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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Antes de voltar ao Benfica já pensava sair

Protagonizou uma das mais inesperadas transferências do defeso, ao trocar o Benfica pelo Wolfsburgo, pouco depois de regressar de uma temporada de empréstimo em Guimarães que o levou aos eleitos de Scolari. Mas, na Luz, percebeu que o seu espaço continuava a ser pouco. E assim avançou para um objectivo que há muito tinha em mente.

27 de agosto de 2005 às 00:00

Correio da Manhã – A sua transferência surpreendeu o País futebolístico. Também foi apanhado de surpresa?

Alex – Não. Isto era algo que vinha a ser preparado há algum tempo. Havia negociações e eu fui seguindo todo o processo. Sabia bem que havia interesse de alguns emblemas estrangeiros desde o final da época. E as pessoas que trabalham comigo directamente sabiam que o meu desejo passava por sair e tentar uma experiência no exterior. Até pelo tipo de propostas que recebi.

– Não concorda que acabou por ser a recente chamada à Selecção a determinar este desfecho?

– Não só, mas também. E fico feliz pelo acordo alcançado entre o Wolfsburg e o Benfica. Foi vantajoso para todos e é isso que importa realçar.

– Enquanto emigrante, que balanço faz aos primeiros dias da experiência germânica?

– Só amanhã (hoje) farei o meu primeiro jogo, pelo que é ainda cedo para grandes considerações. Estou a adaptar-me a uma nova realidade, mas há aspectos que são óbvios: o clube é muito organizado e com grandes perspectivas de crescimento na Bundesliga. Este ano, queremos chegar à Taça UEFA e julgo que temos condições para o conseguir. Há grandes condições de trabalho e, a nível humano, pessoas com grande ambição. Tenho tudo para acreditar que as coisas vão correr bem, ainda que saiba que o futebol é subjectivo.

– Quais são as primeiras indicações já recolhidas sobre a Bundesliga?

– Não posso dizer muito porque cheguei há pouco tempo. Mas sei que os estádios têm uma média de espectadores altíssima, cerca de 45 mil pessoas por partida, e que a competitividade é enorme. Este é um campeonato com características diferentes do português, marcado por um futebol mais agressivo, não muito técnico mas mais objectivo. Aqui os indíces físicos são muito importantes, mas no futebol, independentemente do local onde se joga, todos querem jogar bem. E há a aliciante de estarmos em ano de Mundial na Alemanha, com muita gente de olhos postos na Bundesliga.

– Para trás ficou Portugal e... o Benfica. Não preferia ter permanecido na Luz se tivesse garantias de uma utilização regular?

– Sinceramente, ainda antes de voltar ao Benfica já pensava sair. Essa era a minha prioridade. Mas tinha três anos de contrato com um clube que muito respeito e por isso, ao saber que pretendiam o meu regresso, publicamente mantive sempre um discurso coerente. Mas a ideia foi sempre tentar um novo desafio.

– Não acha estranho o Benfica optar por vendê-lo quando parecia capaz da plena afirmação?

– Tive a oportunidade de dizer que não estava satisfeito com o decorrer da pré-época, porque as pessoas estavam a ter outro tipo de opções. A opção de sair foi natural. O primeiro ano de Benfica foi negativo e não queria voltar a passar pelo mesmo. Se não estavam a acreditar no meu valor, aproveitei para concretizar aquilo que mais desejava. E aqui estou, feliz da vida.

– Julga que terá sido a falta de estatuto que o impediu de se afirmar no Benfica?

– Sim, essa questão dificultou as coisas e talvez justifique um pouco o meu insucesso. Por isso, quando analisei o início do segundo ano, depois de uma boa época em que ajudei o V. Guimarães a regressar à UEFA e de ter actuado em dois jogos pela Selecção, e vi que as coisas estavam a tomar o mesmo rumo decidi... parar. Falei com as pessoas e expliquei a minha posição. Não contavam comigo como eu desejava. Respeitei sempre as decisões técnicas, mas também tenho o direito de pretender que as coisas mudem.

– E agora, que objectivos acalenta?

– Os objectivos individuais passam sempre pelos colectivos. Quero entrar para a história do Wolfsburg e apurar a equipa para UEFA, dado que há alguns anos que o clube não atinge a Europa. Quero ser útil e, como é óbvio, continuar a fazer dos planos do seleccionador para o Mundial’2006. Sei que difícil, mas vou trabalhar no limite.

Nome: Domingos Alexandre Martins da Costa ‘ALEX’

Naturalidade: Guimarães

Nacionalidade: Portuguesa

Data de Nascimento: 06/09/79

Idade: 25 anos

Altura: 1,74 m

Peso: 71 Kg

Posição: Lateral direito

Clubes representados:

Fafe, Moreirense, Benfica e Vitória de Guimarães

Clube actual: Wolfsurgo (Alemanha)

Títulos: Taça de Portugal (2003/2004, ao serviço

do Benfica)

Internacionalizações: 3

Manuel Machado – É o grande obreiro da minha carreira. É o meu pai no futebol.

Camacho – As coisas não me correram bem mas guardo recordações fantásticas da sua personalidade.

Koeman – Estive pouco tempo com ele, mas pareceu-me alguém que está à altura dos objectivos do clube.

Scolari – Devo-lhe um pouco o facto de estar a viver tudo isto. É das pessoas mais importantes da minha carreira.

Estive perto do Miguel, privei com ele e sei bem o que ele estava a sentir. Se calhar, muitos não o entendem mas eu entendi o porquê da sua decisão. Eu próprio vivi, ainda que noutras dimensões, esse filme de querer sair e estar dependente de decisões de terceiros. Miguel sempre manifestou interesse de sair e procurar outro desafio e assumiu essa posição, como grande homem que é. Felizmente o Benfica acabou por colaborar. O Miguel sabe que nunca o julguei pela negativa. Vai voltar a fazer o que gosta e vai vencer.

'QUERO SER OPÇÃO NO MUNDIAL 2006'

Alex assume sem rodeios que deseja estar no Mundial’ 2006. Garante que a chegada à Selecção para sempre perdurará na sua memória, mas está já de olhos postos no futuro. Considerações de Alex à atenção de Scolari. “Ter chegado à Selecção é algo de inesquecível. Foi o concretizar de um sonho, potenciado ainda mais por ter surgido na altura em que menos esperava. Afinal, estava emprestado num clube com ambições inferiores aos ‘grandes’ e também por isso jamais esquecerei esta oportunidade. Sei que é difícil em Portugal convocar um jogador de uma equipa que esteja num patamar inferior aos ditos grandes, mas o seleccionador tem dado provas que esta selecção é de todos os portugueses. Scolari olha para todos da mesma forma, logo não há razões para se deixar de sonhar. Por isso quero desenvolver um bom trabalho no Wolfsburg para poder ser opção para o Mundial”, afirma o defesa, que aceitou fazer uma análise aos concorrentes directos na lateral-direita da Selecção: “Miguel é um jogador de nível internacional, de qualidade fantástica. Fez um grande Europeu e excelentes épocas no Benfica. Junta qualidade e espírito de sacrifício. O Paulo Ferreira tem um currículo invejável e é bem formado como pessoa. A Selecção está muito bem servida nas laterais”.

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