Adeus alegria

São homens e mulheres que chamam casa a um pedaço de plástico. Resistem à chuva e ao frio das noites de Lisboa, mas pouco podem contra o futuro.

12 de março de 2006 às 00:00
Adeus alegria Foto: Tiago Sousa Dias
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“Nasceu pequenino e feio, mas cresceu e fez-se lindo. Não contes a ninguém, é só nosso, é segredo, mas é lindo”.

O poema não sai todo de uma vez, nem sequer é igual a cada tentativa, mas está a chover e é contado ao ouvido. Luzes fracas iluminam a noite daqueles que ninguém quer ver. A voz trémula da mulher, que por vezes se torna um grito, volta a repetir o poema, agora mais perto, ainda mais perto do ouvido. As frases são as mesmas, as hesitações mudam um pouco. “É segredo, mas é lindo.” E então o olhar solta-se, entra em espiral, não consegue parar, dá a volta ao espaço duas vezes turvado pela chuva que ainda cai. Outra vez a voz. Um grito de dor. O olhar fixa-se naquele som, agora sem qualquer sentido. A realidade mata o segredo, mas antes tira-lhe a beleza.

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Teresa e António José são duas testemunhas que assistem a esse crime invisível na Praça da Alegria. Quando a noite chega e empurra o sol para lá do quartel dos bombeiros e dos prédios de oitocentos, o jardim enche-se de sombras. Transforma-se num mundo de plástico, de sacos de plástico, de casas de plástico que nascem por toda a parte. Eles caminham de braço dado sem se tocarem. Ele traz uma garrafa de água cheia de vinho. Entram por cima, junto ao barracão de cimento que se ergue em jeito de castelo num reino de papelão e plástico “Aqui estamos, nesta antecâmara da morte.” Ele sorri. Teresa dá uma gargalhada, depois outra. A seguir zanga-se.

CASA DEBAIXO DO BRAÇO

A disposição altera-se a cada passo. E é igualmente incerta. “Eu sou a falsa mãe do rei de Portugal.” Ela traz vestido um casaco e calças de tweed, uma camisola de malha bege como o Outono numa noite de Inverno. Traz os óculos presos por uma fita, pendurados ao pescoço e longe dos olhos azuis. A casa segura-a debaixo do braço. Um plástico transparente, não muito grosso. Talvez não muito resistente. “Isto vai ficar aqui, nós vamos dar uma voltinha.” O plástico, que afinal são dois embrulhados, fica esquecido no banco de madeira. Teresa avança para a esquerda e em frente. António fica para trás, mas não tardará a alcançá-la, depois de arrumar a garrafa de plástico e o saco do Minipreço no mesmo banco.

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Tudo o que vêem é seu, nada do que vêem lhes pertence. Este é o mundo de quem tem tudo sem ser dono de nada. Por entre a chuva, cada vez mais forte, ele e ela, falsa rainha e fidalgo, arrastam os pés pelo chão da ilha verde e triste que se ergue na Praça da Alegria. “Aprendi a estar na rua e gostar desta gente e da rua. São pessoas que dão valor ao pouco que têm.” António vive no meio dos amigos há anos, mas continua a falar deles como se os visse da janela. É mais um entre iguais, disso ninguém duvida. Nem ele, nem eles, nem quem os vê.

A Câmara Municipal de Lisboa chamou Alfredo Keil, autor da música do hino nacional, a este jardim. Mas não pode ser ‘A Portuguesa’ a banda sonora destas vidas. Há outros ritmos por aqui e mais alguns, no futuro, de que já se ouvem os acordes. Se fosse António a escolher, talvez optasse pela ‘Marcha Fúnebre’. “Já viu, parecem sacos de cadáveres. Por isso é que isto parece uma antecâmara.” Os ‘cadáveres’ de gente adormecida estão por toda a parte e há sempre mais um depois de se reparar no anterior. Alguns parecem apenas sacos, outros estão fechados como casulos, como se fosse impossível haver gente ali dentro. “Estão todos a dormir”, diz Teresa.

Uma carrinha sobe o passeio, as luzes dos travões anunciam o segundo acto. Ninguém acorda, mas as mulheres que esperavam sentadas no banco, aproveitando a sombra nocturna das enormes árvores para mergulharem ainda mais na escuridão, movimentam-se para as luzes vermelhas. Mais homens e mulheres aparecem vindos de lugares improváveis, como se algo os chamasse para ali. A porta está aberta e há mãos que pedem e mãos que dão. Misturam-se, perdem-se no meio das sandes e dos copos de leite e das sopas e de uma ou outra peça de roupa. Trocam-se palavras. “É, é verdade... Podia estar a fazer muitas coisas a esta hora, mas creio que isto é mais importante. Para eles e também para mim. E há tantas coisas na vida que não são importantes”, diz Pedro Rapaz, 31 anos, voluntário da Comunidade Vida e Paz, uma das dezenas de entidades que percorrem a noite no anonimato estendendo a mão.

