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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Adeptos absolvem Cristiano Ronaldo

Colado à direita ou sentado no banco, como muitos adeptos temem que aconteça, Cristiano Ronaldo pode contar com apoio total nas bancadas de Old Trafford quando, esta tarde, o Manchester United entrar em campo para defrontar o Tottenham. Face ao silêncio imposto pelo clube e pelos representantes do jogador, a massa adepta dos ‘red devils’ promete não ficar calada. E aposta tudo na vitória.

22 de outubro de 2005 às 00:00

Tom O’Connor esconde-se da chuva à porta do imponente estádio do United. E Ronaldo é o homem de quem todos falam. “Ele deve estar baralhado com tudo isto. Afinal, quem não estaria? Eu acredito cem por cento que ele é inocente e, se pudesse, dizia-lhe isso. Mal soube da notícia ouvi logo uma série de pessoa dizer que não era verdade”, conta Tom. “Gostava que ele jogasse de início, mas compreendo se isso não acontecer. Vamos ganhar à mesma. A equipa tem de ser profissional. Será por 3-1 ou 3-0.”

Na conferência de Imprensa que antecedeu o encontro de hoje, o técnico Alex Ferguson confessou que “Ronaldo está a passar um mau bocado” mas “está a treinar normalmente”. E, face à onda de lesões, é quase certo que Ronaldo seja mesmo titular.

FINTAS FANTÁSTICAS

Indiferentes à chuva que ao final da tarde cai com demasiada força, alguns miúdos, vestidos com o equipamento do United, pedalam de um lado para o outro. Shaun e Paul, 13 e 15 anos, não se entendem. “Eu acredito que ele fique no banco, não está capaz de se concentrar no jogo”, atira Shaun. Paul encolhe os ombros e abana a cabeça escondida pelo boné. “Para mim, ele vai jogar. É um jogador importante e pode ajudar na vitória”, responde, enquanto o amigo se ri. “Não, acho mesmo que não”, diz Shaun.

A popularidade do Manchester United também se vê assim. A pouco mais de cem metros dos miúdos das bicicletas, pai e filho abrigam-se da chuva. Vieram da Dinamarca há uma semana, viram o jogo da ‘Champions League’ com o Lille e preparam-se para o embate de hoje com o Tottenham. Muito por culpa do rapaz, Daniel Hansen, já que o pai até é do Liverpool. “O Ronaldo é o meu jogador preferido”, diz o miúdo de 14 anos. “Gostava muito que ele jogasse, as fintas são fantásticas.” Resultado? “Vamos ganhar”, diz o jovem fã que veio do frio.

Como já é habitual, o estádio de Old Trafford deverá estar cheio como um ovo para a partida desta tarde. A grande incógnita prende-se com a titularidade de Cristiano Ronaldo. Apesar de todos acreditarem que o resto da equipa apoia “incondicionalmente” o jovem jogador, há quem tema que o clima dos últimos dias – é a primeira vez que um futebolista do United se vê nesta situação – possa afectar os restantes elementos.

Quem não arrisca prognósticos ou qualquer frase que seja são os representantes do internacional português. Contactado pelo CM, o escritório de advogados que representa Cristiano Ronaldo não prestou quaisquer declarações. Um silêncio que se estende ao clube e ao próprio jogador.

JORNALISTAS 'CERCAM' CASA DO JOGADOR

“Sim?”, pergunta a voz. “Cristiano Ronaldo?” “Quem é que disse que era o Cristiano? Ele não está.” A voz no intercomunicador é mesmo de um homem. “Se ele está bem? Porque é que não haveria de estar bem?” Outra vez aquela voz. É um homem, mas não se identifica. “Se foi convocado para o jogo? Desculpe, mas não vou dizer mais nada. Boa tarde.” A voz calou-se. Fica o portão e um muro de pedra rodeado de árvores e, para lá de ambos, uma casa branca, enorme, com um jipe Porsche parado no parque, semiprotegido de olhares indiscretos. A movimentada Chester Road, que passa à porta de Cristiano Ronaldo, em Sheshire, nos arredores de Manchester, tem um sinal que obriga a diminuir a velocidade. Mas nos últimos dias, tem sido a presença dos jornalistas à frente do portão a fazer abrandar o trânsito intenso nos dois sentidos. E a provocar algumas reacções de descontentamento dos condutores adeptos do United.

