Da terra à alta roda das empresas

O meu amigo veio cá”, diz Francisco Mendes. O presidente da Portugal Telecom, eleito a 21 de Abril de 2006, no domingo ainda fresco do anúncio da morte da Oferta Pública de Aquisição (OPA) mais badalada do país, foi à Tasca do Chico.

11 de março de 2007 às 00:00
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Dirigiu-se ao balcão. Recebeu as honras da casa. Uma festa. Pediu um descafeinado. Na chávena entrou adoçante. As diabetes são perigosas, menos para quem encara a disciplina como dever. O açúcar faz crescer água na boca, mas só entra com cuidadosa moderação. O prazer na tentação pende na fruta em compota que vive na Tapada do Barão – vinho da zona de Reguengos, do Monte dos Perdigões, produzido na herdade deste mesmo homem que, dois dias antes do descafeinado, a 2 de Março, anunciara o enterro da OPA da Sonaecom sobre a Portugal Telecom.

É uma pessoa simples Henrique Manuel Fusco Granadeiro. Nasceu a 2 de Dezembro de 1943, na Ribeira, Borba. Contraria o elemento do signo a que pertence – fogo – Sagitário, pela ligação estrénua à terra.

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“O meu lugar é sempre aquele onde estou sentado”, o lema que tem repetido no decorrer da vida encaixa-lhe como luva. É verdade que hoje está sentado na poltrona do operador global de telecomunicações, líder a nível nacional –, e que a sua infância fica a léguas do luxo. Verdade, também, em ambas as situações, nunca deixou de ser ele próprio. Metódico e compenetrado. Sério e perseverante. O indivíduo que gosta de música clássica. Pintura. Ler. Estilo império francês. Cujo corpo não foi dotado para dançar, mas, a voz já afinou num coro de canto gregoriano, tem uma história que condiz com esforço.

Em criança trabalhava no campo e nas pedreiras de mármores. Fazia dois quilómetros, com os pés afundados na lama, para ir à escola, em Rio de Moinhos. Durante o dia estudava e à tarde tomava conta de ovelhas. Aluno de poucas brincadeiras, o melhor das redondezas, mas, para quem iria ser amante da caça – viu cedo a sua primeira raposa: reprovou no exame da 4.ª classe. Por ele esperava o seminário menor de S. José, em Vila Viçosa.

Convencido por duas tias freiras, é ali que, durante cinco anos, estuda. Depois, segue para o Seminário maior de Évora onde finaliza o Ensino Secundário. Padre Manuel Ferreira, que nos anos 60 foi seu colega de batina, caracteriza-o: “Uma pessoa agradável, muito empreendedora e com muita curiosidade intelectual”.

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Distinguido como o discípulo mais brilhante de Portugal, vem, por diversas vezes, a Lisboa, para receber galardões, como, por exemplo, o Prémio D. Dinis, instituído pela Fundação Casa de Mateus, que significava um excelente subsídio económico, e conexo com a bolsa da Fundação Gulbenkian, o ano lectivo seguia sem dores de cabeça.

Na sua aldeia falava-se. Muito. O moço exemplar serviria Deus. Seria sacerdote. Engano. “Ele estava na idade da escolha”, lembra padre Manuel Ferreira. O rapaz escolheu. O curso de teologia desmaiou a meio. Henrique deixa a senda eclesiástica para entrar no Instituto Universitário de Évora. Inscreve-se no curso Organização e Administração de Empresas. A rotina continua: é o estudante que obtém as notas mais elevadas.

José Manuel Espírito Santo Silva – um dos administradores do BES, foi seu companheiro de carteira, assim como Fernando Martorell, vice-presidente executivo da área não financeira do mesmo grupo. A amizade com pessoas que tinham ido para a escola com sapatos à prova de lama, não alterou a sua postura humilde. O garoto que guardava ovelhas, trata por tu a futura elite nacional. Obra do acaso.

