O representante português na Fórmula 1 continua a brilhar, depois do pódio nos Estados Unidos, voltou a pontuar na Bélgica. Agora, Tiago Monteiro abre o coração e revela alguns segredos, desde as superstições, ao ambiente pouco amistoso nos bastidores entre pilotos. Para já, o sonho do português continua com a ambição de tornar-se campeão mundial.
Correio da Manhã – Na próxima temporada vai continuar na Jordan? Fala-se num suposto convite da BMW para piloto de testes. É verdade?
Tiago Monteiro – Por enquanto não há nada de novo. Quanto a ser piloto de testes só uma proposta muito interessante me convenceria. Teria de ser uma proposta para vários anos e com garantias de voltar a pilotar no futuro porque o meu objectivo é correr como piloto oficial. Por enquanto não há nada.
– Começou tarde. Aos 28 anos, que espera da Fórmula 1?
– Não considero que seja tarde. O Schumacher tem 36 anos e continua a ganhar. É verdade que o meu percurso é diferente. Só comecei a correr quase com 21 anos mas, em contrapartida, cheguei mais rapidamente do que o normal à Fórmula 1. Precisei de sete anos quando, por regra, são necessários 10 ou 11 anos. E esse é que é o passo mais difícil.
– Mas o que espera? Tem um sonho realista?
– Espero continuar a evoluir, ter a oportunidade de entrar para uma equipa mais competitiva e ganhar, como sempre aconteceu em todas as categorias por onde passei. E tenho um sonho realista: ser campeão do Mundo quando tiver equipa para isso.Há cinco anos, o Allonso estava na Minardi. Isto faz-se passo a passo.
– Fernando Alonso, com 24 anos, vai ser o mais jovem campeão de sempre de Fórmula 1. É novo demais para ganhar?
– Há quem esteja preparado para ser campeão aos 18 anos e quem não o saiba ser nem aos 35. Penso que Alonso vai ter de ter algum cuidado. Confesso que já senti alguma diferença nele. Não digo que esteja convencido, mas já mudou um pouco.
– Como é que ele é?
– É uma pessoa muito fria e muito concentrada. E, claro, com muito talento.
– É um desporto onde talento não chega. É preciso dinheiro...
– É a grande frustação deste desporto. A um piloto não basta ser bom na pista. Oitenta por cento do meu trabalho é vocacionado para a vertente dos patrocínios. Apesar de ter uma equipa de manager.
– Agora que está na alta competição vai ser mais fácil?
– As coisas continuam complicadíssimas. penso que ao longo da minha carreira já passei por mais de duas mil reuniões e 90 por cento delas resultaram em fracasso e frustração. As pessoas dizem que sim que sim, mas depois...
– E um bom momento?
– Quando assinei o contrato de Fórmula 1.
– Acredita que Pedro Lamy, noutro país, com outros patrocínios, poderia ter ido muito mais longe...
– Quando Pedro Lamy corria eu não ligava nada à Fórmula 1. Julgo que nunca vi uma corrida dele. Sei que agora está a fazer carreira no campeonato FIA GT. O problema, em Portugal, é a inexistência de tradição. As pessoas não percebem que a F1 é um excelente meio de comunicação.
– Quanto ao talento. O seu ponto forte é...
– O meu ponto forte é a capacidade de concentração e de controlar o carro. Implica trabalho mas também acredito que é um dom.
– Identifica-se com algum grande piloto?
– Dizem que sou parecido com Alan Prost pela maneira como analiso as pistas. Estudo-as bem, primeiro faço-as a pé para as poder visializar e, no treino de sexta-feira, tento memorizar o traçado o mais possível.
–Concorda quando dizem que é pouco rápido?
– Não concordo. Corro riscos.
– Como faz a sua preparação? Há diferenças entre a sua e a de um piloto de uma escuderia mais competitiva?
– Neste ponto não há diferenças. Tenho um preparador físico que me acompanha durante todo o ano, com especial atenção na pré-temporada. Faço com ele vários estágios e passo diariamente duas a três horas por dia no ginásio.
– 60 quilos. Perdi seis.
– Até onde pode ir?
– Podia ir até aos 70. Há sempre uma margem de dez quilos. A partir daí já é muito complicado, há que mexer no carro.
– Como é a sua dieta?
– Hidratos de carbono, massas, arroz, carnes brancas, fruta, ovos, bananas, frutos secos.
– Come-se antes das provas?
– Eu, sim, embora pouco e leve. A corrida é as duas horas e eu como às 11h00. Um bocadinho de frango, um bocadinho de arroz. Não consigo correr sem comer qualquer coisa.
– A que horas se levanta no dia da corrida?
– O ideal é acordar cinco a seis horas antes da prova. E tomar um bom pequeno-almoço. É a refeição mais importante e como muito.
– A corrida dá fome?
– Mesmo muita fome.
– Um piloto perde entre 3 a 5 kg durante a corrida?
– Entre dois a três.
