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Paulo Abreu: "Estrangeiros no Sporting? O dinheiro não tem cor!"

Paulo Abreu, membro do Conselho Leonino e ‘vice’ do Sporting em antigas direcções, olha com agrado para o ‘modelo inglês’, com magnatas a comprarem os clubes. Com ideias precisas, eventualmente polémicas, aponta caminhos para a saída da crise
4 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Paulo Abreu defende entrada de investidores estrangeiros na SAD leonina
Paulo Abreu defende entrada de investidores estrangeiros na SAD leonina FOTO: Arquivo CM
Correio Sport - O resultado da auditoria ao Grupo Sporting revela um passivo consolidado de 375 milhões de euros. O que reflectem estes valores em termos de futuro?

Paulo Abreu - São números comuns aos outros ‘grandes', Benfica e FC Porto. Mas reflectem que o actual modelo de gestão de clubes está acabado.

- A que modelo se refere?

- O modelo tradicional de encontrar receitas para combater as despesas, que é baseado na bilheteira, no merchandising e na quotização dos sócios. Isso, manifestamente, já não chega.

- Defende a entrada de investidores estrangeiros na SAD?

- Sim. É o caminho. É mesmo o único caminho. Podemos tentar sobreviver explorando um pouco mais as fontes de receita actuais: o merchandising e a qualidade de formadores no futebol, vertente que pode ser ‘franchisada', mas que não são suficientes para cobrir a voragem dos custos. Devemos encarar esse desafio sem tabus, sem medos e sem preocupações.

- O Sporting gasta cerca de 30 milhões de euros com a equipa de futebol e paga anualmente 11 milhões de euros de juros à Banca. São valores excessivos?

- O gasto com a equipa de futebol não é nada excessivo. Mas os juros à Banca são incomportáveis. Tenho dúvidas de que o empréstimo bancário se possa manter por muito mais tempo. O serviço de dívida já foi muito grande, diminuiu com a venda de património, mas está outra vez a subir. Qualquer dia temos outra equipa de futebol em juros.


- Razões fortes para a entrada de investidores na SAD?

- Eu penso que sim. O Sporting tem de ter a coragem e assumir que não é nenhum drama ter a maioria da SAD na mão de capitais estrangeiros.

- De onde gostaria que viesse o investidor?

- O dinheiro não tem cor. Desde que seja alguém que respeite o Sporting, os seus valores e massa associativa, é bem-vindo.

- Os accionistas e os sócios, estarão preparados para isso?

- São decisões que têm de passar por assembleias gerais, porque a maioria do capital está no clube e, por isso, nos sócios. É um tempo para o qual temos de olhar sem fantasmas. Não reconheço que os grandes clubes ingleses tenham deixado de ser menos vividos pelos seus adeptos por o accionista maioritário ser um americano, um árabe ou um russo. E que sejam menos competitivos, pelo contrário.

- A construção do novo estádio foi responsável por parte do passivo. Foi má ideia o ‘novo Alvalade'?

- No meu entender foi um erro. Alertei para o facto de o Sporting ir entrar numa aventura complexa, sob o ponto de vista de investimento, pela dimensão e por o Estado entrar com uma parcela relativamente pequena. Mas tive de me sujeitar à maioria.

- Qual teria sido a solução ideal?

- Um estádio municipal. E acho que ainda vamos a tempo de emendar isso, olhando para Lisboa e para o seu futebol de uma maneira única, pela necessidade de apoiar os clubes e de municipalizar os estádios existentes.

- Como assim?

- Transformando Alvalade e Luz em estádios municipais, onde Sporting e Benfica seriam indemnizados pelo investimento já feito. Depois, ir ao Restelo, Tapadinha, Olivais e Moscavide e Oriental e transformar esses recintos em terrenos municipais de exploração de construção, permitindo um reembolso ou um pagamento a esses clubes ao nível do que eles merecem. E pô-los a jogar alternadamente em Alvalade e na Luz.


- O que traria isso de novo?

- Estávamos a partir para uma situação em que Sporting e Benfica eram ressarcidos, os seus terrenos eram vendidos, urbanizados de maneira a darem rentabilidade e essa mais-valia ia permitir à Câmara indemnizar Belenenses, Oriental, Atlético e Olivais e Moscavide e pagar ao Sporting e Benfica de acordo com os investimentos feitos.

- Uma visão revolucionária...

- É irrealista ter estádios de clubes para fazer 20 jogos/ano num país que se quer moderno. Provavelmente abatiam-se centenas de milhões de euros nos passivos dos clubes de Lisboa. Não falo em destruir, mas transformar o que foi feito. Se estivermos agarrados a ideias materiais e patrimoniais, morremos na rua.

- O Estádio de Alvalade é o ‘elefante branco' do Sporting?

- Fui contra a construção, pelos custos que iria ter e cujos reflexos agora se comprovam.

- O Sporting está a lutar pela sobrevivência?

- Todos os clubes em Portugal estão numa luta pela sobrevivência. O modelo está esgotado e isto não é para o Sporting, é para todos. O modelo precisa de ser repensado.

- Os condicionalismos vão aumentar?

- Uma sociedade que atravessa um período de austeridade e contenção não pode esperar que as pessoas consigam libertar mais fundos para apoiar os clubes. Se as verbas já antes não davam, agora o cenário ainda é pior. Cada vez vai haver mais limitações, seja pela comercialização das ‘game box', pela venda dos bilhetes ou pelas receitas das transmissões televisivas.

- De que maneira o Sporting deve basear o seu futuro, dado que já tem pouco património?

- Deve fazê-lo apostando forte no futebol, que é a mola real. Continuar a formar. Penso mesmo que um ponto de diferença na possibilidade de um investidor estrangeiro apostar no Sporting é este ter uma Formação reconhecida internacionalmente.


- O Sporting está a aproveitar mal a sua Formação?

- Pode aproveitar melhor, mas não acho que a aproveite mal. Já saíram da nossa formação dois jogadores eleitos os melhores do Mundo [Figo e Ronaldo].

- Ficou a ideia, a certa altura, de que o Sporting se estava a transformar num projecto imobiliário. Não se descurou aí a vertente desportiva?

- Já João Rocha, nos anos 70, trouxe a Sociedade de Construções e Planeamento como grande elemento de viragem para a criação de uma plataforma de apoio desportivo. Era já uma noção clara de que os clubes não podiam viver das receitas de bilheteira e das receitas de sócios.

- Como se explica esta descolagem dos rivais em relação ao Sporting?

- O Sporting foi sempre um clube ligado ao poder e conviveu mal com as mudanças políticas que aconteceram. Não se preparou, não teve condições, mas está sempre a tempo de as encontrar. O Sporting não é claramente um clube preferido, por exemplo, na arbitragem. Benfica e FC Porto são os preferidos.

- O Sporting foi o parente pobre do poder político nos últimos anos?

- Claramente. Foi prejudicado nas negociações com a Câmara relativamente ao Benfica.

PERFIL

Paulo Luís Ávila Abreu nasceu na Horta, no Faial. a 27 de Setembro de 1946. É empresário, casado e pai de dois filhos. A ligação com o Sporting começou há mais de 30 anos, integrando uma comissão de gestão com João Rocha. Esteve também nas direcções de Santana Lopes, José Roquette e José Eduardo Bettencourt. Sócio 1888 e membro do Conselho Leonino, foi presidente do Grupo Stromp até 2010.

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