ENTRE O CÉU E O INFERNO
Leni Riefenstahl faz 100 anos no dia 22 de Agosto. A realizadora do regime nazi apagará as velas celebrando uma vida envolta em polémicas, contradições e desculpas estafadas. A sua história chegava e sobrava para uma enorme telenovela, mas só vai ter <BR>direito a um filme. Com a assinatura de Jodie Foster.
Quando no próximo dia 22 de Agosto Bertha Helene Amalie Riefenstahl se preparar para celebrar um século de vida, o rosto iluminado pelas velas espetadas no bolo já estará muito longe da imagem de bailarina de curvas perfeitas e cara bonita que encantou Adolf Hitler. As rugas, a maquilhagem algo desbotada e um certo toque antigo na maneira de vestir irão demonstrar que, afinal, ninguém resiste às marcas do passado, para mais se o que está para trás é uma vida de acção, aventuras, enganos, mentiras e desilusões.
Escolhida pelo Führer para realizar alguns documentários, vistos hoje enquanto poderosos instrumentos de propaganda do ideal de raça ariana e fé no Império Alemão, Leni, como ficou conhecida, quase de certeza lembrar-se-á dos inúmeros episódios por que passou, e deverá esboçar aquele estranho e enigmático sorriso com o qual venceu as mais diversas adversidades.
A primeira das quais, segundo ela, foi ter sido “obrigada” a colaborar com o Partido Nazi. De facto, muito poucos acreditam que a tarefa tenha correspondido a um fardo, até porque o realizador que estava em primeiro lugar para tamanha missão, Fritz Lang, cedo percebeu que a única hipótese era a fuga para os Estados Unidos. Desertou, escolhendo uma solução copiada por muitos outros artistas alemães que não queriam ver pertencer ao regime.
Leni Riefenstahl nunca pensou sequer nessa hipótese. O seu trajecto começou enquanto bailarina, seguindo daí para a representação e, mais tarde, para a realização. Enquanto actriz, brilhou em A Montanha Sagrada (Der Heilige Berg), obra dirigida por Arnold Fanck, que nesse ano de 1926 procurava uma bailarina para o papel principal de Diotima.
O filme tornou-se num clássico dentro do género, tendo como superficial pano de fundo a ideia da “raça perfeita” tantas vezes veiculada pelo III Reich. A jovem Riefenstahl, na altura com 24 anos, possuía uma inegável beleza, ganhando desde logo a simpatia das altas esferas nacionalistas.
Contudo, a forte ligação que viria a ser estabelecida entre ambas as partes só teve lugar quando passou a comandar as operações no campo de filmagens. Tal aconteceu em 1932, na realização de A Luz Azul (Das Blaue Licht), obra na qual revelou uma nova faceta, mostrando ser capaz de se destacar tanto à frente das câmaras como atrás delas.
O triunfo da alienação
A partir de então o vínculo com a extrema-direita acentuou-se e em 1934 Leni Riefenstahl assinou O Triunfo da Vontade, um documentário sobre o Congresso de Nuremberga que depressa se tornou no seu filme mais importante. Com imagens esmagadoras das longas marchas, das tropas perfiladas perante a imagem de um Führer tornado Deus, a obra reflecte uma das mais sérias tentativas de alienação das massas perante um símbolo ou ideologia, arrastando multidões para a doutrina nazi. Ainda hoje a sua exibição é proibida na Alemanha.
No final da guerra, Riefenstahl passou a assumir uma postura “politicamente correcta” face a esse filme, defendendo que o seu trajecto sempre foi apolítico. No entanto, contradiz-se quando afirma que só mantinha boas relações com Hitler. O historiador Felix Moeller desvenda que Leni tinha bons contactos com o muito influente ministro da propaganda, Joseph Goebbels, assim como com o arquitecto e coreógrafo do congresso de Nuremberga, Albert Speer, figura importante para o resultado final de O Triunfo da Vontade.
Mas as fugas à verdade só aconteceram depois do fim da II Guerra Mundial. Antes, com uma carreira em franca ascensão, Leni Riefenstahl filmou ainda Olímpia – Ídolos do Estádio, terminado em 1938. O filme dá ideia de que foi a Alemanha a vencedora dos Jogos Olímpicos de Berlim, quando de facto assim não aconteceu. Mas poderia alguma vez a realizadora mitificar Jessie Owens, o negro norte-americano que ofuscou os atletas germânicos? A resposta é: nunca. Leni preferiu dar destaque a provas “menores”, como o hipismo ou os saltos para a àgua, onde os germânicos mostraram ser superiores. A realidade saiu claramente deturpada.
