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Sete títulos em cinco anos consolidaram-lhe um estatuto invejável entre os treinadores que trabalham em Angola. Agora, a passar uns dias de férias em Guimarães, o português que comanda o ASA abriu o coração ao CM. Falou de conquistas e de vivências entre elogios à pátria que o acolheu.
- Correio da Manhã – Que balanço faz, conquistado que está mais um título – Taça de Angola – à experiência angolana?
- Bernardino Pedroto – Um balanço extremamente positivo. Desportivamente, desde que cheguei em Junho de 2000, conquistámos três campeonatos, três Supertaças e agora a Taça de Angola, pelo que o balanço só pode ser positivo. São sete títulos em cinco anos. A nível social, também só posso dizer o melhor. Encontrei um povo generoso, simpático e acolhedor. E reconheço que recebi o convite para treinar em Angola com natural cepticismo, receoso e sem saber muito bem o que iria encontrar. Valeu então a experiência de técnicos como Neca e Jesualdo Ferreira, que me deram as informações de que necessitava.
- Tem já novos projectos para implementar no ASA?
- Em Angola há sempre muito por fazer, novos desafios à nossa capacidade e isso estimula. Quando cheguei, fui encontrar um clube com enormes dificuldades a todos os níveis. O campo de treino não tinha condições, estava completamente degradado, mas agora, felizmente, temos um campo de relva sintética para trabalhar... Há progresso. O papel do treinador é abrangente, mas estou de corpo e alma no ASA. Vou para o sexto ano, mas a ambição é a de sempre. Quero ganhar, tenho esse estímulo.
- Já traçou a próxima meta?
- Depois de tudo o que alcançámos a nível interno, agora vamos procurar fazer uma equipa capaz de chegar tão longe quanto possível na Liga dos Campeões, ganha este ano pelo Manuel José. Vencer ou chegar a um lugar honroso será histórico.
-Foi com mágoa que deixou Portugal?
- Sinceramente, não saí de Portugal com mágoa de ninguém. Na altura, estava desempregado e, como acontece com todos os treinadores, tinha grande necessidade de trabalhar. Não só pelos aspectos financeiros, mas igualmente pelos morais. Foi uma situação que a vida me colocou.
- Que diferenças encontrou?
- É impossível estabelecer um paralelismo ou fazer uma comparação. São realidades distintas. Quando cheguei ainda se realizavam jogos de campeonato em pelados. Mas a partir de 2002, a Federação tomou medidas que determinaram uma melhoria clara do futebol, obrigando todas as equipas a jogar em relvados. Mais importante que observar as carências é sentir que as pessoas, os dirigentes, estão apostadas em melhorar o futebol. Nota-se que existe uma vontade de aperfeiçoamento constante e isso é bom. E Angola, hoje, é vista em qualquer parte do mundo...
- Qual a importância do apuramento para o Mundial?
- É algo histórico, porque foi a primeira vez que Angola garantiu presença numa fase final e isso marca as pessoas. Viveu-se uma alegria generalizada, contagiante. Foi uma prenda fantástica dos jogadores para um povo merecedor desta alegria. Agora, espero que os efeitos que advenham passem por despertar ainda mais o interesse de todos os agentes do futebol para a continuidade do trabalho que vem sendo feito. No fundo, que esta presença seja o veículo catalisador para a boa evolução do futebol.
- As relações entre técnicos e seleccionadores estão na ordem do dia. Como é a convivência em Angola?
- Em Angola, a inter-relação entre as pessoas é completamente diferente do que acontece em Portugal. As pessoas são mais abertas. Em Portugal, no Inverno, as pessoas ficam recolhidas em suas casas e quase não se vêem os amigos. Ora, em Angola isso não sucede. Há muito mais convívio e com o seleccionador Oliveira Gonçalves não foge à regra. Falamos regularmente.
- E para quando um regresso a Portugal?
- Isso não depende apenas de mim. Primeiro tem de haver convites. Já os houve, é certo, mas na altura não podia aceitar. Para já, tenho um compromisso com a direcção do ASA no sentido de continuar, mas também sei que os dirigentes não se iriam opor a uma saída se soubessem que esse era o meu desejo. Mas era preciso haver convites...
- O efeito Mourinho chegou a Angola?
- Claro que sim, há interesse pela sua pessoa, como há por outras figuras mediáticas e ligadas a conquistas. Mas o tal efeito Mourinho, que passa muito por um trabalho cuidado ao nível da imagem, serve-o essencialmente a ele próprio, porque todos nós, treinadores, somos diferentes. Claro que tento aprender, pela qualidade do seu trabalho e pela sua forma de estar muito própria, tal como faço em relação a outros técnicos. É assim que se evoluí.
- Não sente que o seu trabalho é pouco reconhecido em Portugal?
