AUSCHWITZ A SEPULTURA ETERNA
À medida que a visita ao antigo campo de concentração avança, os grupos de turistas ficam mais parecidos com peregrinos, de rostos transfigurados e sentidos doridos. O espectro dos mortos é quase omnipresente
Um grito de desespero rompe o silêncio quase absoluto, deixando em sobressalto quem está por perto. A jovem é levada dali em braços por dois colegas. É polaca e se calhar até facilmente impressionável, mas podia ser de qualquer outra nacionalidade e forte no controlo das emoções. Era igual. A crueldade do campo de concentração de Auschwitz, a 60 quilómetros de Cracóvia, não deixa ninguém indiferente.
Só muda o momento em que o coração se torna incontrolável e as imagens captadas pelos olhos baralham o cérebro e o obrigam a reflectir e a reagir. No caso da rapariga polaca, foram as fotografias de uma criança húngara e de uma mulher judia, tiradas depois de serem submetidas às experiências do médico nazi Josef Mengele, o “Anjo da Morte”.
As imagens do Bloco 7 fizeram disparar os pulmões da jovem, mas poderiam ter sido outras. No campo de concentração de Auschwitz – inicialmente um campo de trabalho, depois de morte, hoje um museu de entrada gratuita –, tudo impressiona. A passagem pela fachada ‘Arbeit Macht Frei’ (‘O trabalho torná-los-á livres’) é a entrada para uma realidade sem igual, outrora blindada por quilómetros de correntes de alta tensão.
Durante a II Guerra Mundial milhões de pessoas – sobretudo judeus, mas também cristãos polacos, russos, ciganos e, até, alemães – entraram em Auschwitz sem saber ao certo o que os esperava. Hoje, quem visita o campo também não sabe o que o espera. Por mais que se tenha lido ou visto sobre o assunto, tudo ali é diferente, é real.
OS PEREGRINOS
À medida que a visita pelos 28 blocos do campo avança, os grupos de turistas, embora de máquina fotográfica em punho, assemelham-se a peregrinos. Sem desafinar o tom monocórdico dos polacos – como o do Papa João Paulo II –, os guias fazem sonoramente de cada paragem uma espécie de homilia.
Com o tempo, os rostos transfiguram-se e o silêncio dos visitantes é quase absoluto, perante a crueza daquele local, intacto após mais de 60 anos da sua inauguração. Alguns impressionados com os amontoados de cabelo, milhares de peças de roupa, malas, óculos, sapatos e outros objectos pertences de 50 mil homens, mulheres e crianças que perderam a vida em Auschwitz.
Quem seriam e como seriam Marcus Rosa, Herman Pasternak ou Klara Golbstein, cujos objectos estão hoje nas vitrines do museu — de onde exala um cheiro a naftalina —, tal qual foram encontrados pelo exército soviético, a 27 de Janeiro de 1945, quando este tomou o campo aos nazis, devolvendo a Auschwitz o nome original polaco de Oswiecim?
O que os soviéticos já não conseguiram fazer foi salvar todas as sete mil vítimas ali encontradas entre a vida e a morte – algumas não pesavam mais de 30 quilos. Pelo contrário, passadas quase seis décadas sobre o horror, as expressões dos prisioneiros, registadas pelas tropas nazis à entrada do campo, continuam inalteradas. São corredores e corredores de fotografias de homens e mulheres, novos e velhos, a quem Hitler deu um fim atroz.
MILHÕES DE MORTOS
Olhos como os de Filar Maria (28.05.1942-
-10.11.1942) fixam quem passa com intensidade e, quer expressem cólera, revolta, medo ou tristeza, todos parecem transmitir uma mensagem de socorro, pelo sofrimento, e de culpa, por aquilo que a Humanidade deveria ter feito e só fez tarde de mais: travar a investida nazi.
Hoje há quem defenda que o número de mortos está abaixo do normalmente referenciado, discutindo a capacidade das infra-estruturas dos campos de concentração de Auschwitz para matar tanta gente. O certo é que muitos prisioneiros morreram de doença e de fome – percebe-se porquê quando se visita os pavilhões onde está retratado o quotidiano das cerca de 13 a 16 mil pessoas, que entre 1940 e 45 mantiveram lotado Auschwitz. Mas a maioria acabou nas câmaras de gás. Confirmadas documentalmente estão 1,1 milhões de mortes, mas podem ter sido 1,5 milhões, já que há 400 mil pessoas que desapareceram sem deixar rasto.
O III Reich não foi muito selectivo na hora de escolher as suas vítimas e, embora o povo judeu tenha sido, de longe, o mais arrasado, foram igualmente mortos católicos, mais tarde, acusados por uns de terem pactuado com o Holocausto e elogiados por outros, pela coragem com que tentaram proteger os judeus. Dada a natureza humana, terá havido de tudo.
