António de Abreu Freire: "Jesus foi um ativista"
O investigador e professor António de Abreu Freire anda a escrever a biografia de Jesus Cristo desde os anos 70
O poema, que ganhou o concurso do liceu, censurado pelo Estado Novo quando vivia na Murtosa com a família – “remediada” – e em ambiente de um “catolicismo bucólico”, acabou por permitir uma vida dedicada à investigação. “A minha família chegou a ser interrogada sobre as ideias do rapaz e os meus tios, padres, acharam que era melhor que fosse estudar para Itália”, explica António de Abreu Freire, que levou 50 anos a escrever ‘Jesus, o Cristo. A biografia de um homem’ (Contraponto).
O subtítulo deste livro é ‘A biografia de um homem’. Foi à procura do homem por trás do Novo Testamento?
Sim. Se quisessem resumir a biografia do carpinteiro de Nazaré – aquilo que se sabe exatamente – três páginas seriam suficientes. Eu escrevi 256. O primeiro criador do perfil de Jesus foi Paulo de Tarso, que não o conheceu, embora sejam contemporâneos. Fez um perfil, de alguma forma imaginário, ainda por cima escrito numa língua que não era a dele [grego]. Começou aí a criação do perfil, que se foi acrescentando…
E, no entanto, é a figura mais importante da civilização cristã e referência absoluta para um terço da população mundial. Como explica isto?
É uma questão de cultura, essencialmente. Eu não vou ao fim dos tempos, mas ao princípio. Como é que se criou esta imagem e depois como é que ela continuou sozinha, através das igrejas, das comunidades de crentes que se serviram da figura, que ia sendo acrescentada. Um dia gostaria de escrever sobre como a representação física foi feita – as mais antigas são do fim do século V, no mosteiro de Santa Catarina de Monte Sinai [Egito].
Para “o catolicismo bucólico” – como disse sobre a forma como foi educado – o judeu do Médio Oriente é loiro...
Essas representações são, sobretudo, do Renascimento. Há muitas formas de representação desde o Cristo sofredor, que é um Cristo torturado numa cruz, uma cruz dourada, uma cruz de madeira nobre, uma cruz de prata, até à cruz sem Cristo ou simplesmente um coração de Jesus. Todas estas imagens tiveram uma evolução, que corresponde a sentimentos, emoções, daqueles que aderiram ao Cristianismo e assim se cria uma forma de ver esta personagem, que molda e reflete toda a história do Ocidente.
Como é que isso se justifica?
Justifica-se com o Império Romano e com a necessidade de o povo judaico tentar uma saída qualquer. Poucos anos depois da morte de Jesus acabou a nação judaica até 1947. E nem sequer foi este povo judaico que divulgou a imagem do carpinteiro de Nazaré, que era judeu, mas sim os imigrantes no Império Romano, que não falavam a língua de Jesus (aramaico), mas grego. De facto, pouco tempo depois da morte de Jesus, o mundo judaico desfez-se, destruído pelas legiões de Vespasiano e de Tito. O cristianismo não podia avançar na língua dos vencidos. A grande salvação, digamos, e o grande motor da expansão do cristianismo foi a língua grega.
Escreve que comum era o corpo dos crucificados ir parar às lixeiras…
Provavelmente foi o que aconteceu. A narrativa do sepulcro não tem lógica. De quem era o sepulcro? Quando o corpo desaparece, ninguém pergunta por ele. Jesus tinha de ressuscitar para ser aquilo em que se tornou. Então, Jesus ressuscitou. Foram gregos aqueles que escreveram. Os autores das narrativas não são evangelistas, cujos nomes são fictícios. Se somarmos os momentos dos 40 dias e calcularmos o tempo que passou em cada um deles, daria 10 a 12 horas. E o resto? Foram 40 dias. E de repente: Ele foi para o céu. Este céu não existe na cosmologia hebraica. Mais tarde, na Idade Média, foram buscar o céu grego, que era um céu diferente, e puseram lá as almas bem-aventuradas, assim como Deus Pai, Deus Filho, etc. Essa construção serviu para criar uma unificação dos rituais pelos quais se celebra a figura.
Chama-lhe algumas vezes ativista. Jesus era político?
Sim, foi um ativista. Havia muitos. Aquela zona do Império Romano era muito complicada. Quando foi invadida por Alexandre, o Grande, foi helenizada e até a estátua de Zeus foi posta no templo de Jerusalém. Contra esta contaminação houve por exemplo, os Macabeus, frísios ricos que lutaram contra a cultura grega, impondo de novo as leis judaicas, a língua aramaica, etc. Depois, claro, o Império Romano conquistou o Império Grego e vieram os romanos… Contra os romanos levantaram-se novas ideias...
E era comum esses ativistas terem uma corte à sua volta?