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À PROCURA DE UMA LUZ

Na penumbra do jardim há quem veja a cena à distância. Teresa e António estão mais abaixo, longe do grupo que se senta junto ao barracão dos jardineiros. O quartel dos Bombeiros Voluntários da Ajuda é do outro lado do passeio, mas estão todos de costas. Adam esfrega os olhos, mas nem assim consegue fixar o olhar. “Hoje não me podes fotografar, não estou em condições.” Os outros concordam, até o tipo de chapéu e brinco faz que sim com a cabeça. Há meia hora que anda por ali e só disse três frases. “Não tenho nada para dizer, não acredito nos homens. Acredito em Deus. Não desisti ainda.”

Dois ou três puxam por Adam. Ele acede e junta mais um ritmo à história da Praça da Alegria. “Já tentou tudo, não deu nada. És um grande amigo, eu aqui a querer ajuda e nada.” Chama-se ‘rap de rua’ o género que um dia, quando a oportunidade surgir, vai dar nova vida a este angolano à procura desse contrato na música. À procura de uma luz numa noite demasiado fria para ser verdade. Tem trinta anos, veio de Angola quando tinha apenas oito, mas isso é algo de que não quer falar mais. “Hoje não.”

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Neste mundo de vidas despojadas de tudo, há demasiados segredos que o orgulho fecha a sete chaves. Teresa, por exemplo, nem sempre teve os olhos vermelhos do álcool. Pede por tudo para que não se diga tudo, mas lembra que já teve emprego, marido, casa. Pragueja com a mesma facilidade com que atira nomes de autores e de obras, discute filosofia num minuto e manda alguém à merda no seguinte. E ri, ri quase tanto como parece chorar.

António observa-a. “Chamo-me Castelo Branco, escreva aí”, ordena. Depois, volta à conversa com Teresa. Discutem Portugal há 30 anos e segredos de gente conhecida como se a conhecessem e talvez conheçam e talvez não.

A 31 de Março de 1771, muito povo acorreu à Praça da Alegria para ouvir o último suspiro de Dona Izabel Xavier Clesse. Conta o olisipógrafo Norberto Araújo que além de atraiçoar o marido, o mareante Tomaz Goilão, Dona Izabel lembrou-se de o envenenar. Foi condenada a juntar-se-lhe e a corda da forca aguentou esticada nesse dia e pelo menos nos três anos seguintes o povo chamou ao largo a Praça do Suplício. Hoje, nesta noite de chuva, com vista para os que dormem na rua, as letras negras da placa toponímica escrevem coisa bem diferente. Ninguém sabe porquê.

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Adam e os outros estão em movimento, mas na direcção errada. Assim vão passar longe dos angolanos sentados no banco. Os que estão sempre por ali e os que passam sempre por ali. Lá está o analista político, o estudioso com vontade de voltar a África e o refugiado político com uma história que não se pode contar. Chama-se C.. “Os turistas passam e não compreendem como é que isto acontece em Portugal. Ficam chocados.” As roupas de C. não são iguais às dos outros. Aliás, C. parece não pertencer aqui. Não bebeu nada, não fumou nada, está apenas por aqui. Não precisa de bilhete para viver no outro lado da noite.

A presença do barracão é imponente. Talvez seja por manter afastada a luz branca e intensa do quartel dos Voluntários da Ajuda. É do outro lado da estrada, mas não chega mudar de passeio para mudar de vida e a relação entre os dois mundos nem sempre é fácil. “Já tivemos alguns problemas com eles”, admite um bombeiro. “Mas também os ajudamos quando é preciso.”

Gostem ou não da peça permanentemente em cartaz, os homens de farda, que contam com o actor António Silva na lista de comandantes, têm uma vista privilegiada para palco. Conhecem de cor as cenas e a vida de muitos dos intérpretes. “Há aqui gente com reformas de 1500 euros, que está na rua por opção. Não são todos, mas alguns estão aqui por que querem”, diz Vasco Morgado, o bombeiro autarca que pode mudar o desfecho desta história. Ou não fosse ele neto de Laura Alves.

