É a estrela mais brilhante de um surpreendente V. Setúbal, que amanhã discute a liderança da SuperLiga na Luz. Em Dezembro é quase certo que deixa o Bonfim. Benfica e Sporting prometem uma guerra aberta pelo brasileiro.
Correio da Manhã – Concorda que esta está a ser a sua melhor época no Vitória de Setúbal?
Jorginho – Concordo. Pelo menos, o começo está a correr muito bem.
Foi noticiado o interesse do Benfica e do Sporting na sua contratação. Já foi contactado pelos responsáveis desses clubes?
– Sei desse interesse pelos jornais e fico muito contente. Pelos jogos que estou a fazer acredito que esse interesse exista mas, muito sinceramente, nem eu nem o meu empresário fomos contactados por responsáveis de qualquer um dos dois clubes.
Não está surpreendido com esse interesse...
– Julgo que tenho feito bons jogos e acho que já mereço uma oportunidade. Ando em busca de ir para um clube grande, o que é natural e compreensível. Sinto-me bem no V. Setúbal mas não posso esconder que gostava muito de ir para um clube com mais condições.
Qual é o preferido: Sporting ou Benfica?
– Falar de preferências, neste momento, seria deselegante e só iria prejudicar-me. Se um ou outro tiver interesse no meu futebol ficarei muito contente.
Qual deles precisa mais de reforçar o ataque?
– Ainda é cedo para fazer essa avaliação.
Acha que pode ser titular e competir com os avançados dos dois grandes? A quem é mais difícil tirar o lugar?
– Benfica e Sporting têm excelentes avançados. Se algum dia for para um clube grande tentarei a minha sorte. Cada um tem o seu valor, mas também sei que tenho o meu.
O Vitória irá colocar entraves à sua eventual transferência em Dezembro?
– Julgo que não levantará problemas. Até porque o meu contrato acaba em Junho deste ano. E nessa altura serei um jogador livre. Por isso, é do interesse do Vitória deixar-me sair em Dezembro porque nessa altura ainda é parte negocial.
No caso de não ir, coloca a hipótese de renovar pelo Vitória?
– Não. No princípio da época, o Vitória apresentou uma proposta de renovação mas ficou muito aquém daquilo que eu queria. Por isso, se não aparecerem propostas de outros clubes portugueses posso até ir para o estrangeiro, mas não vou renovar pelo Vitória. Se for para ir para melhor fico em Portugal, senão, quem sabe, o estrangeiro. Acho que mereço dar um salto e sei que o Vitória compreende isso.
António Teixeira é o seu empresário. Nesta fase acha que poderia ter melhores resultados se trabalhasse com um nome mais conhecido?
– Têm telefonado alguns empresários, mas continuo a manter a confiança em António Teixeira.
Com o interesse do Benfica e do Sporting tem sido difícil manter a concentração no Vitória de Setúbal?
– Tenho provado que não.
José Couceiro e os dirigentes do Setúbal já falaram consigo sobre uma eventual transferência?
– José Couceiro já falou. Disse-me que tenho condições para interessar a clubes grandes, que tenho capacidade para jogar num grande mas pediu-me para não me desconcentrar dos objectivos do Setúbal.
Que, neste momento, estando em primeiro lugar, são...
– O nosso objectivo continua a ser aquele que nos foi pedido no início da época – a manutenção na SuperLiga. Depois de conseguirmos essa meta, então sim, poderemos definir um objectivo mais ambicioso. Mas, até lá, esse é o objectivo da equipa. Ninguém imaginava que nesta altura estaríamos em primeiro lugar.
A actual boa forma da equipa deve-se essencialmente a quê?
– O segredo tem sido o espírito de grupo.
Como é que o grupo está a lidar com o facto de existirem salários em atraso e graves dificuldades económicas no clube?
– É melhor estar com salários em atraso mas em primeiro lugar do que estar com salários em atraso e ser o último classificado. O que nos motiva é o brio profissional, a união do grupo e o treinador. Ele será ainda mais vítima do que nós. Entramos em campo como se esses problemas não existissem. Claro que um jogador também precisa de comer e se a situação se agravar, claro que será difícil esquecer, em campo, o problema. Mas a esse ponto ainda não chegámos. E se chegássemos, o grupo sabe que o primeiro a tomar uma atitude seria José Couceiro.
O que vos dizem os dirigentes?
– A primeira pessoa a falar sobre isso publicamente foi o presidente do clube. Aquilo que nos dizem é que o clube está a fazer o possível e o impossível para regularizar a situação e nós estamos sempre na esperança de que isso aconteça.
Quantos salários tem em atraso?
– Não seria correcto especificar.
Amanhã, joga no Estádio da Luz contra o Benfica. Vai aproveitar para mostrar o que vale. Vai ser, para si, um jogo especial?
– Não. A minha motivação será igual à que tive nos outros jogos e entrarei em campo com a mesma tranquilidade. Levamos à Luz a motivação de estar em primeiro lugar. Vamos jogar contra uma grande equipa, mas jogaremos de igual para igual. Na minha opinião o Benfica é favorito, mas tudo pode acontecer.
Qual é o jogador do Benfica que destaca?
– A equipa vale pelo todo mas, em termos de regularidade, destaco o Simão.
– Medo não tenho, mas claro que tenho respeito pela defesa do Benfica. Fora do campo podemos pertencer a clubes com dimensões muito diferentes, mas dentro do campo somos todos iguais.
O Estádio da Luz impressiona?
