“Aguentei 40 pontos num braço a sangue frio”
Ainda hoje procuro o homem que me salvou de morrer quando o camião onde seguia se virou. Só sei que era um colono português.
A recordação mais marcante que trouxe de África é de um grave acidente de viação, em serviço, que me deixou marcas para o resto da vida. Fui salvo por alguém que ainda hoje não sei quem foi, mas que gostava de voltar a encontrar, para lhe agradecer condignamente.
O acidente ocorreu a 28 de Setembro de 1969. Tinha boas referências junto do comandante de pelotão e fui nomeado responsável pela bagagem de um transporte de mercadorias entre Nova Lisboa e Luanda. Durante a viagem, à passagem por Cela, a viatura Volvo despistou-se quando fazia uma ultrapassagem. Quando o camião capotou e se voltou, estive quase para morrer esmagado no interior, mas fui projectado pela janela para a rua. Ainda hoje acredito que sobrevivi por puro milagre.
Fiquei gravemente ferido, com fracturas expostas e cortes profundos em todo o corpo, deitado numa barreira, à espera que alguém me ajudasse. Passaram vários civis, que me viram em agonia, mas nenhum foi em meu auxílio. Passou então um colono, com uma camioneta carregada de cimento, que, ao ver-me a esvair em sangue, colocou-me em cima das sacas e levou-me para o Hospital de Cela, onde estive internado durante um mês. Fui depois transportado para Luanda e nunca mais tive oportunidade de voltar a Cela para descobrir quem foi o homem que me salvou a vida, para lhe agradecer.
Como sou cristão evangélico, acredito que o Deus Supremo não me deixou ficar esmagado debaixo do camião e usou este homem para me salvar a vida. Recordo--me que era magro, baixo, aparentava ter entre 40 e 50 anos, e penso que era do Norte, pois havia muitos colonos naquela parte de Angola. Ia acompanhado por alguém, penso que talvez um filho ou um empregado, mas não sei mais nada.
Em consequência do acidente, a parte do meu corpo que ficou em pior estado foi o braço esquerdo. No hospital, fui amarrado a uma mesa enorme na sala de operações por duas freiras, uma portuguesa e outra espanhola. De seguida, veio o médico que me suturou com 40 pontos, desde a mão ao antebraço, a sangue frio, sem qualquer anestesia. A dor foi horrível. De Cela, fui transferido para o Hospital Militar de Luanda, onde recuperei e fiz fisioterapia, mas ainda fui sujeito a várias operações em Portugal, já depois da guerra. Sou deficiente das Forças Armadas, com 22% de incapacidade declarada.
Nunca participei em acções de guerra, porque não era essa a minha função, nem a minha especialidade militar.
Embarquei para Angola a 5 de Agosto de 1967, integrado no Pelotão de Apoio Directo (PAD) 1228, formado por 40 homens e colocado no Luso, na zona Leste do país. Como a minha especialidade era mecânica, fui encarregado de um carro-oficina que se deslocava ao mato sempre que era preciso arranjar outros veículos de combate que se tivessem avariado, ou dar apoio às colunas militares.
Estive algumas vezes no mato, mas nunca em operações militares, e participei uma única vez num cerco, à cidade do Luso, à procura de inimigos que pertenciam aos movimentos de libertação. Nas oficinas do Luso, onde era conhecido como ‘Alcanhões’, chegaram a ocorrer rebentamentos de granadas que estavam nos porta-bagagens de veículos que vinham para reparação. Fizeram vários feridos, mas felizmente escapei sempre ileso. Embora a minha experiência de guerra se resuma a isto, ia lá deixando a minha vida.
De Angola, onde estive até Dezembro de 1969, guardo boas e más recordações. Recordo com muita saudade a amizade e o convívio, tanto com os naturais como com famílias portuguesas que lá estavam há várias gerações. Pela minha formação cristã, contactei e conheci famílias inteiras que me receberam sempre de portas abertas. Eu frequentava as suas casas aos fins-de-semana e aproveitávamos para dar grandes passeios e conhecer todo o território, sobretudo as zonas Sul e Leste de Angola, que são lindíssimas. Ainda hoje conservo algumas amizades e o contacto é regular com camaradas ex-militares que estão um pouco por todo o País.
Gostei tanto de África que regressei em 2000, de férias com a minha mulher. Ficámos desolados e desiludidos com o país que encontrámos. Fomos a Sá da Bandeira e Moçames – a Nova Lisboa não pudemos – e rapidamente percebemos que a guerra civil, que começou após a independência de Angola, destruiu totalmente aquilo que foi um verdadeiro paraíso.
VINTE ANOS NA FOTOGRAFIA
Fernando Conceição Gomes Ferra nasceu em Alcanhões, concelho de Santarém, onde cresceu e concluiu a escola primária. Antes da mobilização, trabalhou como torneiro mecânico na oficina de serralharia Barbosas, Lda, em Santarém. Devido ao acidente sofrido em Angola, esteve internado em Portugal até Agosto de 1970, tendo feito várias operações a um braço e fisioterapia. Depois tirou um curso de fotografia gráfica e trabalhou como fotógrafo durante vinte anos nas Páginas Amarelas, em Lisboa, até 2000, ano em que se reformou. É casado, tem três filhas e seis netos.
PERFIL
Nome: Fernando Ferra
Comissão: Angola (1967/1969)
Força: Pelotão de Apoio Directo 1228
Actualidade: Hoje, aos 63 anos, em Santarém
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