– Como descreveria o esforço que fazem?
– As forças a que a cabeça está sujeita nas travagens e nas curvas podem ir até 5 G (equivale a cinco vezes o peso da cabeça, ou seja, estamos a falar de cerca de 15 quilos mais 1,5 kg, do capacete). Há forças centrífugas, longitudinais, laterais. Nas curvas não se consegue respirar e cada vez que travo exerço uma pressão de 150 quilos. No final, as costas estão negras das vibrações. E as mãos em sangue, apesar das protecções e das luvas. Não é bonito.
– Em que pensa quando está no ‘cockpit’?
– Unicamente na próxima curva e na próxima travagem. Se não anteciparmos está tudo perdido. E isso dá um enorme cansaço psicológico, porque o menor erro é fatal.
– Diz que tem na capacidade de concentração o ponto forte. Como se concentra? Faz meditação, por exemplo?
– Há pilotos que fazem mas eu não. Duas horas antes da partida e depois de ter falado com os meus pais, isolo-me nas boxes ou na ‘motorhome’, visualizo a pista e cerca de 40’ antes da prova aqueço os músculos.
– A cãibra é um dos maiores medos?
– Uma cãibra é terrível e já me aconteceu. Por regra, deita tudo a perder. A única solução é obrigar o cérebro a esquecer a dor. É uma dor horrível e perigosa porque não se consegue travar.
– Quando entra no carro pensa que pode ser a última vez?
– Conhecemos os riscos, não podemos ser irresponsáveis mas não podemos pensar nisso na hora da corrida.
– Mas há muita superstição nesse meio...
– E um traço que liga a maioria dos pilotos. Tenho algumas, como entrar sempre pelo mesmo lado, calçar sempre a mesma luva primeiro, mas não gosto de falar disso porque considero que é uma intimidade.
– Quem dos pilotos tem mais superstições?
– O campeão é Barrichelo. Sabe como são os brasileiros...
–Um piloto tem amigos entre os colegas?
– Não. Na pista não há amigos. Numa situação extrema, sou eu ou eles. Há pilotos com quem me dou melhor mas não há amigos. Estamos a falar de um mundo cruel e competitivo. Não estamos lá para ser amigos.
– O meu colega de equipa.
– O Barrichelo. É muito divertido
– Prémio antipatia...
– Nick Heidfeld e Kimi Raikkonen.
– E Michael Schumacher?
– Não é dos mais simpáticos.
– Como ficou a sua relação com Montoya depois do acidente na Turquia?
– Fui absolvido de qualquer culpa pelo director da corrida e pela Imprensa.
– O terceiro lugar no GP EUA foi o melhor que até agora conseguiu...
– Foi uma oportunidade única. Tinha que ser naquele dia e foi um grande orgulho.
"GISELE BUNCHEN NERVOSA"
CM – Associa-se à Fórmula 1, um mundo de luxo e bom gosto. É assim para todos os pilotos?
TM – Isso é só assim para alguns, tipo patrocinadores ou donos de escuderias. Para a maioria dos pilotos, dos engenheiros e dos mecânicos é diferente. Trabalhamos 14 e 15 horas por dia.
– Mas já conheceu pessoas e esteve em sítios apenas por ser piloto?
– Claro. De uma só vez conheci o Travolta, o Lenny Kravitz, o Robert de Niro. E, também, a Giselle Bunchen.
– Sozinha ou com DiCaprio?
– Sozinha. Numa festa em Miami.
– Estava excitado por estar ali mas eles também por conhecer-me. É aquela coisa, um piloto de Fórmula 1.
– Vive entre Londres, Porto e Lisboa. A sua namorada é inglesa e actriz?
– É inglesa, os pais são realizadores de cinema mas ela não é actriz, apesar de já ter aparecido em alguns filmes.
- ‘The leading man’, com Jonh Bon Jovi...
Tiago Monteiro nasceu no Porto, há 28 anos. Iniciou a carreira desportiva há sete, quase por acaso, depois de se ter licenciado em Gestão Hoteleira, na Suíça. Inicialmente apaixonado pelas motos, Tiago Monteiro acabaria por seguir as pisadas do pai – Edmar Monteiro – que chegou a participar na Porsche Cup Francesa.
Elogiado na sua primeira experiência no circuito Paul Ricard ao volante de um Porsche RS, Tiago Monteiro participou, em 1997 na Porsche Carrera Cup - categoria B, conseguindo cinco vitórias e cinco ‘pole positions’. Sagrou-se campeão de França da categoria. Em 1998, Tiago dá o salto para a Fórmula 3, com o 12.º lugar no final da temporada e o título de “melhor rookie” do ano.
Em 2004, apenas sete anos depois da primeira corrida, chega à Fórmula 1, como piloto de testes da Minardi. Um ano depois, é piloto oficial da Jordan. Tem como “sonho realizável” a conquista do título de campeão do Mundo num desporto em que Portugal não tem tradição.
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