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Como o seu primeiro emprego. Após a licenciatura completada aos 25 anos, a mão de João Salgueiro ajuda-o. O economista que era o subsecretário de Estado do Planeamento Económico no Governo de Marcelo Caetano, fazia parte da mesa de honra na cerimónia de final de curso. Em 1968 leva-o para o secretariado Técnico da Presidência do Conselho.

Dois anos depois, Henrique participava na criação da SEDES – uma das mais antigas associações cívicas portuguesas. Francisco Sá Carneiro, Rui Machete, Rui Vilar, Vera Jardim, foram, entre outros, aqueles que apadrinhavam esta acção. Entretanto, em 1971, dá-se a promoção de João Salgueiro a secretário de Estado. E caíram frutos no Alentejo. Convida-o para o seu gabinete.

Mas pouco tempo. Salgueiro larga as funções decepcionado com a primavera marcelista. Marcelo Caetano (e ele próprio comentou) fez sinal à Esquerda e virou à Direita. Noutras esteiras seguem João Salgueiro e Henrique Granadeiro, que criam a Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, cabendo ao menino da Ribeira a direcção da área de projectos ligados à investigação.

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Com o 25 de Abril de 1974 vai para os Açores, com o propósito de preparar as eleições, enfim livres. Regressa. Até 1976 é director-geral da Acção Regional no Ministério da Administração Interna. Embora a democracia estivesse instalada, corria riscos. E Henrique não gosta de babéis. Algumas reuniões preparatórias do acalorado 25 de Novembro de 1975 decorrem em sua casa.

O seu empenho de impedir a tentativa de golpe de Estado pela ala radical do Movimento das Forças Armadas mereceu o reconhecimento do general Ramalho Eanes. Assim, quando o general ganha as eleições presidenciais, chama-o para ser seu chefe da Casa Civil. Da fama de ‘ghost writer’ Granadeiro não se livra. Escritor fantasma do Presidente Eanes. São discursos escritos pelo seu punho que esmurravam o Governo de Mário Soares. Incómodos. Davam azia a muita gente. Talvez por tanta indigestão, a sua saída de Belém tenha sido antecipada.

Em 1979, com 36 anos, parte para Paris para ser embaixador na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). Quando volta, em 1981, aceita ser administrador da Standard Eléctrica. A vida sorri-lhe. Os negócios floresciam e as receitas também. Ter-se aliado ao tubarão do ramo imobiliário Joaquim Oliveira, com quem promoveu o plano da urbanização da Quinta do Lambert, em Lisboa, traz lucros.

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O Alentejo não cai no esquecimento. É designado administrador delegado da Fundação Eugénio de Almeida. A sua missão era acalmar a salada russa engendrada pela reforma agrária. Quando os ocupantes das terras foram depostos, o objectivo era a produção de vinhos.

As promessas não são de papel. Cria postos de trabalho. Renova o cunho Cartuxa. Cria o Pêra-Manca, um dos vinhos com maior prestígio nacional. “Ele fez tudo!” exclama Joaquim Morais, vinicultor. O arranque do Alentejo deve muito a Granadeiro. “Ninguém tem dúvidas dessa verdade.” Talvez a Condessa de Vivalda, viúva de Vasco Eugénio de Almeida, veja de outra forma, porque, em tempos, pôs acções em tribunal, reclamando a existência de terrenos e imóveis que não pertenciam à fundação, mas, à própria. Indignado, Henrique desliga-se.

Voltaria em 1992 para retomar a administração. O apreço dos agricultores chegara em 1987, no convite para presidir o IFADAP (Instituto de Financiamento e Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura e das Pescas), onde fica até 1990.

