Carnaval quando o País vai mal

Todas as organizações dos festejos carnavalescos apertaram o cinto. Pouparam mas não cortaram na paródia

10 de fevereiro de 2013 às 15:01
Carnaval quando o País vai mal Foto: Carlos Barroso
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Passos Coelho tem uma cabeça nova num corpo de um Pai Natal marioneta que há mais de uma década não saía à rua. Mário Soares, Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates não tiveram igual sorte. As cabeças dos últimos governantes portugueses foram resgatadas de sátiras de anos anteriores. Ganharam apenas um braço novo cada um – e uma mão de dedo em riste que serve um objetivo que roça a malandrice, em cima de uma roda dentada que gira em cima de um Zé Povinho deitado de rabo para o ar.

A ‘cabeça’ de Mário Soares já atingiu até a maioridade: tem 18 anos. Nos estaleiros de Torres Vedras, onde o Carnaval se compõe todos os anos entre a pintura de carros alegóricos e os retoques às figuras da política nacional, a palavra crise obrigou principalmente à reciclagem de bonecos e estruturas, num orçamento que perdeu 70 mil euros em relação ao ano anterior.

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MERKEL É DOMINATRIX

Cabeças, pernas, pedaços de tudo e mais alguma coisa foram chamados a marcar presença na festa deste ano. Aquele que em 2004 foi um autocarro para satirizar a ‘excursão saloia rumo ao Europeu de futebol’ é – nove anos mais tarde – o meio de transporte que carrega os portugueses (e suas muitas tralhas) para fora do País, numa crítica a quem aconselhou a emigração. A transbordar pelas costuras, há lugar para os namorados, os punks, os artistas, os enfermeiros. "O autocarro é o mesmo, muitas das figuras foram repescadas de anos anteriores, mas a bota do PSD que dá um empurrão ao autocarro é nova, e o Zé Povinho que vai à frente também", contextualiza Bruno Melo, artista plástico, autor deste e de outros dois carros. Também o dragão onde a ‘Dominatrix Angela Merkel’ toma as rédeas da Europa foi outrora trono sagrado de Pinto da Costa.

"Tivemos de fazer opções por causa da crise. Por isso, o tema deste ano é a reciclagem. Além da reciclagem necessária, por causa da conjuntura económica, é a reciclagem no seu sentido mais lato, porque em tempo de crise temos de reciclar a nossa sociedade e os nossos políticos. Costumamos dizer que eles andam a brincar connosco durante 360 dias e nós brincamos com eles durante cinco dias", atira o organizador Rodrigo Ramalho.

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Mais à frente nos estaleiros, está o carro que representa o monstro dos mercados e a sua "boca enorme para comer o Zé Povinho e outras figuras populares. No topo está o homem do dinheiro, que terá a companhia de Passos Coelho, Vítor Gaspar e Paulo Portas", conta Fernando Serzedas, escultor de uma outra empresa de Torres Vedras.

"Destes bonecos, só o Vítor Gaspar foi feito de raiz. Em princípio, uma caricatura de barro demora uma semana, só se atrasa se por acaso o queixo cair ao chão no dia seguinte ou tivermos dificuldades em apanhar os traços", continua quem construiu o ministro das Finanças que mais contas tem levado os portugueses a fazerem nos últimos tempos. "Pensei que fosse mais fácil. Ele é uma figura – tem aqueles olhos com aqueles papos – mas não há nada concreto para puxar."

Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite – esta última estrela de outros Carnavais – foram bem mais fáceis. "O Ronaldo também é bom de trabalhar. Muito mais complicado é o Passos Coelho. No ano passado, fizemos dois bonecos e não gostámos de nenhum, este ano estamos a fazer a terceira cabeça e está melhor. Porque as pessoas, quando são muito bonitinhas e certinhas de rosto, são bem mais difíceis de caricaturar. O Passos dá trabalho no ano todo e agora dá trabalho também aqui. Primeiro foi desenhado em 3D, depois passou por uma máquina de corte, levou acabamentos de gesso, depois foi pintado. Seguramente 15 dias de trabalho", garante, por seu lado, Bruno Melo. Certo é que "a crise é um grande desafio à criatividade, tivemos de puxar pela cabeça para que, apesar de serem coisas usadas, se transmitisse o mesmo brilho", admite Hélder Silva, um outro escultor ali presente.

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Na Madeira, o orçamento disponível para os festejos foliões baixou 13 mil euros e, confirma fonte dos serviços de animação, também "tiveram de ser feitas várias contas. Reduzimos os subsídios, fizemos reutilização de materiais de anos anteriores, reciclámos a decoração da cidade e deixámos de dar prémios monetários aos vencedores do Cortejo Trapalhão, que substituímos por serviços oferecidos por entidades como hotéis e restaurantes. Ou seja, apostámos em parcerias e patrocínios".

