A ESCOLA EM 5 PASSOS
Na escola todos os anos são importantes. Mas há momentos chave, que para a criança ou adolescente representam uma ruptura total com o passado – como a pré-primária. Acompanhámos cinco famílias em tempo de viragem.
PRÉ-PRIMÁRIA - LONGE DA MAMÃ
Habituou-se ao ‘flash’ da máquina fotográfica logo nos primeiros dias de vida. Não teve outro remédio. A mãe, Marta Dias Ferreira, 32 anos, faz questão de documentar todos os passos da filha em fotografia ou em filme. Os álbuns, entretanto, já se acumularam nas prateleiras da sua casa. Abre-se uma gaveta ao acaso e saem de lá mais fotos soltas da família, a decorar a árvore de Natal, em férias ou a comemorar as vitórias da selecção portuguesa no Euro 2004. Está tudo registado para mais tarde recordarem.
Não admira por isso que Maria Canas Mendes, com quase três anos de idade, se sinta à-vontade a posar para a câmara do fotógrafo da Domingo Magazine. “Estou impressionada. Comigo faz de propósito para não olhar. Tenho de lhe pedir por favor...”, confessa a mãe, em tom de brincadeira, ao vê-la tão concentrada naquela tarefa.
Filha e neta única, Maria está habituada a ser o centro de todas as atenções. É por isso natural que tenha aprendido rapidamente a pronunciar as palavras ‘é meu’ e se sinta renitente em partilhar os seus brinquedos com outros meninos.
“Como não queria que a minha filha se transformasse numa criança mimada, fiz questão de inscrevê-la num infantário aos dois anos de idade”, conta Marta, economista.
Tanto o pai – Luís, médico de profissão – como o pediatra, tentaram convencê-la do contrário. “Disseram-me para eu esperar mais um ano, mas eu estava mesmo convencida que ela precisava de aprender a conviver com mais crianças da idade dela”, explica a mãe. Talvez assim Maria não sentisse um choque tão grande quando fosse para a pré-primária.
Apesar de se ter adaptado rapidamente à rotina do infantário, foram mais as vezes que faltou por motivos de doença. Estava sempre constipada ou com otites, e em Maio, Marta optou por ficar com ela em casa.
Apesar das constantes idas à praia e das brincadeiras nos parques infantis, Maria pergunta-lhe todos os dias quando é que volta para as aulas. “Ela está ansiosa. Já foi comigo visitar a escola e ficou encantada. Acho que vai adaptar-se rapidamente.”
A duas semanas do início das aulas, já não esconde o nervosismo: “Quero fazer amigos”, repete várias vezes. Está em pulgas para atravessar os portões imponentes do Colégio Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, ao lado dos pais e com a sua mochila da Hello Kitty às costas.
Escolher o estabelecimento de ensino foi o mais simples: “Como eu sou antiga aluna, calculei que tinha mais facilidades em matriculá-la. Nestas idades, é muito difícil arranjar uma vaga”.
A família sabe que a partir do momento em que a pequena Maria ficar na sala de aula, sozinha, apenas com a educadora infantil e os seus colegas de turma, nada será como antes. “Acabou-se a boa vida. Descanso, só aos fins-de-semana”, brinca a mãe. Maria ri-se, e por enquanto, não parece levar a sério as ‘ameaças’.
A primeira semana de aulas promete ser menos drástica, as crianças vão ter tempo para se ambientarem ao novo espaço. Mas isso é sol de pouca dura. O ritmo vai apertar: das 9h às 16h vão ter tempo para fazer desenhos, ler histórias, aprender inglês e até fazer ginástica: “Está na altura de exercitar o corpo roliço”, diz-lhe a mãe. Com custo, ela levanta uma perna e começa a girar os braços: “Mãe, já sei a fazer ginástica. Posso ir para a escola?”, pergunta ansiosa pela chegada do dia 16 de Setembro.
COLÉGIO DE LUXO
Com a entrada da Maria na pré-primária, os pais contam gastar perto de 500 euros. “Esse dinheiro deve ser suficiente para pagar a primeira mensalidade da escola, roupa, sapatos e material escolar”, explica a mãe.
Só a propina mensal do Colégio Sagrado Coração de Maria, considerado um dos cem melhores do País, de acordo com o ‘ranking’ das escolas divulgado o ano passado pelos jornais, situa-se entre os 250/300 euros. “Já com o almoço e lanche incluídos.”
