Castas viajantes: identidade portuguesa pelo mundo

Já houve um tempo em que as vinhas portuguesas recebiam de braços abertos as castas que vinham de fora. Hoje em dia são as variedades portuguesas que ganham espaço em vários pontos do globo

19 de abril de 2026 às 17:30
Já houve um tempo em que as vinhas portuguesas recebiam de braços abertos as castas que vinham de fora. Foto: Direitos Reservados
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Dentro de alguns anos pode ser possível abrir uma garrafa da região demarcada de Bordéus com as castas Touriga Nacional ou Alvarinho. Numa das regiões vinícolas mais valorizadas do mundo, as castas portuguesas fazem parte de um ensaio – os resultados serão conhecidos daqui a cinco anos – para dar resposta às alterações climáticas e podem ser decisivas para preservar o perfil único daqueles vinhos. Paradoxalmente, para manter a autenticidade desta região do sudoeste de França, onde são produzidos alguns dos vinhos mais caros do mundo, vai ser necessário introduzir variedades estrangeiras na lista de castas autorizadas.

Foi na Europa que nasceu a vinha e desde que se começou a viajar que as uvas iniciaram um processo de expansão pelos restantes continentes - à exceção da Antártida - acompanhando os movimentos dos fluxos migratórios. Na bagagem foram sendo transportadas varas que eram depois plantadas nos países de destino e, quando as condições eram adequadas - para a pouco exigente cultura da vinha, normalmente são -, nasciam vinhos que ajudavam a reduzir a distância para a terra natal. A partir do século XIX, com o crescimento do mercado de vinho no “Novo Mundo”, foram as castas francesas que passaram a dominar a área de vinha plantada nos Estados Unidos, Chile, Austrália ou Nova Zelândia.

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Em Portugal também existiu um grande crescimento destas variedades “imperialistas”, sobretudo à boleia dos processos de conversão de vinha que ocorreram a partir dos anos 80. Para tentar garantir visibilidade internacional e melhor capacidade comercial foram arrancadas muitas vinhas de castas autóctones, com nomes difíceis de pronunciar, e plantadas uvas que agora são consideradas internacionais. Algumas delas, como a Alicante Bouschet ou a Syrah, encontraram em Portugal condições ideais para criar vinhos de qualidade superior, fazendo já parte da lista de castas aptas a vinhos com denominação de origem protegida.

Antes do ensaio que corre nas vinhas francesas, as qualidades das castas portuguesas já tinham sido reconhecidas por vários países. A Touriga Nacional, por exemplo, terá chegado à Austrália e África do Sul a bordo dos navios dos colonizadores, há vários séculos, e castas como o Verdelho, Sousão ou, mais recentemente, a Baga também começam a ser encontradas no Brasil, Chile e Estados Unidos, por exemplo. Num momento de viragem para o setor do vinho, as castas portuguesas assumem um papel cada vez mais relevante no panorama mundial, com algumas delas a serem estrelas por mérito próprio e a ganharem cada vez mais espaço em vinhas de todo o mundo.

Quinado

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Vinho clássico com infusão de quinina, muito popular no Brasil e antigas colónias africanas. Normalmente nascia de uma base de vinho do Porto e tinha propriedades terapêuticas para o tratamento da malária, febre e falta de apetite.

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