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Laranja. A cor política fica oficializada. Filia-se no Partido Social Democrata (PSD). A guelra do partido fê-lo vibrar uma só vez. Em 1985, no XII congresso realizado no casino da Figueira da Foz. Aníbal Cavaco Silva tornava-se presidente do PSD. João Salgueiro foi o grande derrotado. Mas, os comboios políticos são nada na carruagem de alguém que está apaixonado. Margarida Marante, jornalista da RTP, é a mulher que lhe acelera o coração. Namoram. Casam. A festa, na Pousada de Santa Isabel, Estremoz, estampilhada nas revistas sociais, retrata felicidade. Do casamento nascem Henrique, Catarina e Joana.

A fama de ser laborioso, persistente, honesto, em 1990 escancara-lhe as portas do número 37 da Rua Duque de Palmela, a antiga sede do ‘Expresso’. Francisco Pinto Balsemão promove-o a administrador da Sojornal. Dizem que por lá fez uma maré alta de remodelações, a começar pelos apanágios da redacção. As razões sustinham o argumento de diminuir custos. E custos Granadeiro também os tinha, mas, compensado pelo saldo bancário estar, folgadamente, positivo.

Comprara uma herdade de 70 hectares em Reguengos de Monsaraz – o Monte dos Perdigões, e outra propriedade, em São Manço, cujo nome é adequado: Vale do Rico Homem – um mundo de 500 hectares.

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A separação de Margarida Marante, no fim dos anos 90, seria falada, mas, ao contrário do eco das línguas bicudas, o amor feneceu, e a amizade perdura. “É o meu melhor amigo”, confidencia-nos. “Muito bom pai, homem generoso e firme”, são as qualidades realçadas.

Em 2001, troca o grupo Balsemão pela administração da Lusomundo, a empresa que geria o ‘Diário de Notícias’, ‘24 Horas’ e o ‘Jornal de Notícias’. Nessa esfera profissional encomenda a Emídio Rangel – na altura casado com Margarida Marante – o projecto de reforma da TSF.

Os resultados foram estrondosos: as audiências bisaram e as receitas publicitárias triplicaram. O antigo director da SIC assegura que estamos diante “de um excelente gestor e de alguém inteligente”. Rangel e Granadeiro são homens que nutrem um pelo outro forte consideração, sobretudo pelo carinho com que Rangel tratava os filhos do ex-casal.

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Iria para a gaveta. Por isso, disse não. No momento de ser o presidente da Fundação Portugal Telecom, a resposta pendeu na negativa. Quando José Manuel Espírito Santo, o antigo colega da universidade, volta do Brasil, os laços de amizade revigoram-se. Ricardo Salgado, primo, presidente da comissão executiva do BES, abre os braços a Granadeiro. A família torna-se próxima. Passam férias juntos. Uma semana em Agosto, num esplêndido veleiro que navega nas águas azuladas da Turquia.

O dedo anelar de Granadeiro retomou a aliança. Casou com Graça Líbano Monteiro, que foi, segundo o próprio, juntamente com os filhos, a mais sacrificada ao longo do ano da OPA: “Deixei de estar casado com ela, para casar com uma OPA, que é um casamento mau!” O homem que diz que por natureza é de diálogo, de paz, um conciliador e um negociador, mas, mal a mostarda chega ao nariz, pode ser de rupturas, não seguiu o sacerdócio, mas não esqueceu a Bíblia.

Seguiu o conselho que o anjo deu a Lot: não olhes para trás, caso contrário, transformar-te-ás em sal. “Quero honrar o passado, merecê-lo e construir o futuro, tendo presente o passado e o mérito de quem o construiu”. Por outras palavras: Henrique Granadeiro não sabe andar para a frente a olhar para trás.

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APAIXONADO PELOS VINHOS

Como qualquer apaixonado por vinho sempre sonhou com os seus próprios vinhos. Granadeiro não foge à regra. O projecto iniciado na Herdade da Calada, entretanto vendida, e que reconstruiu com bom gosto e mais-valia na Herdade dos Perdigões.

É ali que Paulo Laureano, enólogo, ajuda a desenhar os vinhos que transportam também a sua forma de estar. É entre as vinhas e os vinhos que o presidente da PT reconstrói a sua memória da terra.

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