“Arrastei-me até ao quartel para me salvar”: Aos 18 anos alistou-se como voluntário, hoje sofre stress de guerra
Alistei-me como voluntário. Vi morrer nove camaradas e sete ficarem feridos. Eu próprio ia perdendo a vida. Hoje sofro de stress de guerra.
Tinha 18 anos quando me alistei como voluntário. A 19 de Dezembro de 1968, fiz 19 anos e fiquei a saber que em Janeiro de 1969 embarcaria para a província de Tête, em Moçambique. Logo à chegada apanhámos o tempo das chuvas e tínhamos de seguir muito lentamente, para não ficarmos atolados. Quando a chuva parou, a caminhada ficou ainda mais lenta, porque estávamos numa zona de minas e, por isso, tivemos de esperar que viesse ao nosso encontro uma companhia de minas e armadilhas que ‘picou’ o caminho todo até ao nosso destino. Por tudo isso, de Tête a Fingoé demorámos 15 dias. O meu pelotão ficou a 60 quilómetros de Singoé, no meio do mato, onde vivíamos em bunkers e tendas.
Logo nesse ano, numa saída com outros rapazes da minha companhia, pisámos uma mina. O condutor faleceu imediatamente e o outro ficou muito mal, tão mal que, quando olhei para ele, julguei-o morto. Eu estive desmaiado por algum tempo mas quando voltei a mim só percebi com clareza uma coisa: tinha de sair dali imediatamente, antes que o inimigo chegasse ou que os animais sentissem o cheiro do sangue. Estava ferido, queimado, aliás.
Ainda hoje tenho as marcas da guerra nos braços, nas mãos, nas costas e até nas orelhas. Mas naquele momento em que recuperei a consciência só ouvi as nossas armas e munições – que rebentavam por via do fogo – e eu, em choque, achei que era o inimigo e escondi-me. Arrastei-me para o mato e depois meti na cabeça que assim havia de chegar ao quartel. Andei perdido, mas com uma granada na mão. Uma coisa era certa: se o inimigo aparecesse, não me iria tornar prisioneiro.
SALVAMENTO
Algumas horas depois lá encontrei o quartel e os meus camaradas encontraram-me. Ainda pedi socorro para os meus colegas, embora os julgasse todos mortos. No entanto, um deles sobreviveu. Fui louvado e todos se admiraram com a frieza de um rapaz de 19 anos a lutar pela vida. Eu admirei-me com as artimanhas deles: abriram cervejas, encheram-nas de gasóleo e atearam-lhes fogo, para que um helicóptero vindo da África do Sul pudesse aterrar a meio da noite e retirar-me. Estive seis meses no hospital de Tête: primeiro tiraram-me os estilhaços da cabeça, depois fui recuperando na unidade de cuidados intensivos de queimados, também sob os cuidados dos enfermeiros sul-africanos. Em Novembro de 1969 voltei para junto da minha companhia.
Em Janeiro (1970) fui para uma das piores zonas de guerra: Gago Coutinho. Chegávamos a estar 20 minutos debaixo de morteirada. No dia a seguir ao Carnaval, saímos com o nosso alferes para uma perseguição ao inimigo, mas fomos atacados com minas e morteiros. Um soldado perdeu imediatamente uma perna e o furriel acabou também por morrer, apesar de todas as tentativas para o salvarmos. Tinha caído uma carga de água e, apesar disso, tinham vindo dois Unimog para os buscar. Mas a corrente era intensa.
Os carros tiveram de ser atado a uma árvore para passarem o rio sem serem levados pela água. Mas, mesmo assim, o rapaz morreu. Na minha companhia houve nove mortos e sete feridos. Foram tempos difíceis que deixaram marcas profundas no corpo e na mente: ainda hoje sofro de stress pós-traumático, além de ter ficado deficiente.
PERFIL
Nome: Jacinto Pisco
Comissões: Moçambique (1969-1971)
Força: Companhia Caçadores 2470 batalhão 2863
Actualidade: Reformado, 62 anos, dois netos e uma bisneta
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