Sim, alguns foram ativistas militares e fizeram as legiões romanas passar maus bocados. Marco António teve de intervir com uma legião inteira, ou seja 6 mil homens. Quem ajudou o Marco António? Herodes, que não é um judeu mas idumeu, que assumiu a responsabilidade e o interesse de defender o povo judaico. E depois havia grupos ideológicos, um deles teve como centro João Batista, que representava aqueles que não gostavam da dinastia herodiana. Mais tarde, depois do desaparecimento de Jesus Cristo, pelos anos 60, começaram as grandes revoltas, violentíssimas. Os romanos perderam, entre os anos 60 e 130, duas legiões: 12 a 13 mil homens armados às mãos dos dissidentes judeus. Era uma zona de extrema violência. Tanto que o primeiro núcleo cristão em Jerusalém e na Judeia não vingou. Os núcleos cristãos que vingaram foram todos, sem exceção, fora daquilo que, a partir da vitória do imperador Adriano, se chamou Palestina.
Quando o Império Romano terminou em 476, estamos no fim do século V, o que aconteceu aos cristãos?
O Cristianismo em 380, no Império Romano, tornou-se a religião principal. Um século depois, destruiu o Império, através das ex-colónias que se libertaram e que se serviram das ideias do Cristianismo para desmanchar o Império. E entrámos na Alta Idade Média, quase 500 anos de sofrimento e escuridão.
Voltando à biografia: escreve que ele era filho de mãe solteira. Esta história banal tornou-se o fundamento que modificou a história do mundo...
Até o ‘Evangelho de João’, não cita uma única vez o nome da mãe de Jesus. Maria perdura porque fizeram dela uma virgem que dá à luz um filho. Há um texto de Isaías, que refere qualquer coisa que aconteceu no tempo do rei Acácio, o rei aflito com a invasão estrangeira a quem aparece Isaías, o profeta, e lhe diz: ‘Deus vai-te dar um sinal.’ E qual é o sinal? ‘A tua esposa, que nem sequer é menstruada, vai dar à luz um filho.’ Em hebraico, essa jovem que ainda nem sequer é menstruada, diz-se ‘alma’. Quando a Bíblia foi traduzida para grego, eles não sabiam como traduzir ‘alma’ e traduziram para ‘parthenos’, que significa virgem. Os grandes dogmas foram decretados em momentos de poder da Igreja. Caso de Bonifácio VIII, por exemplo, no fim do século XIII que começou a utilizar o nome de Pontifex Maximus, que era utilizado por imperadores romanos. Estamos em 1280 e ele foi o primeiro a utilizar o título e inventou a tiara, os três poderes e as chaves que abrem as portas do céu.
Consegue explicar porque é que foi Jesus e não outro?
Ele foi posto em evidência. A própria morte de Jesus tem incoerências: em que línguas Jesus falou com Pilatos? Pilatos não falava aramaico. O governador romano não se rebaixava ao nível da populaça. E Jesus não falava grego. E no entanto, tem ali um diálogo extraordinário.
Na sua opinião, qual é a maior incongruência do Novo Testamento?
É o ‘Evangelho de São João’, que faz do carpinteiro de Nazaré, Deus encarnado. Isto é da ordem da utopia. Quem é Jesus é o verbo. O ‘logos’ em grego. O que significa a palavra ‘logos’ em grego? Tudo o que a gente quiser. ‘Logos’ é palavra, visibilidade, comunicação. Significa tudo isso. Jesus é o ‘logos’ de Deus, que por ação do Espírito se fez homem em Maria. A partir daí, o Evangelho atribuído a João vai descrever a história do Criador do mundo que encarnou e se fez homem. A maior utopia que jamais existiu em toda a história da humanidade.
A Bíblia é a obra mais extraordinária jamais escrita?
A mais bem-sucedida. Há uma série de livros diferentes. O ‘Antigo Testamento’ foi escrito originalmente entre o ano 900 a.C. e o tempo de Cristo, pouco tempo antes. E o ‘Novo Testamento’ entre os anos 40 e pouco. Depois são cópias de cópias. As citações que os evangelistas fazem do ‘Antigo Testamento’ são do texto grego. O último revisor foi um médico judeu da Península Ibérica: Moisés Maimónides.
Tem ou teve fé?
A gente ou sente a presença de Deus ou não acredita em nada.
E o professor sente?
Sim. Não a presença do Deus que está a proteger-me, porque nunca gritei por Ele na aflição. Mas sou um crente, que não vai todos os domingos à missa, só aqui e ali e acolá, porque isso obrigar-me-ia a perder a fé. Uma parte das leituras que faço são sobre temas de fé, do islão, do cristianismo ou do hinduísmo.
Que se complementam?
Elas não se complementam, são diferentes. O cristianismo está mais próximo do islão do que do judaísmo que é a raiz das anteriores. Atualmente, estamos a viver cenas parecidas com o fim do Império Romano. Aquilo que se está a passar no Irão, em Gaza, em Israel e na Ucrânia não é um conflito entre pessoas. É uma civilização decadente onde a ética, os princípios que criaram a civilização cristã, não existem nem quem os defenda.
BI
Em 1943 nasceu na Murtosa, onde voltou a viver. Emigrou com 16 anos e fez-se doutor em Ciências Humanas pela Universidade de Paris e em Física pela Universidade Laval, no Québec, Canadá. Professor e investigador no Brasil, Canadá e Portugal, conferencista, escritor e também navegador. Fez a expedição marítima dos 400 Anos do Padre António Vieira, refazendo os percursos do jesuíta, sobre o qual escreveu dois dos seus livros.
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