– Não vai ter influência até porque esperamos ter lá muitos adeptos do Vitória.
Acha que os árbitros tendem a beneficiar os chamados clubes grandes, sobretudo quando os jogos são em Alvalade, na Luz ou no Dragão?
– Não sei. O que lamento é que se exerça pressão sobre os árbitros. O trabalho deles é posto em causa ainda antes dos jogos e isso é mau porque muitas vezes eles já entram em campo intranquilos. E isso pode levá-los ao erro o que poderia não acontecer se estivessem tranquilos.
Qual foi o golo que mais gostou de marcar nesta época?
– O que mais gostei foi no jogo contra o Braga. Aquele que me deu mais prazer marcar foi, sem dúvida, o golo que fiz frente ao Sporting.
Porquê? O que se sente quando se ganha a uma equipa que dispõe de condições incomparavelmente melhores, quer salariais, quer infra-estruturais?
– Não se pensa nisso em campo, mas ganhar a um ‘grande’ sabe sempre melhor.
"NA CHINA FOI MUITO DIFÍCIL"
Antes de vir para Portugal jogou num clube chinês. Como é que vive um brasileiro na China?
– Sim, fui emprestado e foi muito complicado. Por todos os motivos, desde a língua, à comida, da maneira de ser aos costumes. Foi tudo muito difícil. Tinha um intérprete, mas ele mal falava português.
– Praticamente, nada. Comia em McDonald’s – mais tarde descobri um restaurante italiano – treinava e pouco mais fazia. Nunca soube dizer o nome do clube onde jogava.
A adaptação em Portugal foi muito mais simples...
– Claro que não foi tão difícil, mas também não foi imediata. Senti muitas saudades até porque assinei um contrato muito mais longo do que aquilo que esperava. Não contava assinar por quatro anos. Depois, chegou o frio e isso custou muito mas nada que se comparasse com o que aconteceu na China.
Tem uma filha bebé. Nasceu em Portugal?
– Sim, nasceu aqui em Setúbal o que torna os laços com Portugal mais fortes.
"DIZIAM QUE ERA MUITO MAGRINHO"
Fale um pouco das suas origens...
– Venho de uma famíla humilde. Lá em casa só o meu pai trabalhava, primeiro num posto de gasolina e mais tarde na Rodoviária. E na medida do possível tentava cuidar de nós.
Vem de uma família grande?
– Somos quatro filhos. Comecei a trabalhar logo aos 14 anos num supermercado e, ao mesmo tempo, estudava. Mais tarde, deixei os estudos por causa do futebol.
Logo nessa altura percebeu que podia fazer carreira?
– O princípio foi difícil. Diziam que era muito magrinho. Até que um dia, quando já tinha praticamente desistido, o presidente do Goiatuba viu-me jogar num campo pelado, gostou e levou-me para lá.
Vem para Portugal com 24 anos. Quatro anos depois acha que valeu a pena?
– Vim para Portugal sem saber ao que vinha. O negócio foi feito a título de empréstimo e nunca pensei que ia ficar tanto tempo. Mas é uma aposta ganha.
"NÃO TERIA PROBLEMAS EM REPRESENTAR PORTUGAL"
Que espera do clássico entre FC Porto-Sporting de segunda-feira?
– Sou neutro. O que me interessa na próxima jornada é ganhar ao Benfica.
Quem é que considera o melhor avançado da SuperLiga?
– Derlei. Não por ser meu compatriota, mas porque é um grande jogador. Em pequeno o meu ídolo era Raí, o irmão do Sócrates. Até porque sou paulistano, torço pelo São Paulo no campeonato brasileiro.
Derlei pode tornar-se, brevemente, cidadão português e, à semelhança de Deco, passar a integrar as convocatórias para a selecção portuguesa. Como cidadão brasileiro fica incomodado com isso?
– Nada. Se o povo português estiver de acordo e se apoiar essa integração, acho muito bem. Se o povo português, o apoiante da selecção, não gostar da ideia, então nada vai dar certo. No caso de Deco existiu esse apoio e isso foi muito importante.
Estaria disponível para iniciar um processo semelhante e passar a representar Portugal?
– Se sentisse apoio dos portugueses e se os responsáveis entendessem que eu fazia falta à selecção portuguesa, não teria problema.
Trabalhou com vários treinadores em Portugal. Uma palavra para cada um deles.
– Jorge de Jesus é exigente; Luís Campos tem bom feitio: com Diamantino Miranda trabalhei pouco tempo; José Couceiro é competente e procura ser amigo; Carlos Carvalhal é parecido com José Couceiro. Também trabalhei com Carlos Cardoso, mas por pouco tempo.
Giovanni Trapattoni ou José Peseiro?
– Desses não posso falar porque nunca trabalhei com eles.
Nasceu em Goiana, capital do Estado de Goiás há 27 anos, é casado e tem uma filha, que já nasceu em Portugal.
O avançado brasileiro do V. Setúbal, internacional sub-21 pelo Brasil, despertou o interesse do Goiatuba quando tinha apenas 16 anos, e um ano mais tarde vai para o Atlético Paranaense, assinando um contrato válido por sete épocas.
Durante esse tempo foi emprestado a vários clubes, um deles chinês. Ao fim dos sete anos vai para o Grémio Inhumense e em 2000, com 24 anos, transfere-se para o V. Setúbal, que tinha acabado de subir de divisão. Acaba por assinar por quatro épocas com o V. Setúbal. É o actual melhor marcador da equipa.
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