ZYKLON B E O MURO DAS EXECUÇÕES
A primeira experiência de extinção maciça foi realizada em Setembro de 1941. Nas celas da cave do Bloco 11, 600 soldados soviéticos e 250 doentes polacos foram exterminados com Zyklon B, produto do qual foram gastos 20 mil quilos em Auschwitz, entre 1942 e 43, quando, segundo testemunhos do comandante nazi Rudolf Höss, cinco a sete quilos eram suficientes para matar 1500 a 2000 pessoas.
Logo ao lado está o “Muro da Morte”, onde a polícia nazi, a SS, fuzilou milhares de prisioneiros, longe dos olhares de próximos candidatos, já que as janelas dos blocos 10 e 11 estão, desde essa altura, fechadas com madeira. É um dos mais solenes momentos da visita e um local onde continuam a ser depositadas coroas de flores e declamadas orações, em memória das vítimas.
Os responsáveis do III Reich gostaram dos resultados do Zyklon B – 15 a 20 minutos chegavam para dizimar centenas de vítimas – e prosseguiram. Depois de nos primeiros dois anos ter funcionado como uma morgue, o antigo ‘bunker’ de pólvora, situado numa das extremidades do campo, foi transformado num crematório e câmara de gás. Muitos judeus entraram directamente para ali, passando nus pela porta da morte, iludidos com a promessa de um banho, justificado como obrigatório para poderem ficar e começar a trabalhar no campo.
Durante três anos, estima-se que, em média, cerca de 400 pessoas tenham sido reduzidas por dia a cinzas pelos fornos ainda hoje assustadores do crematório e, depois, lan-çadas ao rio Vistula ou utilizadas na agricultura. No crematório, onde só a chaminé não é totalmente original (foi reconstruída), o cheiro a queimado parece continuar presente – ou talvez seja só da enorme carga sentimental que o lugar encerra. Das paredes, escuras e marcadas pelo fogo, escorre água, que ajuda a agravar o já mórbido aspecto do local.
BIRKENAU O MAIS MORTÍFERO
Por mais impressionantes que sejam, porém, os números de Auschwitz são minúsculos quando comparados com os dos fornos de Birkenau, um outro campo de concentração, situado a três quilómetros do primeiro e conhecido como Auschwitz II. No terreno de 175 hectares, os alemães construíram mais de 300 blocos, dos quais se mantêm intactos 67.
O resto foi destruído pelos próprios nazis, perto do final da guerra, incluindo seis câmaras de gás e quatro crematórios, onde morriam diariamente, em média, seis mil pessoas. Em Agosto de 1944, Birkenau albergava 100.000 presos, que, como mostra o célebre filme de Steven Spielberg ‘A Lista de Shindler’, chegavam de comboio aos milhares.
Apesar da atrocidade dos números, o impacto de Birkenau é diferente do de Auschwitz. Se no segundo impressiona a quase omni-presença das vítimas – nos objectos, nas celas, nas paredes e no odor –, no primeiro é a imensidão do campo, cortado ao meio por uma fatal linha ferroviária, e povoado pelos únicos pássaros que, seis décadas depois do genocídio, podiam por ali andar: os corvos. Pretos, de um luto rigoroso, estas aves formam nuvens negras nos céus, completando um cenário já de si terrível.
Visitar Auschwitz, uma sepultura comum e eterna, é reviver um dos episódios mais negros da História – para muitos o pior de todos –, no qual foram mortas cerca de seis milhões de pessoas. O tempo parece incapaz de curar a ferida aberta na Humanidade.
Seis décadas de silêncio
Todos os anos, mais de meio milhão de pessoas visitam Auschwitz. Mas, ao contrário do que é normal sempre que algo atrai a atenção de um significativo número de turistas, nos arredores do campo de concentração nunca houve investimento. Com excepção do restaurante Art Burger, situado do outro lado da estrada em frente a Auschwitz, e uma livraria (papelaria) junto à entrada, tudo o resto é digno de um filme de terror.
Há quilómetros de antigas fábricas alemãs, deixadas ao abandono absoluto, das quais hoje pouco mais resta do que a carcaça. É a vingança possível de um povo que sofreu às mãos dos nazis.
A excepção foi tentada há dois anos, quando o empresário Rafal Waliczek decidiu abrir uma discoteca no centro da cidade de Oswiecim – baptizada de Auschwitz pelos alemães –, aproveitando o edifício de uma dessas fábricas. No entanto, apesar de terem passado quase seis décadas desde do fim do Holocausto, a Polónia reagiu mal à ‘System’. Um comunicado emitido na altura pelo Centro Simon Wiesenthal era claro: “Os jovens polacos são encorajados a dançar ao lado do maior cemitério de judeus da História.”
O espaço nocturno foi inaugurado a 17 de Agosto, num local onde mais de 1000 judeus foram escravizados, e acabou por ser encerrado a 6 de Setembro, por decisão de Riszard Maslowski, governador da província de Malaposka. Até hoje, a cidade continua a respeitar o direito ao silêncio dos sobreviventes do Holocausto e aos familiares dos mortos.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt