, entre 1996/97 e 1998/99, regressando às águias em 1999/2000. Em 2002/2003, assina a custo zero pelo FC Porto, onde vence a Taça UEFA e a Liga dos Campeões. Em 2005, transfere-se para o Dínamo de Moscovo, mas nunca se conseguiu adaptar à Rússia. Chelsea, Atlético de Madrid, Inter e Colónia são os outros clubes que representa no estrangeiro. Em 2010/2011, volta a Portugal, para representar o Sporting. Jogou 53 vezes pela Selecção A, onde marcou sete golos.

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