Apesar de ainda só ter três anos, Maria vai precisar de equipamento de ginástica, dois bibes, um para pintar e outro para utilizar nas aulas.
Marta, mãe novata nestas andanças, reconhece que não estava à espera de ter tantos gastos: “Além disso, as visitas de estudo também vão ser pagas à parte. Tenho a certeza que quando fizer as contas, no final do ano, vou chegar à conclusão que não foi nada barato”. Para ela, a educação é uma prioridade. “Prefiro reduzir os custos noutras áreas. É um sacrifício financeiro que vale a pena. Julgo que é essencial apostar num bom colégio logo a partir dos três anos de vida, é importante para o desenvolvimento dela.”
PRIMÁRIA - APRENDER A SÉRIO
Sentado em frente ao computador, Estêvão aguarda que os pais ou os irmãos mais velhos o chamem para jantar. Os seus pés, descalços, mal chegam ao chão, mas já domina as novas tecnologias como se fosse um profissional de informática. Tem cinco anos e prepara-se para começar uma nova fase da sua vida: “Vou entrar para a 1º classe. Quero aprender a ser magnífico”, diz rapidamente.
A risota é geral. Os irmãos, Miguel, de 15 anos, e Rosarinho, de 12, aproveitam a oportunidade para o provocarem: “Diz lá qualquer coisa em inglês”, suplica-lhe a irmã, com um sorriso trocista. Estêvão concentra-se, e com uma pronúncia correcta, cumprimenta-nos com um tímido ‘hello’.
Os irmãos não desistem e só o deixam em paz depois de o obrigarem a fazer algumas contas de cabeça: “E agora, soma lá dois mais dois”, volta a insistir Rosarinho, prestes a estrear-se no 8º ano. A prova oral de matemática também não o intimida, e responde a todas as perguntas acertadamente.
À primeira vista, tudo indica que não vai ter dificuldades na escola. “Ainda só consigo ler o livro do Nemo mas já sei escrever o meu nome”, confessa o benjamim da família Monteiro, residente em S. João do Estoril, que a mãe descreve como ‘bon vivant’.
“Acho-lhe uma piada. Adora petiscos, doces e miúdas. Aos cinco anos, já só fala com as amigas mais giras dos irmãos”, conta Mafalda, secretária.
O pai, Fernando, encarregado de armazém, assiste em silêncio ao desenrolar da conversa. “É o equilíbrio cá da casa. Para ele está sempre tudo bem”, conta Mafalda.
Mas afinal, a calma é só aparente. Em conversa, Fernando revela-se algo preocupado com o percurso escolar da filha Rosarinho. “Com o Estêvão, tenho a certeza que vai correr tudo bem. Ele rapidamente adapta-se às regras da escola primária. O Miguel nunca deu problemas e julgo que vai manter--se assim no 10º ano”, esclarece o pai. “Ela é que está a entrar numa fase mais delicada”, remata num tom sério.
Ao contrário dos dois irmãos – a atravessar um ano de profundas mudanças – Rosarinho, ou ‘russa’, como é carinhosamente tratada em casa, encolhe os ombros e confessa-nos que a passagem para o 8º ano não lhe vai trazer nada de novo: “Vai ser quase tudo igual. No ano passado é que senti mais a diferença. Mudei de turma e descobri novas disciplinas”, recorda.
É da Matemática que ela gosta mais. Quando chegar a altura, talvez decida ser professora, actriz ou até jornalista. “Ainda sou como aquelas crianças que dizem que gostavam de ser bombeiros ou veterinários. Ainda não sei o que escolher. Gostava de ser tanta coisa…”
Na escola, Rosarinho é boa aluna, mas as suas notas ficam sempre aquém das do irmão mais velho, Miguel – um dos melhores alunos do liceu. Nada que a preocupe ou lhe tire o sono.
“Ela é uma das pessoas mais tenazes e lutadoras que eu conheço. Quando é preciso defender os irmãos ou a família, é uma autêntica leoa. Emocionalmente, é mais estável do que o Miguel”, desabafa a mãe ‘babada’.
Para Mafalda Monteiro, o ano lectivo 2004/2005 promete algumas surpresas. Também ela está ansiosa com o regresso às aulas: “Costumo dizer que neste momento tenho um filho a caminho do 10º ano, outra do 8º ano, e uma incógnita. Só espero que o mais pequeno siga as pisadas do mais velho”.
