Bento XVI pode ter fechado o diálogo inter-religioso
Mostra-me o que Maomé trouxe de novo, e encontrarás só coisas más e desumanas, tal como a ordem para difundir pela espada a fé que ele pregava”. A frase tem setecentos anos. Foi proferida durante uma conversa entre o imperador bizantino Manuel II, o Paleólogo, e um intelectual persa, no século XIV.
Bento XVI abriu a gaveta da História e recuperou-a, durante uma conferência sobre a fé e a razão. O mundo islâmico ficou em estado de choque e reagiu. Com palavras duras, algumas em tom de ameaça. Houve actos isolados de violência. Bento XVI apressou-se a garantir que a citação não representa a sua opinião e lamentou as reacções ao seu discurso, mas os muçulmanos pediram mais do que um lamento. Exigiram desculpas. Ratzinger não foi tão longe e é pouco provável que o venha a fazer. A sua viagem à Turquia, prevista para Novembro, pode ajudar a colocar uma pedra sobre o assunto. Mas já nada garante que venha a realizar-se. Há quem tema pela sua vida.
David Munir, teólogo islâmico e Imã da Mesquita Central de Lisboa, também não gostou do que ouviu e receia que o Papa Bento XVI tenha fechado algumas janelas do diálogo inter-religioso. Mas condena todas as formas de violência: "Isto não é o Islão."
- Bento XVI excedeu-se quando citou o imperador bizantino?
- Foi uma citação infeliz. O Papa anterior, João Paulo II, fez um trabalho muito produtivo em termos de diálogo inter-religioso. Pediu desculpas e a linha seguida no seu pontificado foi de aproximação, demonstrando, acima de tudo, uma certa humildade. Bento XVI deu um passo atrás. Podia ter evitado aquele caminho, utilizando, antes, outros exemplos, mais positivos, do diálogo inter-religioso que tem havido ao longo dos tempos. Alguns muçulmanos, infelizmente, foram violentos na reacção e o Islão condena a violência. A melhor forma de responder é argumentando, explicando, dialogando, utilizando o mesmo meio que ele utilizou, o dom da fala.
- É mais grave que o episódio das caricaturas de Maomé?
- São questões completamente distintas. O excerto da conversa citado por Bento XVI não corresponde minimamente à imagem de quem estuda a vida de Maomé. Basta dizer, como exemplo, que o profecta proibiu o infanticídio – era comum na Arábia as pessoas enterrarem as bebés recém-nascidas. O versículo citado foi revelado em Medina e não em Meca. São correcções que as pessoas têm que fazer e isso faz-se conversando e dialogando. Se a citação fosse feita por um catedrático, um historiador, provavelmente não teria aquele impacto. Talvez até passasse despercebida. Mas foi o Papa.
- Esta situação é mais grave, portanto.
- Em termos de ferir a susceptibilidade do mundo islâmico, a gravidade é a mesma. Os cartoons que vimos, infelizmente, foram sobre Maomé e esta citação também é sobre Maomé. Mas vêm de fontes completamente distintas. Um é cartonista, o Papa tem mais responsabilidades. Quando temos uma certa responsabilidade, há que respeitá-la. Se o Presidente da República diz qualquer coisa, fala em nome de Portugal. Da mesma forma, quem produziu aquela citação foi o Chefe da Igreja Católica, falou em nome dos católicos. Os grandes teólogos islâmicos, quando explicam o que quer que seja e vão buscar à fonte (o Alcorão), dizem sempre: “Deus sabe melhor”. Ou seja, esta é a minha opinião, haverá outras, mas acima delas todas está a de Deus.
- As reacções violentas acabam por dar argumentos ao Papa.
- Admito. Alguns são capazes de dizer: “Estão a ver, isto é que é o Islão”. Obviamente que não é. Há várias formas para manifestarmos aquilo que gostamos e aquilo que não gostamos. Se ele utilizou a palavra, os muçulmanos, os teólogos islâmicos, devem provar que aquilo que foi citado não é verdadeiro. A versão histórica, muitas das vezes, tem várias fontes. Houve muçulmanos que cometeram erros? Sim, como alguns cristãos e alguns não religiosos. Mas não é pegar nesses erros individuais ou de algumas pessoas e chegar à conclusão: “Isto é o Islão, isto é o Cristianismo.” Há uns anos, uma seita cristã, com a Bíblia na mão, cometeu um suicídio colectivo nos Estados Unidos. Ora, daqui não posso concluir: “Isto é o Cristianismo.”
