AS FAMÍLIAS DA UNIÃO

É, sem dúvida a melhor época de sempre. A União de Leiria está hoje na final da Taça de Portugal. E vai ainda à UEFA. Nas casas de dois dos mais carismáticos jogadores da equipa vivem-se dias de indisfarçável felicidade

08 de junho de 2003 às 15:53
AS FAMÍLIAS DA UNIÃO Foto: Carlos Jorge Monteiro
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O jogo de hoje, no Estádio do Jamor, é para João Manuel, que vive em Coimbra com a mulher, Helena Marto, e o filho de seis anos, João Afonso, o culminar da ansiedade das sucessivas eliminatórias da Taça de Portugal, “vividas com grande felicidade”. “Sempre que eu chegava, após um jogo, a primeira coisa que o meu filho me perguntava era se tinha vencido e foi com grande euforia que, cá em casa, se viveu a passagem à final da Taça de Portugal”, afirma o jogador ao Domingo Magazine , prestando tributo, quase uma declaração de amor, à mulher. “Dá-me grande estabilidade emocional e tem sido o meu suporte ao longo dos anos. A Helena ajudou-me a ver a vida com outros horizontes; foi e é muito importante para o sucesso da minha carreira. O nascimento do meu filho, João Afonso, ainda contribuiu mais para a minha estabilidade emocional. Ele é a alegria da casa”.

Cada conquista de João Manuel é intensamente vivida por Helena Marto que não esconde, porém, o especial ‘sabor’ da Taça de Portugal. “É uma espécie de prémio de carreira. O meu marido foi algo infeliz porque deveria ter chegado a um dos ‘grandes’ mas não o conseguiu. Passou ao lado de uma carreira com maior destaque e, por isso, acho que esta é uma conquista muito especial”, afirma.

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João Manuel e Helena Marto conheceram-se há mais de dez anos, numa semana académica de Viseu, quando ele ainda não era jogador profissional (jogava no Futebol Viseu, na III Divisão Nacional) e trabalhava como fotógrafo. Aliás, ela – agora uma adepta do desporto-rei – pouco ligava à modalidade do “pontapé na bola”.

A par da evolução da relação entre ambos, Helena Marto passou a acompanhar os jogos do marido e consequentemente a reconhecer o interesse lúdico do desporto-rei. “Agora sou uma fã de futebol e da União de Leiria.”

O pequeno João Afonso e a mãe vão estar no Jamor. Em casa do atleta unionista pensa-se, apenas, na vitória e Helena Marto confessa que vive “com alguma ansiedade a chegada do dia da final da Taça de Portugal”. “Espero ver o João a erguer a Taça, se há alguém que a merece, é ele porque vive muito o futebol e sente grande pressão quando sofre uma derrota”.

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Maria Inês, mãe de Maciel, veio de propósito do Brasil para ver o filho erguer a Taça. A ‘torcida maternal’ cheia de ‘orgulho’ espera “ver o Maciel a jogar num grande clube da Europa”.

A mulher do jogador, Grazielle, mãe de Mateus, de poucos meses, e de Gabrielle, de três anos, realça a importância do jogo: “O Maciel merece conquistar a Taça. É algo muito importante para ele e para mim porque todas as suas conquistas são também como se fossem minhas.”

Gabrielle sente-se “bem” em Portugal. A família optou por terras lusas, apesar de, na época da transferência para a União de Leiria, ter surgido a hipótese de Maciel ingressar num grande clube brasileiro. Mas, a Europa era o caminho a seguir, pois “é aqui que estão as melhores equipas”.

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As angústias das derrotas são partilhadas pelo casal, salientando Gabrielle que, tanto os resultados negativos como os positivos, são vividos com intensidade em casa, cumprindo ela, escrupulosamente, o importante papel de ajudar o marido. E Maciel reconhece-o. O apoio e a “força” que Gabrielle lhe dá são essenciais para as boas épocas que tem realizado. Por isso, afirma, que a Taça de Portugal é um prémio para os dois e uma forma perfeita de acabar uma “grande temporada”.

’SEMPRE ACHEI QUE IA À FINAL’

Achou sempre que havia de ir ao Jamor disputar a Taça

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de Portugal. Tanto que nos contratos de Manuel Cajuda constava sempre um prémio de jogo especial. Pode ser que o ganhe. Lembram-se da história de David e Golias?

“Chegar a uma final da Taça de Portugal foi uma das promessas que fiz a mim mesmo e este ano consegui cumpri-la”, afirma Manuel Cajuda. Antes do início da época, o técnico da União de Leiria pressentiu que era mesmo desta. Uma fé antiga. Nos últimos três anos, no seu contrato está inscrita uma cláusula referente a um prémio de jogo especial pela chegada ao Jamor. “Sempre acreditei que poderíamos estar nesta situação e, à medida que os jogos foram decorrendo, passei a acreditar mais. Os meus contratos têm sido feitos nessa base”.

O objectivo foi alcançado precisamente numa época de maiores reticências por parte de Manuel Cajuda. "Ironicamente, conseguimos chegar ao Jamor num ano em que a nossa situação em termos de trabalho nem foi a melhor”, sublinha. É que a equipa “andou com a casa às costas toda a temporada”.