Estêvão olha para a mãe e ri-se…
VEIA ARTÍSTICA
Os olhos azuis de Miguel não conseguem esconder a verdade: ele está radiante com o início das aulas. Tem 15 anos e um mundo de possibilidades à sua frente. Optou pela área das Artes mas não quer ser arquitecto. Imagina-se mais a trabalhar como escultor, pintor ou até fotógrafo.
A mãe não podia ter ficado mais satisfeita: “Estava proibido de escolher Gestão ou Direito. Além de serem cursos muito cinzentos, quando se tem um dom, devemos fomentá-lo”, admite Mafalda, meio a brincar.
A veia artística corre no sangue da família, os quadros de Miguel estão expostos ao longo das paredes da casa. “Na antiga escola, os professores eram fantásticos. Incentivavam-no sempre. Só tenho pena que nas escolas portuguesas não se promova mais a diferença”, acrescenta a mãe.
Com a passagem para o 10º ano, Miguel diz adeus à sua antiga escola. A mudança não o aflige: “Os primeiros meses vão ser emocionantes. Sou mais velho e deixei para trás o ensino obrigatório”, confessa, divertido.
Habituado a trabalhar muito para tirar boas notas, vai continuar a dar tudo por tudo na escola para não decepcionar a família.
“Acostumaram-se a um certo nível e quero continuar a dar-lhes alegrias. Mas os meus pais nunca me maçam com os trabalhos de casa ou os testes porque sabem que eu sou responsável”, conclui o adolescente.
ESTADO PAGA LIVROS
Ser pai de três filhos em Portugal não é tarefa fácil. Livros, propinas, roupas e alimentação pesam muito no orçamento da família Monteiro. “Ainda por cima, os livros do Miguel nem sequer podem ser usados pela Rosarinho”, lamenta-se Mafalda.
Para fazer face a tantas despesas mensais, família conta com o apoio do Serviço de Acção Social Escolar (SASE) - uma verba dada pelo Estado de acordo com o rendimento das famílias. E como a funcionária da escola encarregue de tratar destes assuntos até já os conhecia bem, e sabia que eram pessoas responsáveis, Mafalda tinha a vida mais facilitada.
“No ano passado, o Sase pagou metade das refeições dos meus filhos mais velhos, e ainda metade da despesa com os livros escolares”.
Mesmo assim, com todas as ajudas do Estado, os pais ainda tiveram de desembolsar mais de 150 euros.
Este ano, Mafalda está um pouco assustada. Com a passagem do Miguel para o 10º ano, que já não é ensino obrigatório, as regras do SASE mudam. “Ele tem oito ou nove disciplinas e o preço médio dos livros ronda os 30 euros. Além disso, vai precisar de uma máquina calculadora que custa mais de 150 euros.”
7º ANO - A COISA COMPLICA-SE
Os novos livros escolares já estão etiquetados e impecavelmente forrados com papel autocolante transparente. As páginas ainda têm aquele cheiro característico, a novo, como se tivessem acabado de sair da gráfica. Por enquanto, conservam-se imaculadas, sem sinais de riscos de esferográfica, mas dentro de duas semanas vão começar a fazer a curta viagem de casa para a escola, e vice-versa, na mochila de Marta Borges, aluna do 7º ano do Colégio D. Afonso V, em Mem Martins. Resultado: de tanto serem manuseados pela adolescente de 12 anos, aluna aplicada desde a primária, vão perder o tal cheiro a novo, e tal como ela, acabarão o ano estafados. Quando as férias grandes começarem, Marta terá o cuidado de os arrumar no armário do seu quarto, ao lado dos seus antigos compêndios do 5 ou 6º ano de escolaridade. Nunca se sabe quando é que vão voltar a ser precisos.
Este ano, como se não bastasse o peso dos manuais de Português, Matemática ou História, as costas desta aluna do 7º ano vão andar ainda mais curvadas: Marta estreia-se no estudo de uma nova língua estrangeira, Francês, e prepara-se para explorar as disciplinas de Físico-Química e Educação Tecnológica.
Para evitar dissabores, a estratégia já está toda delineada: “Não estou com receio. Se começar a seguir a matéria desde o início, o mais provável é não ter problemas”, explica a filha de Ana e Mário Borges, empresários do sector da decoração.