LUÍS CORREIA FOI O OUTRO INQUIRIDO

O quarto em que Cristiano Ronaldo supostamente passou a noite de 2 de Outubro, no Hotel Sanderson, estava em nome de Luís Correia, sobrinho e colaborador do empresário Jorge Mendes, representante do futebolista português. Luís Correia prestou declarações numa esquadra de Manchester, pouco tempo antes de o jogador dos ‘red devils’ ter sido interrogado pela Scotland Yard, na passada quarta-feira, para explicar o porquê de o quarto do Hotel Sanderson estar registado em seu nome. Após os esclarecimentos, as autoridades policiais concluíram que o sobrinho do empresário nada tinha a ver com o assunto, permitindo a sua saída em liberdade. Não foi apresentada qualquer queixa contra Luís Correia.

STACK ACONCELHA PORTUGUÊS

Graham Stack, guarda-redes do Arsenal actualmente emprestado ao Reading, deu ontem o seu apoio a Cristiano Ronaldo. Stack foi julgado e absolvido há três semanas pelo Tribunal de Croydon depois de uma jovem estudante de Direito o ter acusado de violação, no caso mais recente que envolveu futebolistas em Inglaterra. “Para bem do Ronaldo, espero que o caso dele não vá tão longe como o meu. Já são tantos os casos e ainda por cima as queixosas vão primeiro à Imprensa e só depois à polícia, o que coloca dúvidas sobre os seus reais motivos. Tenho a certeza de que a polícia actuará da maneira apropriada e tudo estará acabado em poucos dias”.

O guardião inglês reconhece que as suas performances desportivas foram afectadas pelo caso em que esteve envolvido e deixa alguns conselhos a Ronaldo. “Para ele será complicado conseguir concentrar-se no futebol, mas ele está num clube fantástico, com as pessoas certas e o mais importante é continuar a acreditar nele próprio”. Ronaldo, que já conhece as acusações há cerca de duas semanas, também tem revelado uma baixa de forma.

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA PREVALECE

A lei inglesa sofreu alterações em 2003 com a introdução do ‘Sexual Offenders Act’, uma nova legislação para casos de abusos sexuais. Segundo noticiou o jornal ‘The Sun’, esta mudança implicaria que, enquanto no passado uma alegada vítima de abusos sexuais precisava de provar que tinha sido forçada a ter relações sexuais, já a nova lei coloca o ónus da prova do lado do acusado, que teria de provar que houve consentimento para o acto sexual.

O advogado Sá e Cunha garante contudo que “a presunção de inocência” nunca pode estar em causa. “Se a acusação não provar o que pretende, se subsistirem dúvidas, não pode haver condenação”, disse.

Outros especialistas contactados pelo CM garantem que o ónus da prova só fica do lado do acusado caso se prove que houve de facto relações sexuais e que se verificaram determinadas circunstâncias das quais o acusado tinha conhecimento. Essas circunstâncias, que estão explicitadas no artigo 75 da lei, são: “A alegada vítima estar a ser alvo de violência ou temer vir a ser alvo de violência por parte de alguém no momento do acto ou imediatamente antes de ele começar; a alegada vítima estar detida e o acusado não; a alegada vítima estar a dormir ou inconsciente no momento do acto; a alegada vítima ter uma deficiência física que não lhe permita comunicar ao acusado se consente ou não o acto sexual; ou a alegada vítima ter sido drogada sem o seu consentimento”.

"ELAS É QUE QUERIAM..."

Dirk Wetzel, um empresário alemão que estava no hotel Sanderson na noite da alegada violação, veio ontem a público contar a sua versão dos factos. Esta testemunha garante ter assistido durante uma hora à forma como as duas jovens se ‘atiraram’ a Ronaldo. “Para mim, a situação foi muito clara: as raparigas é que queriam dormir com ele, não ele com elas”, afirmou. Wetzel, que pernoitou no hotel, diz que as jovens tentavam seduzir o craque português e não paravam de rir. O alemão diz que nem Ronaldo nem o seu amigo tocaram nas raparigas, mas que a dada altura elas se puseram em cima de um carro para transportar malas e Ronaldo empurrou o carro pelo ‘hall’ do hotel. Ou seja, pareciam estar todos a divertir-se. A testemunha não se lembra se os quatro estavam a consumir bebidas alcoólicas e tem apenas ideia de que uma das jovens bebeu um cocktail.

“NÃO HOUVE SEXO”

O jornal ‘Daily Mirror’ publicou ontem declarações de um amigo próximo de Ronaldo, o qual não é identificado. O amigo assegura que Ronaldo não teve relações sexuais com a mulher que o acusa de a ter violado. “Toda esta história é absurda. O Cristiano tem sido muito claro: ele não teve relações sexuais com esta mulher e nunca foi para um quarto de hotel com ela. Estes são dois factos muito simples”. A ‘estrela’ do Manchester United terá confessado aos amigos mais próximos que estava “chocado e devastado” por ser suspeito de ter cometido abusos sexuais. Os amigos dizem ainda que Ronaldo está “zangado e frustrado” com toda a situação.

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