Bule mágico que traz de volta a juventude

A loiça às riscas passou de moda, mas o encenador agora premiado pela Associação de Críticos de Teatro lembra os bules da sua vida em Londres.

21 de março de 2010 às 00:00
Bule mágico que traz de volta a juventude Foto: Pedro Catarino
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Não liga nada a objectos, mas quando lhe fizemos a pergunta estava em casa, era uma tarde de frio e foi à cozinha fazer chá. Ia responder "não tenho objectos preferidos" mas, ao pegar no bule, bateu com a mão na testa e disse "mentira, há este bule!"

Numa tarde, em Tavira, há três anos, estava a filmar um documentário sobre o artista Bartolomeu Cid dos Santos, "homem generoso, solar, amplo, que viveu mais de 40 anos em Londres". Conta como foi: "Estávamos no seu ateliê e fazia calor. Fui beber água e, na pequena cozinha do ateliê, vi este bule com riscas azuis e brancas. E disse à Fernanda, a mulher de Bartolomeu: "Ai este bule, que saudades! É que era eu jovem, 20 anos, estudava em Londres e, em qualquer lugar, na Lyons Corner House ou no estaminé de qualquer esquina, todas as loiças para o chá eram assim, com estas riscas azuis e brancas".

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Jorge Silva Melo há anos que procurava, nem sabe bem porquê, esta loiça – que já não há, nem memória disso (nalguns filmes ainda se vê, no ‘Frenzy’, de Hitchcock, e no ‘Deep End’, de Skolimowski). "Ao fim da tarde, ao arrumarmos o material das filmagens para sairmos de Tavira, a Fernanda entrega-me um embrulho: Era o bule! Durante o ano e meio que se seguiu, sempre que mandava mails ou telefonemas à Fernanda e ao Bartolomeu, lá falava do bule, do chá. É a minha ‘madeleine’, faz-me lembrar a esperança descontrolada desses meus anos".

Isto passou-se há três anos, no Carnaval, em Tavira. Bartolomeu morreria um ano e meio depois. No último telefonema que lhe fizera, a dizer que encontrara financiamento para o filme, estava a fazer chá nesse bule. "Olho para ele, uso-o e as minhas tardes ficam menos sozinhas, aqui em casa." Tem muitos bules e normalmente usa os outros. "Este é só para os dias em que preciso de um abraço".

Bebe muito chá, até nos ensaios. Aquele que lhe traz mais alma à alma, é o velho, simples, baratucho Marks and Spencer que, em Londres, se vende em caixas com 100, 200 ou até 500 saquinhos. "Sabe à minha juventude, é forte e preto e sempre que vou a Londres trago uma caixa".

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VEIO AO COLO NO CARRO PARA NÃO SE PARTIR

Veio de carro para Lisboa com ele ao colo, com medo de o partir. "Não penso desfazer-me dele, não. Mas sei que, mesmo em Londres, já não fabricam esta louça que me acende a memória, sei lá porquê." Na sua casa, este bule encontra-se na cozinha, num armário, à esquerda de quem entra. "Não se vê logo, mas, mesmo às escuras, sei ir buscá-lo."

E será que já o usou em alguma peça de teatro? "Não, não. Embora em ‘Ana’, de José Maria Vieira Mendes, a Rita Lopes Alves (cenógrafa da peça) tenha usado um parecido – mais pequeno, vermelho". Mas Jorge não arrisca em perder o seu ‘tesouro’. Este azul e branco não sai daqui de casa".

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PERFIL

Profissão: Encenador teatral

Idade: 61 anos

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Carreira: Fez filmes, teatro, escreveu, viajou, estudou em Londres e Berlim. Recebeu esta semana o prémio da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, mas não gosta de prémios. Tem em cena, no Teatro Nacional, ‘Rei Édipo’ e ensaia uma peça de Harold Pinter.

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