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Foi uma época “sofrida” e como tal de conquistas mais ‘saborosas’. “Olhando agora para a União de Leiria, ninguém dirá que tivemos tantas dificuldades. Mas os vencedores são aqueles que encontram barreiras e as ultrapassam e nós conseguimo-lo!” Mérito partilhado entre grupo de trabalho, a administração da SAD, os adeptos e a sua “querida equipa”. “Os jogadores foram maravilhosos e mostraram-se ambiciosos. Grande percentagem dos feitos deve-se a eles e não os posso esquecer.”

Manuel Cajuda analisa o seu adversário: “Vai ser uma tarefa complicada, mas acredito que a União pode ganhar. Não me posso dar por vencido só por ir defrontar aquela que é, provavelmente, a melhor equipa da Europa”. O União de Leiria alcançou a final da Taça de Portugal após cinco eliminatórias, três das quais disputadas com formações da II Divisão B. Na época de ouro ainda se inscreve o 5º lugar na SuperLiga e a garantia da ida à UEFA.

A história desta presença no Jamor começou a ser escrita frente ao Oriental. A equipa de Lisboa ainda deu alguma réplica à União de Leiria, mas Douala, Gabriel e João Manuel acabaram com o sonho da formação secundária. Seguiu-se o Louletano, que os leirienses golearam por 4-1. Bilro, Fernando Aguiar, João Paulo e Silas foram os autores dos golos. Nos oitavos-de-final, a formação de Cajuda recebeu o Freamunde e venceu com os golos de Douala, Márcio Santos e Maciel. O primeiro encontro com uma equipa do mesmo escalão deu-se nos quartos-de-final, com a União de Leiria a manter-se como o conjunto visitando. A Académica vendeu bem cara a derrota. Hugo Almeida inaugurou o marcador para os leirienses, mas Marinescu empatou para os “estudantes”. No segundo período, o União aproveitou os erros do adversário e Paulo Gomes e Bilro fixaram o 3-1. O Paços de Ferreira foi o adversário seguinte e a equipa de José Mota foi ultrapassada, com um golo “de sorte” de Bilro.

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João Martins, 25 anos, um dos adeptos mais fervorosos da União de Leiria, lamenta a falta de adesão dos leirienses: “Falta bairrismo às pessoas de Leiria. Têm uma equipa espectacular e que dá grandes alegrias à cidade mas alheiam-se completamente”.

“Fanático pela União de Leiria desde a adolescência”, como afirma, promete apoio ao “clube do seu coração”. É que João Martins é membro fundador da claque ‘Frente de Leiria’ e, por isso, não vai deixar os crédito por mãos alheias: hoje gritará “sempre e até não poder mais”. “Vamos apoiá-los. Os 73 autocarros podem não ir cheios para o Jamor mas os que vão são bons”, desabafa.

A paixão de João Martins pela União de Leiria começou há uma década, quando a equipa subiu à I Liga. A partir daí, este adepto nunca mais deixou de acompanhar o clube. E tenta explicar: “É por causa jogadores e do convívio nas bancadas. É algo inexplicável. Tem que se viver!”

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AS ATRIBULAÇÕES Da UNIÃO

O clube União Desportiva de Leiria foi fundado a 6 de Junho de 1966, como resultado da junção de dois clubes da cidade, o Sporting Clube Leiriense e o Ateneu Desportivo de Leiria, acabando este por sair.

Com 37 anos, o clube só se afirmou no principal escalão do futebol português no final do século XX. Até aí só se intrometia ocasionalmente entre os “grandes”. A época 1979/80 marca a chegada à então I Divisão Nacional. ‘Sol de pouca dura’, a equipa cai novamente de escalão. Volta uma época depois a conviver com os “grandes” mas a despromoção teima em acontecer.

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A década de 90 é o virar da página. A União de Leiria passa a disputar a I Liga em 1994/95, e fica neste escalão durante três temporadas. Volta a descer à II Liga, regressando em 1998/99 à categoria maior. Desde, então, mantém-se alcançando a melhor classificação de sempre (5º lugar) na época 2000/2001 – que repetiu na presente época –, quando era treinada pelo técnico Manuel José.

Do seu historial consta um título de Campeão da II Divisão (1979/80) e da II Divisão de Honra (1997/98). A União de Leiria conta ainda com 35 presenças na Taça de Portugal, tendo chegado às meias-finais nas épocas 1995/96 e 1997/98.

CACHECÓIS E BANDEIRAS À BORLA

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E como a festa é da cidade, a Câmara de Leiria abriu os cordões à bolsa para oferecer aos munícipes e torcedores em geral cinco mil cachecóis e igual quantidade de bandeiras com as cores e brasão do município para a final da Taça de Portugal. Além disso, a autarquia colocou à disposição dos adeptos 73 autocarros de 55 lugares para os transportar ao Jamor.

Para que ninguém acuse que cachecóis e bandeiras, ainda que de borla, é pouco para a 'fezada', os serviços do clube disponibilizaram um ‘kit’ ‘Especial Taça’, com as cores do União de Leiria, branco e vermelho, que integra um boné e uma 't-shirt'.

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