page view

O Garrido veja lá aquilo que vai dizer

É o homem que Valentim Loureiro ameaçou ‘limpar’ do futebol, após ter assistido ao Dragões Sandinenses-Gondomar como assessor do Conselho de Arbitragem (CA) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF).

26 de fevereiro de 2008 às 09:00

António Garrido foi chamado a depor, meses depois, num processo derivado do mesmo jogo. O major voltou a telefonar-lhe: “O Garrido veja lá aquilo que vai dizer.”

António Garrido tem 75 anos e é o árbitro português mais internacional de sempre. Até ao ano passado foi assessor da CA, função que o levava a assistir a vários jogos e a elaborar um relatório, posteriormente comparado com o do observador. Depois do jogo, cabia a Garrido discutir com os árbitros sobre o que esteve bem e mal dentro do campo.

Numa escuta novamente citada em tribunal, Valentim telefonou ao ex-árbitro, após a visita do Gondomar a Sandim. “Você deve evitar é meter-se em áreas para f... alguma instituição a que eu esteja minimamente ligado”, disse-lhe então, ameaçando ‘limpá-lo’ do futebol.

Questionado pelo juiz se houve mais alguma conversa nos mesmos moldes com o major, o ex-árbitro não hesitou. “Passado uns meses. Eu iria ser ouvido pela FPF num processo instaurado ao treinador do Gondomar, que se dizia ter estado no banco, quando suspenso”, referiu, antes de contar toda a conversa.

“Você vai lá? E o que vai dizer?”, questionou o major. “A verdade”, respondeu o antigo árbitro. “O Garrido veja lá aquilo que vai dizer”, afirmou Valentim, num diálogo que António Garrido não conseguiu pormenorizar mais. “Não deixa de ser estranho”, comentou o juiz Carneiro da Silva, ao que o ex-assessor da CA retorquiu o que já antes tinha dito: “É a maneira de ser do major. Já o conheço há quarenta anos. Não o faz com maldade”.

Sobre a possibilidade de Valentim o ‘limpar’ do futebol, Garrido asseverou não ter sido pressionado, até porque o relatório já tinha sido feito antes do telefonema: “Apenas fiquei incomodado. Acho que não merecia ter aquela conversa, mas não houve qualquer intimidação”.

TRÊS "CAIXINHAS" NO BALNEÁRIO

Dois árbitros assistentes da equipa de José Palma falaram em tribunal sobre os dois jogos do Gondomar em casa onde estiveram na época 2003/04. Com um acontecimento comum. “No balneário, estavam três caixinhas embrulhadas. Por ordens do nosso chefe de equipa, não as abrimos”, disse Pedro Ribeiro, acrescentando que José Palma lhes disse que no interior estariam “artigos em ouro”. Versão confirmada pelo outro fiscal de linha, Francisco Mendes. “Encontrámos três embrulhos em papel, mas não lhes tocámos”, contou, sendo que, quando confrontado pelo advogado Carlos Duarte desse facto não constar do relatório, Francisco Mendes não conseguiu justificação plausível. Questionado se costumavam receber algum tipo de lembranças, Pedro Ribeiro respondeu que sim mas frisou que em causa estavam “canetas, galhardetes ou t-shirts”. “E relógios, sapatos?”, insistiu o procurador Gonçalo Silva. “Não, nunca”, retorquiu Ribeiro, sublinhando que a prenda mais valiosa que recebeu foi “uma camisola do V. Setúbal”, clube da sua terra natal.

OLIVEIRA DISSE A ÁRBITRO QUE JOGO IA DIRIGIR

Pedro Maia. Assim se chama o árbitro que foi ouvido durante a tarde de ontem tendo como pano de fundo o Freamunde-Gondomar (1-1) de 2003/04. Pedro Maia – que saiu escoltado pelas autoridades no jogo do último domingo entre o Merelinense e o Chaves, da 2.ª Divisão – contou que a arbitragem foi contestada pelo Gondomar e revelou que “na segunda-feira antes do jogo” foi “avisado” por José Luís Oliveira de que seria o nomeado. E assim foi”. Em instâncias do procurador Gonçalo Silva, disse não ser “normal, até porque os árbitros só são escolhidos à quarta-feira”. O juiz Carneiro da Silva perguntou se não era estranho receber uma chamada de alguém que não conhece. “Nunca estive pessoalmente com ele mas, através de uma pessoa, tentei vender-lhe sacos de plástico.”

O MEU ADVOGADO?

Antes de pedir dispensa por afazeres profissionais, Valentim revelou a dúvida de quem o iria representar na ausência de Amílcar Fernandes na manhã de ontem. “Quem é o meu advogado?”, exclamou. À falta de resposta, e depois de um telefonema, virou-se para João Medeiros: “Ó doutor, é você”. “Então, espero não ter de fazer nada”, retorquiu o advogado de Pinto de Sousa.

"JÁ O INSULTEI A SI"

No seu testemunho, António Garrido deixou escapar que, como adepto, já insultou árbitros. Amílcar Fernandes, presente apenas na parte da tarde, aproveitou a deixa: “Ainda bem que o diz, que eu confesso que também já o insultei a si.” Por um momento, os risos substituíram a ordem no tribunal.

O SOLITÁRIO

A cada dia que passa, são menos os arguidos presentes nas sessões de julgamento. Nem mesmo o grupo dos quatro principais acusados - Valentim Loureiro, Pinto de Sousa, José Luís Oliveira e Castro Neves - escapou, já que, ontem, o major pediu dispensa. Mais à esquerda no banco dos réus, apenas um resistente. O árbitro Manuel Valente Mendes foi uma espécie de solitário.

OLIVEIRA LIDEROU GONDOMAR

José Luís Oliveira liderou o Gondomar em 2003/04, época em que o clube subiu da 2.ª Divisão B para a Honra. Nessa altura, os árbitros que visitavam Gondomar recebiam artigos em ouro

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8