BERÇO DA AVIAÇÃO PORTUGUESA
Desde o tempo dos aeróstatos e balões que o Tejo testemunha a epopeia da conquista dos ares. Das tentativas de voo à aviação naval militar, passando pelas aventuras de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, as histórias de um rio que chegou ao céu.
O rio Tejo foi campo de toda a epopeia da aviação em Portugal, desde os aeróstatos aos hidroaviões de grande porte. Dele partiram os aviadores das grandes proezas da aviação portuguesa, nele amararam e levantaram voo os grandes ‘hidros’ das viagens transatlânticas ou das ligações com as ilhas adjacentes. Foram as águas que testemunharam a partida das caravelas que também viram sair os aviões da doca do Bom Sucesso, no Restelo.
Tudo começou no século XVIII com o padre Bartolomeu de Gusmão e a sua Passarola, que daria muito que falar quanto à veracidade das evoluções do aeróstato no Terreiro do Paço. Gravuras existem muitas da Passarola, relatos não tantos, portanto aceitemos a verdade histórica sem o rigor da pesquisa profunda, que já feita não levou a conclusões concretas.
A primeira viagem aérea realizada em Portugal foi feita por um capitão italiano, de nome Vicente Lunardi, em 24 de Agosto de 1794, e teve como pano de fundo o rio Tejo. Lunardi foi também o protagonista – no Terreiro do Paço, a base utlizada para a ascensão – do primeiro voo de balão no nosso território.
Guilherme Eugénio Robertson, aeronauta e malabarista, apareceu em Lisboa, e, com grande impacto e estupefacção do povo, fez o primeiro salto de pára-quedas visto por cá, saltando dum balão. Estávamos em 1819, no ano seguinte Robertson repetiu a proeza no Porto.
Depois, muitas ascensões foram vistas por Lisboa, inclusive do primeiro aeronauta profissional português, António Infante, mas também de Augusto Abreu de Oliveira e Gouveia Pinto e Belchior Fonseca.
PRIMEIRO VOO
Já no século XX, António da Costa Bernardes, o 'Ferramenta', tornar--se-ia muito conhecido, tendo chegado a exibir-se no Brasil.
As primeiras tentativas de voo em Lisboa com aviões também tiveram o Tejo como fundo. O francês Armand Zipfel, em 1909, foi um dos que tentaram, mas Julien Mamet, a 27 de Abril de 1910, realizou o primeiro voo de avião em Portugal. E onde? No campo do Hipódromo de Belém, bem perto do rio... João Gouveia, grande entusiasta da aviação, tentaria, no Seixal, pôr no ar um avião por si inventado. Aí, lançaria os seus modelos reduzidos, sendo o nosso primeiro aeromodelista.
Com o passar dos anos, a nossa aviação foi tomando forma e entre a Escola de Aeronáutica Militar em Vila Nova da Rainha e o Centro de Aviação do Bom Sucesso (Aeronáutica Naval), sucederam--se os 'brevets', as largadas, os primeiros aviões de guerra, os primeiros recordes de velocidade, altitude, planagem, etc.
A I Guerra Mundial trouxe um grande desenvolvimento à aviação nacional, com a preparação dos nossos pilotos em França e em Inglaterra e o contacto com máquinas muito mais possantes. Seria o catapultar de toda uma epopeia de viagens de ligação da Metrópole, às ilhas adjacentes e às colónias africanas e orientais. Em 1919, o Major Sousa Maya levanta do Tejo com dois ‘hidros’, para fazer o primeiro bombardeamento aéreo da História da aviação portuguesa. Vai ao Porto bombardear os quartéis leais à monarquia do Norte, instaurada por Paiva Couceiro.
Um ano depois, os heróis Gago Coutinho e Sacadura Cabral fazem a ligação à Madeira no recém-adquirido hidroavião Felixtowe – um bimotor com um raio de acção praticamente à conta para a viagem. Nas instalações aeronavais de S. Jacinto, em Aveiro, o avião foi reduzido ao mínimo peso para poder sair da doca do Bom Sucesso rumo ao Funchal. A viagem foi um êxito, permitindo a Gago Coutinho testar os seus instrumentos de navegação e ao tenente Ortins Bettencourt fazer, também, experiências de comunicações via rádio.
ATLÂNTICO SUL
A 30 de Março de 1922, o hidroavião monomotor Lusitânia descola do Tejo para a maior epopeia da aviação nacional, a travessia do Atlântico Sul. A bordo vão Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Esta viagem e os seus inventos e aperfeiçoamentos dos sistemas de navegação aérea dariam grande impulso a toda a aviação internacional, permitindo o desenvolvimento das viagens de longo curso e, sobretudo, da navegação sobre água, diurna e nocturna.
Nos anos que se seguiram muitos outros aviadores nacionais partiriam do rio para grandes viagens, muitas delas tão ou mais complicadas do que a da dupla de pioneiros.
A viagem do Argos, na tentativa de um voo de circum-navegação aérea, foi uma autêntica luta contra adversidades climatéricas e técnicas. Os heróicos Sarmento de Beires, Jorge Castilho e Manuel Gouveia só soçobraram quando ao largo da Guiana, o hidroavião Dornier se afundou, não dando hipótese de continuação duma viagem que já ia em 16.000 quilómetros. Beires e Castilho já tinham feito a ligação Lisboa/Macau em viagem anterior mas com escalas em terra.
PELÍCULA AMERICANA
A Aviação Naval como é evidente nunca saiu do Tejo mas o Centro do Bom Sucesso, em Belém, mudou para o Montijo, onde os hidroaviões puderam conviver com os aviões convencionais (esta base aérea ainda hoje existe no mesmo local, pertencendo agora à Força Aérea, após o fim da Aviação Naval).
O Tejo foi também palco das amaragens e descolagens dos grandes hidroaviões das companhias de aviação comerciais. A travessia do Atlântico Norte, por exemplo, trouxe aos Açores e a Lisboa as escalas mais importantes dos ‘hidros’ da americana Pan American. A base desta transportadora era a doca de Cabo Ruivo, onde hoje está o Parque das Nações e, mais propriamente, o Oceanário.
No Tejo, os anos quarenta são marcados pela tragédia – uma das aeronaves tem ali um acidente. Uma das vítimas foi a cantora Jane Fromman, muito popular nos Estados Unidos, tendo a sua recuperação sido tema dum filme com a actriz Susan Hayward. Desta película ficou uma canção que correu o mundo: 'I’Ill Walk Alone'.
Nos anos cinquenta, a companhia de aviação inglesa Aquila Airways, que fazia as ligações de Lisboa ao Funchal com hidroaviões, deixou de operar entre a Madeira e o Continente. Os hidroaviões morreram na doca de Cabo Ruivo, ao lado daqueles que pertenciam a uma efémera companhia nacional, a Artop. A empresa tinha começado com mau augúrio. Num dos primeiros voos, uma das suas aeronaves desapareceu, conjuntamente com todos os passageiros e a tripulação.
Pelas suas águas calmas e o seu enorme estuário, o Tejo foi ‘pista’ privilegiada da epopeia aérea portuguesa; da primeira geração dos hidroaviões, num tempo onde os campos de aviação escasseavam.
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