Por estarem conscientes que a filha vai começar uma nova fase do seu percurso escolar, os pais optaram por comprar-lhe atempadamente os livros escolares, para que ela se pudesse familiarizar com as novas disciplinas. “Agora é a doer”, reconhece o pai. “A Matemática, por exemplo, é mais puxada. E como ela já teve dificuldades o ano passado.”
Lá em casa, a mãe é a explicadora de serviço. Licenciada em História, Ana sonhava em ser professora. O destino trocou-lhe as voltas, mas faz o gosto ao dedo quando a filha lhe pede ajuda. Acompanhar as constantes reformas curriculares é que não é tarefa fácil: “O ensino e mudou muito. No meu tempo, era essencial ter boas notas a Português e Matemática. Agora já não é bem assim. Dá-se muita importância à Área de Projectos ”, explica.
Até agora, Marta nunca lhes deu motivos para se preocuparem. Em tom de brincadeira, a mãe define-a como uma aluna demasiado perfeccionista.“Desde pequena que ela se habituou a ser responsável. Nunca foi preciso motivá-la ou oferecer-lhe presentes em troca de boas notas ”, confessa Ana Borges.
Foi por isso que a família ficou preocupada quando viu a filha, na altura com 10 anos e a dar os primeiros passos no 5º ano, cabisbaixa e infeliz na altura de arrumar os cadernos na mochila e ir para a escola. Marta tinha acabado de se mudar para o liceu perto de casa, mas as coisas não correram como o previsto. Já lá vão dois anos, e Ana e Mário ainda se recordam da história como se fosse ontem: “Na altura, fizemos questão que ela fosse para o ensino público. Tem fama de ser tão bom ou melhor do que o privado. Era uma exigência nossa. Mas apercebemo-nos rapidamente que ela andava de rastos”, conta a mãe.
O MEU QUARTO NOVO
Na escola nova, Marta não conhecia ninguém. E a turma nem se esforçou para fazê-la sentir-se bem-vinda. Começaram a vê-la com atenção às aulas, a tirar apontamentos, e colocaram-na logo de parte. Marta passava os intervalos sozinha, a ver os outros a brincar. “Foi um choque enorme. Ela é uma criança muito sociável, e de repente, sentiu-se isolada. Contou-me depois que as raparigas faziam brincadeiras mais masculinas”, confirma a mãe.
Ao jantar, os pais queriam sempre saber como é que o dia lhe tinha corrido. Marta tentava deixá-los mais descansados, mas os seus olhos não enganavam ninguém. “Ela queria resolver tudo sozinha. Mas houve um dia que não aguentou e deixou escorrer duas lágrimas. Vi logo que a situação era pior do que eu pensava”, diz a mãe.
Ao fim de uma semana os pais conseguiram matriculá-la no Colégio D. Afonso V: “Ainda pensámos mantê-la no liceu porque ela acabaria por se habituar ao ambiente e arranjar amigas. Tivemos foi pena que ela perdesse a motivação pelo estudo só para ser aceite na turma”, conta o pai.
Um preço demasiado alto para pagar. A família não quis arriscar e hoje não podia estar mais satisfeita com a decisão. Ao ouvir os pais a falar, Marta acena que sim com a cabeça. No Colégio voltou a reencontrar-se com todas as suas amigas da primária e recuperou a alegria de ir para a escola: “Não sei o que teria acontecido se tivesse ficado no liceu. Já pensei várias vezes nisso, mas não consigo imaginar”, admite a estudante.
A caminho do 7º ano, Marta tem o seu nome inscrito no quadro de honra da escola. Os seus cadernos estão sempre organizados, nunca se esquece de fazer os trabalhos de casa. Ainda não sabe ao certo que profissão é que gostava de seguir - mantém-se indecisa entre médica, professora ou veterinária. Caso opte pela última, a sua cadela Lunera, ou Luna para os amigos, serve de ‘cobaia’.
Aos 12 anos, Marta tem sido uma filha exemplar. A mãe que o diga: “Temos sorte porque ela nem sequer é uma criança exigente. É muito ponderada. E o principal é que sabe que pode contar connosco”.
Quando a filha lhe pediu se podia remodelar o quarto, torná-lo mais ‘adulto’, com menos brinquedos à vista, Ana nem hesitou. Ajudou-a a arrumar a colecção ‘Uma Aventura’ na prateleira, ao lado das típicas bugigangas das pré-adolescentes.
