A 'REFORMA ' DE MUGABE

Considerado durante muitos anos como “o celeiro de África”, o Zimbabué poderá juntar-se brevemente à lista de países africanos que sofrem com a fome. Graças à reforma agrária de Robert Mugabe...

30 de agosto de 2002 às 20:53
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O governo do Zimbabué deu este mês ordem aos agricultores negros sem terra para invadirem as propriedades dos 2.900 fazendeiros brancos abrangidos pelo plano de reforma agrária, num gesto que poderá fazer regressar as sangrentas confrontações de há dois anos. Isto porque mais de dois terços dos agricultores brancos abrangidos por esta medida recusam-se a abandonar as terras nas quais trabalharam toda a vida.

O prazo dado pelo governo para a saída dos fazendeiros brancos expirou no passado dia 15 e, em duas semanas, já foram detidos mais de 200 agricultores brancos por desobediência. Do próprio governo chegam constantes incitamentos à ocupação das suas propriedades pelos agricultores negros sem terra, o que faz temer a repetição das violentas acções dos “veteranos de guerra” que há dois anos semearam a morte e a destruição, ocupando dezenas de propriedades pela força e espancando, mutilando ou, mesmo, assassinando os proprietários e os seus empregados negros.

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OS VETERANOS DE GUERRA

A reforma agrária de Mugabe foi lançada em Fevereiro de 2000, com o “nobre” objectivo de melhor redistribuir as terras agrícolas, até então nas mãos de apenas um por cento da população, os fazendeiros brancos. No entanto, as negociações rapidamente chegaram a um beco sem saída, com Mugabe a recusar o pagamento de qualquer tipo de indemnização aos proprietários expropriados.

Para os pressionar, o governo deu “carta branca” à actuação dos “veteranos de guerra” liderados por Chenjerai Hunzvi, mais conhecido como “Hitler”, que rapidamente semearam o terror entre os agricultores brancos. A comunidade internacional ameaçou o Zimbabué e ostracizou Mugabe, mas em vão. Nem os avisos de que o país, outrora conhecido como “o celeiro de África”, se arrisca a enfrentar o espectro da fome (a maior parte das propriedades confiscadas e entregues aos agricultores negros deixaram de produzir ou encontram-se votadas ao abandono) conseguiram demover o presidente, que garantiu que o processo é “irreversível”.

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O ÚLTIMO RADICAL

Nascido a 21 de Fevereiro de 1924 numa missão religiosa da então Rodésia, Robert Gabriel Mugabe foi educado em escolas jesuítas. Estudou na África do Sul, onde manteve contactos com vários líderes nacionalistas africanos, antes de regressar ao seu país, como professor. Abandonou o ensino em 1960 para se juntar à União Popular Africana do Zimbabué (ZAPU), de Joshua Nkono, da qual se afasta três anos depois para formar a União Nacional Africana do Zimbabué (ZANU).

As suas actividades políticas levam--no à cadeia em 1964, onde passa dez anos. Ao deixar o cárcere, fixa-se em Moçambique, a partir de onde dirige uma sangrenta guerrilha contra o governo minoritário branco de Ian Smith.

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As negociações de paz de 1979, em Londres, abrem caminho à independência da Rodésia, a 18 de Abril de 1980. O novo país muda o seu nome para Zimbabué e Mugabe toma posse como primeiro chefe de governo eleito. Dois anos depois, entra em rota de colisão com Joshua Nkono, seu parceiro no governo de união nacional, e afasta-o, lançando uma sangrenta campanha de repressão sobre os seus apoiantes.

É eleito presidente do Zimbabué em Dezembro de 1987, sendo reeleito em 1990 e 1996. Com o passar dos anos, a sua postura moderada dá lugar a um nacionalismo cada vez mais fervoroso e a um despotismo brutal, que fazem delem um dos últimos ditadores africanos.

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