O Carnaval de Ovar é uma das poucas exceções à regra. Mantém o mesmo orçamento, que é, aliás, o mais elevado do País: 450 mil euros. "Só efetuámos cortes em despesas não essenciais, como o fogo de artifício."

O maior gasto do ‘bolo’ (195 mil euros) é o apoio financeiro aos grupos de Carnaval e escolas de samba. "Mas estimamos que, por cada euro que investimos, geramos uma média de cinco euros no comércio e na economia local e regional, uma vez que esperamos a visita de cerca de 500 mil pessoas", explica o vereador da autarquia José Américo Sá Pinto.

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Nas Caldas da Rainha, cada associação que apresente um carro e 25 figurantes recebe um apoio de 2137 euros. Também por ali reside a exceção: foram investidos mais dez mil euros do que no ano anterior. Ainda assim, o esforço de poupança em tempo de vacas magras mantém-se: "Poupámos nos apoios técnicos que dávamos na construção dos carros e nos materiais, que este ano são na sua maioria reciclados (madeiras, papel mascado, cartão...)", esclarece o coordenador do evento, António Marques. "Foram também desenvolvidas formas de apoio às diversas associações, como a disponibilização de espaços para construção dos carros e criação de sinergias."

MENOS PENAS, MAIS PEDRAS

Marisa Pombo tem 31 anos e vai ser, pelo segundo ano consecutivo, rainha da bateria da escola de samba Bota no Rego, de Sesimbra. Funcionária da Autoeuropa e maquilhadora, teve de pagar – à semelhança de todos os participantes – o seu próprio fato de Carnaval. "Claro que o valor que lhes cobramos é mais baixo do que o real, mas tem mesmo de ser, senão não sobrevivemos. Para aguentar a crise, também estamos a fazer mais festas e espetáculos pelo País, e vamos buscar os tecidos a Coimbra, que são mais baratos e temos facilidade de crédito", conta o tesoureiro da escola.

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A autarquia vai ceder a mesma verba do ano anterior, porque há dois anos cortou cerca de 60% nos custos. "No ano passado já tínhamos começado a poupar, mas este ano, por exemplo, só gastámos 60 e tal euros de plumas para a porta-bandeira, não comprámos para mais ninguém", continua. "Estamos mais contidos nas quantidades e diversidades. Há a pena de avestruz, que é vendida ao quilo – 400 euros –, ou 2, 50 euros a unidade, e depois temos a pena de faisão, que é a mais cara, cada uma custa dez euros. Por isso, para poupar nas plumas, usámos mais pedras", explica o ‘carnavalesco’ (o responsável pela criação) Fernando Sebastião.

"As pedras comprámos no Martim Moniz [Lisboa] para ficar mais barato", confessa o tesoureiro João Rui. "O que era uma blusa em 2012 passa a ser a perna de uma calça ou uma saia, tudo se transforma", diz Natália Arsénio, da direção. Já os chapéus de outra escola, vizinha de porta, a Associação Tripa, estão a ser feitos de antigas braçadeiras. Em Setúbal, a crise atacou em força os foliões: "Não vamos poder contar com os tradicionais desfiles organizados pelas coletividades e com figurinos a rigor, tivemos de preparar um desfile informal", lamenta Bruno Frazão, da organização.

São necessários dois meses e meio para ser feito o mais antigo corso do País: o Carnaval de Loulé. O armazém é todos os anos palco do trabalho que tem Paulo Madeira, mais conhecido como ‘Palhó’, como chefe de equipa das mais de 80 pessoas envolvidas. Apesar de os responsáveis assegurarem que os festejos não vão perder qualidade, o orçamento este ano baixou 50 mil euros em relação a 2012, cifrando-se em 200 mil euros.

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"Usámos muito os recursos da Câmara para abater os custos. Temos 1800 funcionários, incluindo eletricistas, carpinteiros. Assim evitamos contratar serviços de fora, que são muito mais caros", explica o técnico coordenador João Paulo Mendes. "Estamos a apostar na participação ativa da comunidade, através de clubes, associações e coletividades do concelho, o que leva a uma diminuição da contratação externa", confirma o autarca Seruca Emídio.

Em Pataias, onde a redução do investimento rondou os dez mil euros, a organização efetuou "cortes transversais nas diversas rubricas (fatos, carros, publicidade, logística) para continuar a manter o nível de folia. Este ano, a reciclagem de fatos e materiais de anos anteriores foi muito importante para economizar, mas fez subir em flecha a criatividade", acredita Arménio Vieira, da organização do corso.

À semelhança do Carnaval de Pataias, também o da Mealhada sofreu um corte de dez mil euros. "Renegociámos valores, fizemos uma seleção criteriosa de fornecedores, reciclámos", segundo a Associação do Carnaval da Bairrada, que este ano, "em vez de cinco escolas de samba, vai ter apenas três a desfilar". Um dos maiores gastos foi feito com o rei: "Rodrigo Andrade, o ‘Berto’ da novela Gabriela". Se resultar como nas audiências televisivas por cá, o sucesso está garantido.

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