Um quarto novo que a vai ajudar a enfrentar os próximos desafios.
250 EUROS POR ANO
Ana e Mário Borges só têm uma filha por opção. Foi a única forma encontrada para conseguirem suportar o custo financeiro dos livros, das propina da escola, alimentação, vestuário, calçado e óculos. “E ainda por cima, nesta fase estão sempre a crescer”, diz a mãe.
No início das aulas, o Colégio D. Afonso V fornece os cadernos para todas as disciplinas. “Sempre é menos uma despesa. Mas todos os anos gastamos à volta de 250 euros em livros. No mínimo”, garante.
Para conseguirem ter a filha no ensino privado gastam todos os meses mais de 260 euros. “Sem as refeições, que custam 6.50 cada uma, um preço elevado”, acrescenta o pai. “Mas a educação é prioritária”, remata.
10º ANO - A IDADE DA ESCOLHA
Assim que começou a sessão de fotografias, os dois ‘peluches’ que estavam encostados à cama de madeira, os sobrinhos do Pato Donald, Huguinho e Luisinho, saíram de cena.
Ainda antes do primeiro disparo, a mãe do Diogo, Maria Manuela Belbute, professora de Francês e Português na Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal, pegou nos patos e estrategicamente afastou-os da lente do fotógrafo. “É a empregada que os coloca ali”, disse em voz baixa, enquanto os arrumava a um canto.
Diogo, de 15 anos, bem pode agradecer à mãe. Foi tudo tão rápido que ele, entretido com a nossa presença, nem se apercebeu. O pior seria depois: a reacção dos colegas e amigos da escola quando o vissem sentado na cama, ao pé da bonecada.
A caminho do 10º ano, é natural que ele prefira ser fotografado com a sua guitarra, que começou a aprender a tocar há um ano, ou ao lado dos ‘posters’ das vedetas ‘pop’, Britney Spears e da Jennifer Lopez, colados com fita-cola numa das paredes do seu quarto - por sinal, impecavelmente arrumado.
Depois de usados até à exaustão, os livros do 9º ano já estão arrumados dentro do armário e em cima da escrivaninha, onde Diogo costuma estudar para os testes, nem sinais de papelada ou cadernos espalhados. Apenas o último livro da colecção Harry Potter.
E tal como o herói de J.K. Rowling, também ele é um aluno acima da média, responsável e inteligente. Tem quase sempre a nota máxima a todas as disciplinas e não sabe o que é ter uma negativa num teste ou na pauta.
Para este estudante da Escola Secundária de Bocage, em Setúbal, não há truques infalíveis nem cábulas. Apenas trabalho diário: “Costumo estar com muita atenção nas aulas. Nem sequer gosto que falem comigo. Depois chego a casa e faço os trabalhos num instante. Na altura dos testes, raramente preciso de estudar na véspera”, explica o adolescente, preparado para entrar no 10º ano, na área de Ciências e Tecnologias.
Sente-se diferente ou ansioso por estar prestes a começar uma nova etapa do seu percurso escolar? Ele prefere não dar parte de fraco.“Como já não estou no ensino obrigatório, vou passar a ser tratado como um adulto. Acho que mereço outro respeito porque sou eu que quero estar ali, ninguém me obriga”, desabafa, consciente das mudanças que vão ocorrer nos próximos meses. É com pena que se despede da disciplina de Educação Visual e se prepara para o primeiro encontro com a Filosofia.
“Tenho a sensação de que não vou gostar muito…”, profetiza. Por outro lado, mostra-se satisfeito por estar cada vez mais perto de realizar o seu sonho: estudar Medicina.
SALTO DE TRAMPOLIM
Há três ou quatro anos decidiu que queria ser pediatra, ou talvez especializar-se em Pedopsiquiatria, mas para conseguir vestir a bata branca ainda vão ser precisos anos e anos de estudo.
Nada que o intimide: “Sinto que o 10º ano vai ser puxado e com mais rivalidade entre os colegas de turma. A partir de agora é a sério. Tenho mesmo de me agarrar aos livros”, confessa. Depois, olha de soslaio para a mãe e acrescenta: “Mas estou motivado. Além disso, não posso começar a tirar más notas ou a deixar de estudar. Se fizesse isso deixava de ter autorização para sair com os meus amigos”.