- …Cada um merece aquilo que tem (risos). Era bom se houvesse mais informação sobre o trabalho dos técnicos que estão fora, porque somos embaixadores de Portugal. As pessoas sabem que somos portugueses, logo o meu comportamento social e desportivo faz com que transporte comigo Portugal em Angola. Importa ser rigoroso, até porque a minha imagem em Angola abre as portas do país a outros portugueses. Mas entendo os motivos que levam a Imprensa a centrar atenções noutras figuras vitoriosas.
- Alguma vez se sentiu condicionado por ser filho de José Maria Pedroto?
- Nunca. Não conheço a sensibilidade dos outros, mas nunca senti hostilidade à minha pessoa. E as exigências para comigo são idênticas às dos outros treinadores. No fundo, os dirigentes querem é ganhar.
"MANUEL JOSÉ ELEVOU NOME DE PORTUGAL"
As palavras revelam-lhe o entusiasmo. Bernardino Pedroto, mesmo à distância, segue com especial interesse as carreiras de outros que, como ele próprio, galgaram um dia as fronteiras de Portugal. A recente conquista de Manuel José, o amigo que venceu a ‘Champions’ africana ao serviço do Al-Ahly, foi vivida de forma especial.
“Foi de facto uma grande alegria. O Manuel José foi meu treinador no V. Guimarães e no Portimonense, também fomos adversários”, realça, avivando recordações de outros tempos. “Elevou o nome de Portugal. Fico feliz não só por ele, mas por todos os portugueses que consigam conquistas importantes”, diz, antes de expressar um lamento: “Tive muita pena do Artur Jorge, eliminado do Mundial no último segundo, depois de uma campanha fantástica ao serviço dos Camarões. E ainda há o Acácio Casimiro, o Henrique Calisto, o José Romão… torço por todos eles”, sustenta, voltando a destacar a recente conquista de Manuel José.
“A importância da Liga dos Campeões Africana é idêntica à europeia. É o título que todos perseguem, que todos desejam… Mas a verdade é que o treinador que a ganhou, como já antes tinha conseguido, é um português e esse facto é merecedor de orgulho”.
"FRANÇA É EXEMPLO A SEGUIR"
Bernardino Pedroto não tem dúvidas. Angola, como tantos outros países, espelha bem o imenso potencial que abraça África. Mas há ainda muito por explorar no que a jogadores diz respeito. Porque o filão, garante, é inesgotável.
O técnico socorre-se do exemplo francês para deixar um recado directo aos responsáveis portugueses. “Em França há muitos jogadores de ascendência africana na Selecção. Mas o comportamento político dos seus responsáveis é diferente do nosso. As pessoas da África francófona iam para França e era-lhes concedido estatuto de igualdade para desempenharem as suas actividades. E Portugal, através da política governamental, deveria ter o cuidado de dar aos jogadores de futebol as mesmas condições, conferindo-lhes estatuto de igualdade. Porque os angolanos em Portugal são considerados estrangeiros e isso limita a acção dos clubes”, disse Bernardino Pedroto, atento ao futuro: “Talvez agora, com Angola no Mundial, clubes e empresários despertem para essa alternativa. Angola e Moçambique têm muito potencial. Na formação do ASA, tenho jogadores com condições fabulosas e sei que em Portugal poderiam crescer muito”, garante, antes de elogiar o trabalho de formação do ASA.
“Pretendemos que a formação escolar chegue ao nosso clube, porque a grande maioria dos nossos atletas provêem de famílias com dificuldades, acabando por deixar os estudos cedo de mais. O ASA quer inverter este estado de coisas e trazer a escola ao clube”.
"ANGOLA EM PAZ E A CRESCER"
Já depois de celebrados os 30 anos de independência angolana importava saber qual o real estado de um país habituado a andar nas bocas do mundo pelas piores razões. “As melhorias são evidentes e reflectem a vontade de todo um povo. Há um entusiasmo enorme das gentes no sentido de Angola crescer. Há muito trabalho ainda a fazer, é certo, mas nota-se um empenho de todos para se construir um país moderno”, diz, satisfeito, entre elogios ao povo angolano. “Angola está a aproveitar a paz da melhor forma. Esta gente merece viver com esperança”, afiança.
António Carlos Bernardino Pedroto nasceu a 19 de Outubro de 1953 e cedo descobriu a paixão pelo futebol. Tem actualmente 52 anos de idade e perto de 20 enquanto treinador. Antes de abraçar a carreira de técnico, destacou-se como futebolista profissional. No Benfica deu os primeiros pontapés, antes de passar por clubes como Guimarães, Marítimo e Portimonense, onde terminaria a carreira de jogador. Manteve-se no futebol.
No Silves iniciou-se enquanto técnico. Portimonense, Guimarães Varzim, Campomaiorense, Gil Vicente e Benfica de Castelo Branco são outros clubes que conheceu. Em Angola vive a primeira experiência internacional. Bernardino Pedroto é casado e pai de duas filhas.
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