Violência desportiva contagia modalidades e escalões distritais, alertam os Spotters da PSP

Segundo a PSP, modalidades como o futsal, hóquei em patins e andebol tornaram-se novos palcos para grupos violentos.

14 de março de 2026 às 08:45
PSP Foto: Direitos Reservados
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A violência desportiva alastrou-se do futebol para as modalidades e escalões distritais, onde grupos de adeptos procuram recintos com menor policiamento para o confronto físico, alertam os "Spotters" da PSP, denunciando uma radicalização crescente.

O fenómeno, alimentado pelo movimento 'casual', desafia o policiamento, revelando uma realidade paradoxal. Embora os números oficiais apontem para uma diminuição dos incidentes, a violência tornou-se mais sofisticada, mais radical, mais difícil de detetar e mais disseminada.

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Segundo a PSP, modalidades como o futsal, hóquei em patins e andebol tornaram-se novos palcos para grupos violentos, que exploram ambientes com menor vigilância policial e mediática para fazer das bancadas e ruas uma extensão dos confrontos.

Os incidentes de 19 de fevereiro junto nas imediações do Pavilhão João Rocha, junto ao Estádio José Alvalade, em Lisboa - que resultaram em 124 detenções - são o rosto mais visível deste contágio às modalidades de pavilhão.

Pouco antes de começar o encontro da 16.ª jornada da Liga de Futsal, que terminou com um empate 2-2, mais de uma centena de adeptos apareceram de surpresa no local do jogo, tendo-se envolvido em confrontos e detonado engenhos pirotécnicos.

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No centro da estratégia de contenção está a Unidade Metropolitana de Informações Desportivas (UMID) criada formalmente há 20 anos, nas vésperas do Euro 2004, cuja função não é apenas vigiar, mas antecipar o conflito.

Não vestem a típica farda, mas são os olhos da lei. No coração das claques, onde o cântico de apoio se confunde, por vezes, com o grito de guerra, movem-se os Spotters da PSP. Agentes de elite, especialistas em informações desportivas, que operam numa zona cinzenta: entre a paixão cega e a criminalidade organizada.

Segundo o Comissário Vitor Patrica, que chefia a Unidade Metropolitana de Informações Desportivas (UMID) desde 2022, o maior desafio já não vem das claques tradicionais ("Ultras"), mas sim do movimento 'casual'.

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Este grupo, onde se incluem jovens de classe média, profissionalmente inseridos na sociedade e universitários sem ligações óbvias à criminalidade marginal, procura espaços com menor vigilância para exercer violência.

"Este contágio atingiu até competições distritais de escalões inferiores, onde adeptos conotados com grandes clubes se deslocam para provocar desacatos em jogos sem relevância direta para as suas equipas", aponta aquele responsável.

Na capital, a geografia desta nova violência está quantificada: pelo menos 300 casuals do Benfica e 200 do Sporting, isto falando apenas de dois dos maiores emblemas do futebol nacional.

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Apesar de a Lei n.º 39/2009 exigir a legalização como GOA para acesso a benefícios, a maioria recusa o registo para escapar à fiscalização. O Benfica, por exemplo, não tem qualquer claque legalizada; no Sporting, apenas uma das quatro principais mantém o registo ativo, aponta o comissário.

No total estão apenas registados 26 GOA, 8.500 adeptos filiados, concentrados em alguns dos maiores emblemas do futebol português, como a Associação Super Dragões, afeta ao FC Porto, que regista um total de 3.500.

Segue-se a Ultra Mancha Negra Boys (Académica), com 1.813 membros, a Associação Panteras Negras (Boavista), com 903, o Coletivo Ultras 95, também afeto ao FC Porto com 630 filiados, e os Brigada-Ultras (Sporting, 347 elementos).

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A mutação do perfil do adepto é acompanhada por uma escalada na perigosidade dos objetos apreendidos.

"Já não é só pirotecnia de fumo. Apreendemos martelos, navalhas e 'gatlings' --- autênticas bazucas de pirotecnia com 380 disparos", revela o Comissário, sublinhando que para os 'casual', a detenção é um troféu, "um campeonato à parte, jogado fora das quatro linhas".

Com um percurso ligado à gestão de claques e à segurança nos estádios, o Superintendente Luís Elias - atual comandante do Comando Metropolitano de Lisboa (COMETLIS) da PSP estabelece uma ligação direta entre o comportamento de quem lidera os clubes e a radicalização das bancadas.

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"Apesar da retórica pública, na prática continuam posturas de apelo à rivalidade. Quando um dirigente profere determinadas frases, isso tem um efeito mimético nos adeptos. Eles acabam por imitar comportamentos de apologia ao ódio e intolerância", afirma.

A crítica estende-se à falta de coragem punitiva. Segundo aquele responsável, embora a lei preveja o sancionamento disciplinar por parte dos clubes e da Liga - como jogos à porta fechada ou expulsão de sócios -, estas medidas são "raramente aplicadas", não servindo como elemento dissuasor.

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