Ao ouvi-lo falar, Maria Manuela ri-se. Como professora e mãe de dois rapazes – Pedro, o seu filho mais velho, começa este ano a estudar Engenharia Aeroespacial, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa – conhece bem os problemas da adolescência.
“Até agora, o Diogo também nunca nos deu problemas ou motivos de preocupação. É um rapaz muito equilibrado. Nos próximos anos tudo pode mudar. É uma incógnita”, confessa a professora.
Por defeito de profissão, tanto ela como o pai, José Manuel (professor universitário na Universidade de Évora, na área de Economia), interessam-se muito pelo percurso escolar dos filhos.
“Eles não têm forma de escapar. Somos um pouco exigentes. Desde que entraram para a escola primária, tivemos o cuidado de lhes dizer que deviam trabalhar para eles e não para nos agradar. Ter os conhecimentos sedimentados torna o estudo mais fácil de ano para ano”, assegura Maria Manuela.
O pai acrescenta: “O Diogo nunca estuda na véspera dos testes. Sabe gerir o tempo, e isso facilita-lhe a vida. Não é obcecado pelo estudo”.
Como um típico adolescente da sua idade, não teve qualquer dificuldade em conciliar a escola com a actividade desportiva – desde a primária que dá saltos no trampolim do Estádio Vitória de Setúbal – e com algumas saídas com os amigos.
Com 15 anos, reclama porém mais liberdade: “Não posso ficar para trás. Fica mal”, explica Diogo. Os pais não se mostram surpreendidos, ainda há bem pouco tempo ouviram o Pedro, três anos mais velho, pedir-lhes o mesmo. “É um processo normal. Ser pai é uma aprendizagem constante”, admite José Manuel. “Mas como tenho confiança na formação que lhes dei, e sei que a base está lá, acredito que não vai haver problemas.”
ESTUDAR COM DESCONTO
A duas semanas do início das aulas, Diogo ainda não comprou os livros novos. Nada que preocupe a mãe, Maria Manuela. Por ser professora, tem a vantagem de encomendar directamente às editoras – e ainda por cima com desconto.
“Mesmo assim, no ano passado gastámos mais de 150 euros. E como os livros mudam de três em três anos, o Diogo nunca conseguiu aproveitar os manuais do Pedro”, reclama a mãe.
Uma situação que deveria ser corrigida, mas ao contrário da maioria dos portugueses, com poucos rendimentos, a família Belbute não precisa de pôr algum dinheiro de parte para pagar as despesas escolares dos filhos. No entanto, queixam-se do preço exorbitante de alguns manuais: “Quando o Pedro estava no 12º ano tive de lhe comprar um livro de 40 euros. É demais para o ensino secundário”.
UNIVERSIDADE - A SÓS
Em pequeno dizia que queria ser arquitecto mas teve de voltar com a palavra atrás quando descobriu que lhe faltava o jeito para o desenho. Por exclusão de partes, e como até gostava de matemática, optou pelo curso de Gestão. “Não posso negar que os amigos também me influenciaram”, confessa Lourenço Kadosh, de 18 anos.
Depois de um percurso escolar algo atribulado, tendo inclusivamente chumbado no 12º ano, Lourenço conseguiu concretizar o sonho de entrar na faculdade. No final de Setembro, é a vez dele de percorrer os corredores labirínticos da Universidade Nova, em Lisboa.
Só dispensava a praxe: “Nunca achei muita piada, mas agora tenho de me sujeitar. O mais estranho é que vou deixar de ser um dos alunos mais velhos do liceu para passar a ser um dos mais jovens na faculdade”, conta o caloiro, jogador de Râguebi da equipa do Instituto Superior de Agronomia (ISA) há mais de oito anos.
O desporto é a sua verdadeira paixão. É por amor à camisola que Lourenço treina cinco vezes por semana, chega a casa já depois da hora de jantar e abdica das saídas à noite com os amigos. Tanta dedicação à causa acabou por se reflectir nos estudos. Em especial na Matemática.
Lourenço aproveita para fazer ‘mea culpa’: “Desleixei-me e acabei por chumbar a duas disciplinas. Se me tivesse aplicado mais, nada disso tinha acontecido”.
Este ano, as coisas vão complicar-se. Alguns dos seus amigos, que já estão a frequentar o curso de Gestão, dizem-lhe que o ambiente é diferente, o ritmo é mais puxado e os professores nem sequer sabem o nome da maior parte dos alunos. Só é possível passar ou tirar boas notas à custa de muito trabalho e motivação.
