Alentejo de pernas para o ar e a mil à hora
Voámos com os Asas de Portugal, a patrulha acrobática da Força Aérea. Crónica de um voo alucinante.
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Olhando para a paisagem pelo vidro do cockpit, dir-se-ia que o dia está quase perfeito. O sol aquece a planície alentejana e a costa algarvia, dissipando a névoa matinal. Mas dentro do Alpha-Jet pilotado pelo capitão Ribeiro, mais do que o boletim meteorológico, interessam as condições fisiológicas. Um dos mostradores do painel marca 4 G’s, o que quer dizer que neste momento o peso do meu corpo se multiplicou por quatro. O que isto significa em termos práticos é que é impossível fazer qualquer movimento. A cabeça petrificou e os braços não saem das pegas laterais do lugar do co-piloto. O estômago ganha vontade de sair pelas costas quando o fato anti-G se insufla ao máximo, para garantir que a circulação sanguínea continua a fluir normalmente. "Isto é só uma pequena amostra do que fazemos, há manobras em que chegamos aos 6 G’s, diz, impávido e sereno através do canal de comunicação interno do avião, o capitão Ribeiro, o nº 2 dos Asas de Portugal.
A escassos metros de distância, o major Paulo Videira, nº 1 dos Asas, ensaia mais uma manobra acrobática. Não é um voo de treino normal – há um civil a bordo de um dos Alpha-Jet e os pilotos têm a ‘gentileza’ de não o submeter ao programa completo de manobras. Mas a sensação com que fico, ao fim de hora e meia de voo, é a de que fui atropelado por um camião TIR. Resumindo, uma experiência inesquecível.
Rebobinemos a fita do tempo. Pouco passa das nove da manhã quando chegamos à Base Aérea Nº 11, em Beja, a casa onde moram os Asas de Portugal. Os pilotos-aviadores Paulo Videira e Ricardo Ribeiro dos são instrutores da Esquadra 103, que ensina os pilotos da Força Aérea a pilotar um caça de combate. A esquadra dos ‘Caracóis’ usa os aviões Alpha-Jet, um caça subsónico de alta performance, por onde passam todos os pilotos que querem chegar ao F-16, a aeronave de elite da Força Aérea Portuguesa.
A equipa dos Asas de Portugal inclui ainda mais 8 elementos: o major Rui Mendes, supervisor de voo, o tenente Jorge Lobo e o sargento José Vieira, responsáveis pela logística, e ainda o alferes Ruben Pedro, os 1º sargentos Paulo Guerreiro e Carlos Silva e o Cadete Bruno Silvestre, todos mecânicos. Há ainda um elemento feminino, a tenente Raquel Vacas, que assume a função de rela ções públicas e de speaker durante os espectáculos – ou seja, é ela que explica ao público os números que os dois pilotos desenham nos céus.
A equipa recebe-nos com toda a simpatia e muita ironia. "Sabe que nós aqui somos muito mauzinhos", diz, entre gargalhadas, o major Videira, a tentar preparar o incauto repórter para a alucinante montanha-russa em que se vai meter dentro de minutos. O major adverte: "O seu corpo vai ser sujeito a forças G a que não está habituado. É natural que sinta algum desconforto mas vamos fazer tudo para que tenha um voo o mais tranquilo possível".
Faço o possível por acreditar, mas sei que voar a direito e sempre na horizontal é coisa demasiado aborrecida para quem faz dos loopings uma manobra de rotina. Feitas as apresentações, é tempo de vestir o fato de voo, escolher o capacete e máscara de oxigénio e, finalmente, vestir o fato anti-G, o tal que garante que o piloto não vai desfalecer quando o Alpha-Jet começar a desafiar as leis da gravidade nos céus de Portugal.
Por volta das dez e meia da manhã, é tempo de conhecer a máquina. Aí está o Alpha-Jet, pintado com as cores dos Asas de Portugal. É preciso amarrar o co-piloto à cadeira – porque em breve estaremo s a voar de cabeça para baixo– ,ligar os sistemas de comunicação, o oxigénio e as tubagens do fato anti-G. Está tudo pronto.
O nervosismo é muito, confesso. Agora já não há margem para hesitações, vamos voar acima dos 1000 km/h e com a linha do horizonte a percorrer todos os ângulos possíveis. Finalmente, os dois aviões fazem-se à pista. Descolam praticamente lado a lado e, logo após sair do chão, o capitão Ribeiro faz uma curva apertada à esquerda e quase na perpendicular, em direcção aos céus. "Está tudo bem Marques?", pergunta o piloto. E eu lá vou dizendo quê sim, tentando disfarçar o primeiro dos muitos sustos que se seguem na próxima hora e meia.
Voo em carrossel
Desde que saímos da pista de Beja que o Alpha-Jet demonstra as suas extraordinárias capacidades de manobra. Basta um pequeno movimento no manche de controlo para o avião guinar com toda a precisão. "Este é um avião desenhado para o combate. É uma máquina muito avançada, que nos põe onde quisermos rapidamente, para ataque ao solo ou contra alvos no ar", explica o piloto Ricardo Ribeiro. E a seguir demonstra: um voo invertido para abrir o apetite, e o sangue todo a afluir à cabeça. Voamos literalmente pendurados nas cadeiras, a ver a terra por cima das nossas cabeças e o outro Alpha-Jet em piruetas ao nosso lado.
Para uma vião cuja velocidade máxima chega bem acima dos 1000 km/h, Portugal é um país irremediavelmente pequeno. De Beja a Vila Real de Santo António demoramos menos de 10 minutos (mas podia ser metade do tempo, se os pilotos quisessem ‘apertar’ com a máquina). Pouco depois, estamos a sobrevoar a pista de Faro, com o trem de aterragem em baixo, a simular uma aterragem.
A seguir, é tempo de voltar a ganhar altitude – e de procurar rapidamente a melhor posição possível no cockpit para experimentar algumas das manobras que distinguem os Asas de Portugal. Em breve acrescento um novo termo ao meu vocabulário: "Tonneaux". Para quem vê do chão, é uma manobra em 8 deitado, em que o avião faz um looping e sai a voar de lado. Mas para quem está pela primeira vez dentro de um Alpha-Jet, a descrição é um bocadinho mais rebuscada: sobe-se quase a pique, fecha-se os olhos quando se percebe que o avião vai mergulhar vertiginosamente, aguenta-se os nervos quando o Alpha-Jet se começa a endireitar e respira-se fundo ao ver que o céu está outra vez em cima e a terra em baixo, como a vêem os comuns mortais que nunca tiveram asas para voar.
Os aviões voam agora a 10 metros um do outro. "Acha que estamos perto? Então e agora?", pergunta o major Videira, aproximando ainda mais o seu avião do nosso. "Para voar assim é preciso termos uma confiança total um no outro. A minha vida está nas mãos do Ricardo, tal como a dele está nas minhas", explica, depois do voo, o major Paulo Videira. Chegamos a Beja e os efeitos das piruetas começam a fazer-se sentir. "Então Marques, vai mais uma voltinha?", pergunta o capitão Ribeiro.
Exausto, confesso ao piloto que já estou agoniado. Neste momento, o meu único objectivo é chegar a terra sem que o pouco que tenho no estômago resolva vir espreitar a luz do dia. Ganhei a batalha, mas é um repórter alagado em suor e quase surdo que sai do avião. O capitão Ribeiro está com um ar impecável: "Isto foi levezinho, nem cheguei a transpirar. E o Marques, o que é que achou?" Resposta pronta: "Fantástico!"
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