Em 1939, o mundo entrou em guerra e Leni deixou de realizar qualquer obra – Hitler estava atolado em estratégias militares –, preferindo passar parte da sua vida em deslocações ao estrangeiro, para falar do filme sobre os jogos e receber galardões. Com o fim da guerra, a realizadora passou quatro longos anos numa prisão dos aliados.
Podia ter sido executada, mas tal não aconteceu e o regresso à cadeira de directora ocorreu apenas em mais um filme, Tiefland, adaptação da ópera de Eugen d’Albert em que voltou a envolver-se numa forte polémica. Ao que se conta, os figurantes ciganos utilizados nas filmagens eram, nada mais nada menos, que prisioneiros de um campo de extermínio. O filme ficou incompleto, sendo apenas terminado em 1954.
Nos anos seguintes Leni Riefenstahl correu meio mundo, até que descobriu os Nuba, no Sudão. Nela reencontrou os ideais da raça guerreira, atlética e pura, afinal, as mesmas características do protótipo ariano. O pormenor dos Nuba serem negros “como a noite” pouco lhe importou nesse regresso ao imaginário nazi, e durante os anos 60 e 70 fez reportagens sobre a tribo.
Os dois álbuns de fotos publicados sobre essa temática foram um sucesso e a seguidora dos mandamentos do Führer parece ter encontrado a táctica para voltar à ribalta, tendo sido convidada para a gala dos 75 anos da famosa revista Time. Quando fez 70 anos, a Rolling Stone publicou uma fotografia de Mick Jagger, captado pela lente de Leni, e o novo acolhimento público pelos países estrangeiros tornou-se numa realidade.
No ano seguinte, Leni ganhou uma nova apetência por temas relacionados com a flora e a fauna, obtendo a licença de mergulho aos 72 anos. Com essa ferramenta, partiu à descoberta de inúmeras espécies marinhas, chegando a produzir um fantástico álbum de fotografias de peixes exóticos.
Há três anos, no entanto, a sua carreira teve um enorme revés. Na oitava viagem ao Sudão, realizada 23 anos depois de lá ter estado pela última vez, o helicóptero onde seguia caiu quando estava a cinco metros de altura do solo. Um seu assistente ficou gravemente ferido, enquanto Leni Riefenstahl só teve umas costelas partidas. A “realizadora do diabo”, como foi apelidada, não morre com essa facilidade. Antes do adeus final, continuará a lutar até que o povo alemão reconheça o seu génio. Agora, ou daqui a cem anos.
De regresso, 48 anos depois
Leni Riefenstahl continua a ser notícia. Na data em que comemora 100 anos, a realizadora promete estrear Impressões Debaixo de Água (Impressionen Unter Wasser), um documentário de 45 minutos sobre a vida subaquática nos recifes de Papua Nova Guiné, no Oceano Índico.
O filme representa o regresso da “colaboradora” do regime nazi ao grande ecrã, 48 anos depois de ter dirigido o seu último filme. Para conceber este documento, Riefenstahl efectuou mais de duas mil imersões, deixando essa actividade qaundo contava já 97 anos, uma altura em que quem está vivo pouco mais consegue que dar alguns pequenos passeios. Por certo, será a melhor maneira de apagar 100 velas.
Jodie Foster filma Riefenstahl
Jodie Foster irá dirigir e interpretar um filme sobre a vida e obra de Leni Riefenstahl. Duas vezes galardoada com o Óscar, a actriz e realizadora norte-americana, de 39 anos, acrescenta que faz questão de interpretar o papel daquela que foi uma das maiores realizadoras do século XX, recusando-se a aceitar que a película funcione como uma operação de limpeza de imagem da chamada “realizadora do diabo”.
A mensagem difundida por Foster funciona como uma resposta à Liga de Defesa Judaica, que não vê com bons olhos o facto de uma personalidade tão famosa se prestar a conceber e participar num filme sobre uma colaboradora de Hitler. O filme promete dar ainda muito que falar, até porque as contradições em que Riefenstahl se viu envolvida ao longo da vida causam alguma perplexidade e envolvem factos pouco claros. Jodie Foster terá, por isso, um dos maiores desafios da sua carreira.
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