- Reconhece, contudo, que existe um pouco a confusão entre o mundo islâmico e o terrorismo.
- Sem dúvida. As pessoas misturam as coisas. Pensam que muçulmano é igual a terrorismo. E porquê? Porque conhecem o Islão ou porque estão a ver actos isolados? Se estão a ver actos isolados, é nosso dever, é dever de cada muçulmano, explicar às pessoas que a verdade não é esta, que o Islão não é isto. Os muçulmanos, nomeadamente os religiosos, têm essa responsabilidade.
- E têm assumido essa responsabilidade? Têm-no feito?
- Há momentos em que se nota um certo avanço em termos de explicação sobre o Islão e outros de uma certa paragem, nomeadamente quando se envolvem questões de política internacional, ou uma ou outra situação social. Quando falamos do Islão, não podemos esquecer que foi uma religião universal. Qualquer um pode ser muçulmano. Depois temos a componente cultural. Um muçulmano que nasceu na Arábia tem a cultura árabe, o que nasceu em África, africana e na Europa, europeia. Os muçulmanos que vivem em países não islâmicos, não são menos muçulmanos que os que vivem em países islâmicos. Veja os cristãos do Oriente e os do Ocidente. O que os une é a religião. Mas há aquela componente cultural, aquela componente de tradição, que os distingue. Quando os muçulmanos misturam tradição com a prática da sua religião, ou quando misturam a cultura que está enraizada com a prática da religião e chegam à conclusão “isto é religioso”, “isto é o que a nossa cultura diz para fazer”, certas pessoas exageram. Ser muçulmano também significa ser exemplar: um bom cidadão, respeitar o próximo, conviver pacificamente com os outros, independentemente da sua religião.
- Daí que as reacções dos muçulmanos no Ocidente tenham divergido das palavras mais inflamadas que ouvimos em alguns países islâmicos.
- Não vale a pena deitar mais achas para a fogueira. Não leva a lado nenhum. Estas declarações passarão, fica tudo arquivado. Veja o que se passou com os cartoons, hoje em dia pouco se fala. Eu penso é no futuro: como vai ficar o diálogo entre as religiões, entre as culturas?
- João Paulo II abriu essa porta, Bento XVI fechou-a?
- Esse é o receio. Oxalá não, mas o receio é esse, que possa ter fechado algumas janelas do diálogo.
- Na essência, o que o Papa pretendeu com aquela declaração foi sublinhar que a jihad (guerra santa) não faz sentido. Se a citação é susceptível de gerar polémica, o cerne da questão é difícil de contestar.
- Não, o texto que o Papa leu foi sobre a fé e a razão. Se me disser: “Todas as religiões condenam a violência”, estamos de acordo. “Não se deve recorrer à violência para impor a religião”, estamos de acordo. Ninguém diz o contrário. Mas a citação não foi esta. Quanto ao termo jihad, significa "sacrifício". É o termo que é utilizado no Alcorão. Houve guerras na época do profeta? Houve, mas para defender, não para atacar. Esta é a visão que muitas vezes não é dada. O Islão não ataca, defende. O maior jihad é lutar contra o próprio eu. Infelizmente, muçulmanos e não muçulmanos pegam nestes termos e utilizam-nos para desviar a atenção dos assuntos mais graves.
- O ataque a igrejas e o assassinato de uma freira configuram situações enquadráveis na designação de guerra santa?
- Se Bento XVI diz, citando o imperador: "Mostra-me o que é que Maomé trouxe de novo e só encontrarás coisas más, e desumanas", os grandes sociólogos, teólogos e sábios islâmicos deviam responder ao Papa que o que ele citou não é verdade e temos aqui estas provas para refutar o que disse. Em debates, em conferências. Invadir igrejas, à luz do Islão, isso não é islâmico. Não podemos reagir de imediato, com emoção, mas utilizando a razão. O profeta Maomé, para nós, é um modelo, um exemplo. Temos de pegar nos seus exemplos. Chamaram-lhe poeta, feiticeiro, louco, ilusionista. Como reagiu? A resposta está no Alcorão: “Chamem as pessoas ao convívio, as pessoas com sabedoria, conhecimento, um bom discurso”; “Facilita e não dificulta”. O Islão considera judeus e cristão como irmãos. Jesus é mencionado como profeta e mensageiro de Deus. Moisés também. O 19.º capítulo do Alcorão tem o nome de Maria. Não há nenhum capítulo em nome da mãe de Maomé. Nenhum capítulo em nome de filhos do profeta ou da esposa do profeta. Mas há um capítulo com o nome de Maria, a mãe de Jesus, a mulher escolhida, segundo o Alcorão. No momento em que algumas pessoas consideravam o nascimento de Cristo como um filho bastardo, o Alcorão disse, “não, é um milagre de Deus, é o poder de Deus”. Como é possível ler, ver e chegar à conclusão que o que trouxe de novo foram coisas desumanas?