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Antes da grande mudança, Vasco ensaiou outras mais pequenas. A que deu melhor resultado chama-se Marques e é um muro de silêncio. “Ele não vai querer falar”, alerta Vasco. E tem razão. “Não, não, não. Desculpe lá, mas não tenho nada para dizer”, diz Marques. Se ao menos fosse verdade. Se ao menos pudesse contar como chegou à Praça da Alegria, como eram os dias passados a arrumar carros, e os bombeiros que até lhe cediam um lugar para uma emergência. Como foi falando com eles. Como um dia, por uma volta do destino, acabou a dormir no quartel e a trabalhar e a envolver-se. Talvez contasse que há poucos dias tratou dos papéis para sair, por razões que, essas sim, não conta a ninguém. E, no fim, talvez explicasse porque caminha agora com os sacos de plásticos na mão para o fundo do jardim. Mas Marques, admitamos que se chama assim, foge. E leva as palavras com ele.

Outra vez Teresa, outra vez António. Sempre a mesma garrafa de plástico, agora meia de vinho. Fazem o que parece uma saudação aos recém-chegados. O xerife e mais dois, um deles é Adam. Pedro Miguel Nóbrega, o xerife, vem de peito cheio, sem medo de dar a cara, nem o nome, que é Pedro Miguel Nóbrega, nem a história, que é a de um ladrilhador sem emprego. Está na rua com amigos. Arruma carros ali para os lados do El Corte Inglés. Vai à frente, sempre à frente, Adam e outro seguem atrás. O xerife leva na mão o saco com as milagrosas garrafas de vodka, que vão ajudar a passar a noite e a esquecer a chuva e o frio e o raio do chão que é duro.

Dentro de alguns meses, Pedro, Teresa, António e todos os outros vão deixar de o sentir tão duro, mas o chão continuará o mesmo. Do outro lado da Avenida da Liberdade, onde está a Junta de Freguesia de S. José, a jovem equipa de autarcas eleita pelo Partido Social Democrata (PSD) trabalha noite dentro e encomenda bifanas ao telefone para mudar o rosto e o som à praça.

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Mas os corpos ainda estão lá.

Em pequenos grupos, indiferentes aos que já dormem, os resistentes desta noite trazem os plásticos numa mão e a garrafa na outra. A Praça da Alegria é o que sobra da sua. A Praça da Alegria ainda é o seu mundo. Tão belo como horrível. Tão grande como pequeno. Basta um trago.

PERFIL DO SEM-ABRIGO

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- Idade média: 25 a 34 anos

- Sexo maioritário: Masculino

- Nacionalidade: Português

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- Freguesia de Lisboa com mais sem-abrigo: Santo Condestável

JOÃO MESQUITA, PRESIDENTE DA JUNTA DE FREGUESIA DE SÃO JOSÉ

SONHAR COM JAZZ NO JARDIM

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A Praça da Alegria é um dos projectos na lista de João Mesquita. “Até Abril, vai ser demolido o barracão municipal”, garante João Mesquita. Será uma espécie de primeira pedra, mas ao contrário. “Vamos requalificar totalmente a zona, com uma esplanada onde se possa ouvir jazz e relaxar, com um local onde os pais possam deixar os filhos. A fórmula, diz o autarca, será suficiente para ver renascer a praça, mas lembra que está pronto a ajudar a resolver a situação dos sem-abrigo.

CÂMARA DE LISBOA TRAÇA O PERFIL DO SEM-ABRIGO

A MAIORIA É DE NACIONALIDADE PORTUGUESA

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São os dados mais recentes e mostram que um em cada três sem-abrigo de Lisboa tem entre 25 e 34 anos, a maioria é do sexo masculino, português e não consome drogas. Apenas 20 por cento são toxicodependentes. Neste estudo da Câmara Municipal, realizado em Novembro de 2004, foram identificados 930 casos de pessoas que vivem na rua.

O número certo é tão cinzento como as vidas a que diz respeito e tão difícil de actualizar como imprevisíveis são os motivos que o levam a crescer ou a diminuir. O Instituto de Segurança Social tem em curso um levantamento, que deverá estar concluído algures no primeiro semestre deste ano, e que poderá lançar alguma luz sobre o problema, através de centenas de entrevistas personalizadas e questionários conduzidos em todo o País.

No trabalho de 2004 foram analisadas 53 freguesias, sendo a do Santo Condestável aquela em que se detectaram mais casos. A maioria dos sem-abrigo é de nacionalidade portuguesa, seguindo-se os ucranianos, os romenos, os angolanos e os naturais de Cabo Verde. Mas há também alemães, brasileiros, guineenses, moldavos e russos – ainda que sejam menos. Apesar de o consumo de droga estar associado ao problema, a maioria dos sem-abrigo não é toxicodependente.

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