Paulo Futre trocou o Sporting pelo FC Porto, em 1984. Diz ao ‘Correio Sport’ que na primeira vez que entrou em Alvalade de azul-e-branco sentiu um “formigueiro estranho na barriga”. E que a Juve Leo lhe atirou com laranjas às pernas durante os 90 minutos
Correio Sport – Vem aí o Sporting-FC Porto. Consegue imaginar o que sentirá João Moutinho?
Paulo Futre – Se for como eu, vai enfartado para o jogo. A primeira vez que regressei a Alvalade foi alucinante. Comecei por sentir um formigueiro estranho na barriga mal cheguei à estação de Campanhã. Viajávamos muitas vezes de comboio. Fui assim a viagem toda, tinha uma curiosidade enorme de saber o que me esperava em Santa Apolónia, se me iam insultar ou agarrar o pescoço (risos).
- E agarraram?
- Fui para o jogo sem problemas. Empatámos a zero e joguei bem. O problema foram as laranjas. A Juve Leo fartou-se de me atirar laranjas às pernas. Foi do início ao fim, sempre que eu carregava a bola. No fim do jogo, e apesar de ter estado bem, ainda tinha o formigueiro. Só passou três horas depois.
- Acha que Moutinho vai ter uma recepção hostil?
- Vai ser muito assobiado, mas ele é diferente de mim. É um jogador que solta logo a bola. No momento em que estão a levantar os dedos para o assobiar já ele largou a bola. Não dá gosto arremessar objectos. Só o vão atrapalhar se ele deixar, se não for imune às provocações. No meu caso, aquela energia negativa dava--me força. Jogar sobre brasas em Alvalade até foi uma boa escola.
- Como assim?
- Ajudou-me a singrar na liga espanhola e a ser capitão do Atlético de Madrid. É preciso ter nervos de aço e sangue quente para dar cartas em Espanha. Aprendi isso cedo. Aliás, para ser sincero, não sofri grande coisa com a troca do Sporting para o FC Porto. Só sofreram os meus pais.
- Porquê?
- As pessoas implicavam, batiam--lhes à porta, partiam os vidros de casa, ligavam a horas indecentes. Depois, diziam-lhes muito mal de mim, e nenhum pai gosta de ouvir isso calado. Eles sofreram mesmo, eu não. A melhor coisa que fiz na vida foi sair para o FC Porto. Fizemos uma boa equipa, ganhámos tudo e fomos campeões europeus.
- A mudança foi somente por dinheiro?
- Já contei essa história muitas vezes. Na altura (1984), ganhava 70 contos [350 euros] e o FC Porto ofereceu-me 27 mil [135 mil euros] em três anos. Os clubes andavam picados: o Sousa e o Jaime Pacheco tinham saído para o Sporting. Ainda pedi um aumento ao Sporting: 18 mil contos [90 mil euros] em três anos. Era menos do que me oferecia o FC Porto, mas os gajos disseram que eu estava louco. Nessa noite, arranquei para o Porto, alegando falta de condições psicológicas. Disse que ia dar mesmo em tolo se ficasse no Sporting. O Pinto da Costa estava à minha espera nas Antas às seis da manhã.
- João Moutinho também foi por dinheiro?
- E para ter outra visibilidade que achava não ter, por não ter ido ao Mundial, e outras razões. Não me cabe a mim questioná-las.
- "Maçã podre" em Julho, "profissional fantástico" perto do clássico. Eduardo Bettencourt quis meter mais pressão?
- Como o Moutinho se manteve calado e nunca falou mal do Sporting, ficava mal ele manter a tese da maçã. Uma maçã podre nunca poderia ser capitão do Sporting. Está a fazer uma época brutal no FC Porto.
- Quem ganha o clássico e por quem vai torcer?
- O FC Porto está mais forte e o Sporting tem feito um campeonato muito irregular, mas qualquer um pode ganhar. O meu coração está dividido, gosto do FC Porto, do Sporting e do Atlético de Madrid. Fiz-me à vida e ganhei tudo no FC Porto, mas o Sporting foi como pai e mãe para mim. Fui com 11 anos para lá. Saía do Montijo de barco e demorava uma eternidade a chegar.
- Que jogadores deste clássico aconselharia ao Atlético?
- Hulk, Moutinho e Rodríguez. Do Sporting, talvez o Carriço.
- Conhece Roberto?
- Só o vi na ‘cantera’ do Atlético. Achei terrível a desconfiança de que foi alvo. Tem qualidade, e não é por ele que o Benfica vai torto.
- Que nota daria ao Benfica pela prestação deste ano?
- Satisfaz pouco, está diferente. A diferença pontual para o FC Porto chega a ser absurda de tão grande. Na Champions, é nota negativa. Foi uma despedida negra, e ainda não garantiu a Liga Europa.
- No Atlético, é mais importante Simão ou Tiago?
- Os dois. Forlán e Kun têm um peso enorme. Vamos ver se dá para revalidarem o título na Liga Europa. Se passarem desta fase, são favoritos, juntamente com o FC Porto.
- Aposta em Barça ou Real?
- É como escolher entre Messi e Ronaldo. São perfeitos. Vai ser o primeiro grande jogo da época.
- Porque é que a Selecção rende tanto com Paulo Bento?
- Os espanhóis ficaram fulos, não conseguiam comer depois da goleada. E foi a brincar. Revoltou-me ver o Estádio da Luz vazio. Os responsáveis da Federação andam a pecar. Um jogo com contornos de tanto luxo merecia casa cheia. Quanto ao Paulo Bento, é simples: tem a mesma linguagem dos jogadores, mete-se na pele deles. O Paulo é a antítese do Carlos Queiroz.
- Vítor Baía no lugar de Madaíl: sim ou não?
- Também se falou de mim e do Figo. Que seja um ex-futebolista, mas Gilberto Madaíl não sai se a candidatura ibérica ganhar a organização do Mundial de 2018.
VOTADO AO ESQUECIMENTO PELA FPF
"Nunca me convidaram para um jogo, quanto mais para dar a cara pela candidatura ibérica. É mais fácil ser chamado pelos espanhóis"
PERFIL
PAULO FUTRE nasceu no Montijo a 28 de Fevereiro de 1966 e é, para muitos, o melhor extremo esquerdo de sempre do futebol português.Formou-se no Sporting e mudou-se em 84 para o FC Porto, onde foi campeão europeu. Em 87, saiu para o Atlético de Madrid naquela foi, então, a maior transferência da liga lusa. Ícone dos colchoneros,passou por Benfica, Milan, Marselha e West Ham antes de terminar a carreira no Japão, em 98. Foi director desportivo do Atlético e agora é comentador do jornal 'Marca' e do canal televisivo Al-Jazeera. Dono de várias empresas, tem um filho músico e outro futebolista, a jogar no Puertollano (II divisão espanhola).
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