“Estou bastante preocupada”, admite a mãe, Inês, empresária na área do ‘catering’. “Como é que ele vai conseguir tirar um curso universitário se vive tão embrenhado no Râguebi?”, pergunta-lhe.
Lourenço, algo intimidado, limita-se a olhar para ela, e não lhe consegue dar uma resposta concreta. Nem lhe passa pela cabeça prometer-lhe que vai levar o desporto menos a sério.
“É tudo uma questão de força de vontade, empenho”, continua Inês. “Como vai estudar Gestão, que era o curso que ele tanto ambicionava, estou com esperança que se entusiasme e consiga ter tempo para tudo.”
ENTRAR NA LINHA
O atleta não vai ter como escapar. A mãe e a namorada, estudante de Direito na Universidade Católica, prometem mantê-lo na linha. “Ela é boa aluna e vai começar a frequentar o 2º ano. Tem sido uma grande ajuda porque acreditou sempre em mim, incentivou-me a estudar mais e a dar o meu melhor”, reconhece Lourenço.
Se os dias tivessem 48 horas, talvez conseguisse dar mais atenção à namorada, estudar e passar algum tempo com a família.
“Só no ano passado estive três meses fora. Como fazia parte da selecção nacional de júniores, passei duas semanas na África do Sul, e mais umas tantas no País de Gales, França e Roménia”, recorda o universitário.
Apesar de ter ido carregado com os livros, a conselho da namorada aplicada, limitou-se a tirá-los da mala para apanharem ar. “Não adiantou nada. Nem sequer os abri”, conta.
Valeram-lhe os meses que passou em casa agarrado aos manuais de exercícios de Matemática. Tanto esforço, suor e lágrimas acabaram por dar frutos: Lourenço passou mesmo à tangente, com 10, o suficiente para recomeçar a sonhar com a Universidade Nova. “O facto de ser atleta de alta competição abriu-me as portas. Senão, nem de longe, nem de perto, conseguia entrar numa das melhores faculdades públicas do País. Tinha uma média de 12 ou 13, ficava muito aquém dos mínimos exigidos”, confessa o atleta profissional. Para ele, o próximo ano é um desafio: “Arrisquei, agora quero ver se consigo aguentar o ritmo”.
DE FATO E GRAVATA
Para quem está habituado a fazer quilómetros num campo de Râguebi, a marcar ensaios ou penalidades, a vida universitária poderia parecer um passeio no parque. Mas as palavras de Lourenço denotam alguma ansiedade: “É provável que esteja atrasado em relação aos meus colegas de turma. É provável que as pessoas sejam mais competitivas e nem sequer queiram emprestar os apontamentos. Isso não me preocupa, vou ter de aprender a estudar sozinho”, reconhece o futuro gestor. Para já, não sabe ao certo o que quer fazer quando concluir o curso.
E apesar de o termos encontrado de calções e havaianas, com um ar relaxado, Lourenço não nos deixa de surpreender ao confessar que se imagina a trabalhar de fato e gravata, atrás de uma secretária, a atender telefonemas e a resolver problemas. “Talvez a fazer qualquer coisa ligada à área de contabilidade. No ano passado tive Técnicas de Organização Empresarial e gostei muito”.
A mãe está estupefacta. Ninguém o conhece tão bem quanto ela. “Acho que o Lourenço, tal como o seu irmão mais velho, não consegue viver sem o desporto. Só o vejo atrás de uma secretária se estiver sentado a dar chutos na bola ou a pensar num passe de Râguebi”, confirma a mãe. “Só assim é que ele será verdadeiramente feliz.”
PROPINAS ACEITÁVEIS
Em casa de Lourenço Kadosh, o dinheiro não chega para tudo. A mãe, separada, gostava de levar os três filhos mais vezes ao estrangeiro, mas prefere investir tudo no futuro deles. “Eles agora têm é de estudar para um dia conseguirem ser independentes.”
No ano passado, Inês gastou mais de 200 euros em livros – um valor que não considera excessivo. Como Lourenço conseguiu entrar numa faculdade pública, a mãe prepara-se para pagar à volta de 700 euros anuais, divididos em duas ou três prestações. “Não consigo perceber tantas manifestações contra as propinas. Se formos a ver, não chega a 60 euros por mês. Muitos dos que reclamam, gastam isso em roupa ou saídas à noite.”
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