- Regressemos à guerra santa. Na conjuntura actual, existe essa ameaça?
- Não creio. De acordo com o Islão, uma guerra santa ocorre quando um país islâmico está a ser invadido. Infelizmente, o Iraque, o Afeganistão e a Palestina estão a passar uma fase muito complicada. Mas, se todos nós nos preocuparmos em resolver o problema, com sinceridade, com honestidade, não prevejo nenhuma guerra santa.
- Tem havido falta de empenho nessa solução, sobretudo dos Estados Unidos?
- Não sei se será só da parte dos Estados Unidos, mas, em termos gerais, quando digo 'todos nós' refiro-me a religiosos e não religiosos. Por vezes, alguns religiosos aproveitam-se da situação para 'explodir', outros tentam acalmar, como aconteceu no Líbano ou com os cartoons. Ódio gera ódio e temos de ter muito cuidado. O importante é criar meios para nos aproximarmos. Se Deus não quis que todos tivessem uma só religião, quem sou eu para o querer? Se eu respeitar o outro, serei respeitado. O problema é que as pessoas têm ideias deturpadas sobre a essência do Islão.
- Tem havido preocupação em corrigir essa visão?
- Tem-se assistido a algumas iniciativas no sentido de criar uma aproximação ao conhecimento e não separar o que é o conhecimento religioso do conhecimento secular. No Islão, a pessoa que é religiosa tem que 'conhecer o conhecimento secular'. Não havendo isso, cria-se uma barreira. Será que o Alcorão não fala de mais nada? Há versículos do Alcorão que não têm nada a ver com a prática religiosa: a origem da vida; o mundo animal; os planetas; a vida social e económica; tudo aquilo que acontece no ventre das nossas mães. Tanta coisa. E não é preciso ser religioso para perceber o que lá está. Quem o revelou? Quem é o autor do Alcorão? Os muçulmanos dizem que foi Deus quem revelou a Moisés, a Jesus e a Maomé. Mas o autor é o mesmo.
- O Ocidente tem dificuldade em compreender determinadas práticas...
- Há um país islâmico em que as mulheres não podem conduzir, outro em que não votam e um em que a mulher governou – Benazir Bhutto. São três nações muçulmanas, sunitas, acreditam no mesmo Alcorão. Cada mundo islâmico tem a sua realidade diferente. Não podemos querer que o outro seja exactamente como eu, que pense exactamente como eu penso. Há quatro escolas islâmicas principais, quatro opiniões diferentes. Mas o profeta disse: “Várias opiniões na minha nação é misericórdia.” O que é a democracia? É várias opiniões. Agora, por que é que nos países islâmicos hoje não vemos isso? Não vemos hoje, mas vimos no passado e provavelmente no futuro isso acontecerá. Temos de contribuir com aquilo que é positivo.
- A viagem do Papa à Turquia pode acabar definitivamente com a polémica gerada em torno da citação?
- Se a intenção não foi aquilo que ele disse, o Papa Bento XVI deve começar por seguir a tradição de João Paulo II, desejando a todos os muçulmanos um bom Ramadão (começou ontem). Tenho recebido telefonemas de pessoas católicas que também não concordam com o que o Papa disse. Indirectamente pedem desculpas. Não estou a pedir a ninguém que peça desculpas, se não pedirem continuarei a ser amigo de todos. Era bom que a viagem de Bento XVI à Turquia se realizasse, para colocar uma pedra sobre um assunto que não nos leva a lado nenhum. Espero, sinceramente, que até lá as coisas fiquem mais calmas.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... Moçambique
Uma pessoa... Maomé
Um livro... Alcorão
Uma música... Toda a música mística
Um lema... ‘A minha liberdade termina onde começa a dos outros’
Um clube... Sporting
Um prato... Qualquer um de bacalhau
Um filme... ‘A Mensagem’
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