Era a única branca naquele mar de Masai

Quando chegou ao Quénia era mulher ingénua, sem experiência de vida. O contacto com uma das mais famosas tribos africanas reforçou-lhe a auto-estima. Vai partir para novas aventuras com África colada ao corpo.

13 de fevereiro de 2005 às 00:00
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Gosta sempre de terminar o que começa. Nem um esgotamento nervoso a impediu de concluir a pesquisa sobre o povo Masai. Numa sociedade tradicionalmente machista, onde as mulheres são tratadas como crianças, Joana Roque de Pinho, 31 anos, impôs-se. Regressou a Portugal uma pessoa diferente. Mais rica. Mas não sabe bem se agora quer fazer carreira aqui ou lá fora.

Como é que uma licenciada em Biologia se começa a interessar pelo estudo do povo Masai?

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Queria salvar o mundo e estava convencida que era mais fácil concretizar esse sonho recorrendo à Biologia. Quando acabei o curso fui estudar elefantes para a África do Sul, mas o que mais me fascinou naquele país foi a interacção entre as áreas protegidas e as populações locais. Há um grande desequilíbrio. À volta das reservas, onde os turistas brancos se divertem, vivem populações locais, pobres e sub-nutridas. Antigamente ainda podiam caçar e comer os animais, hoje em dia nem sequer os vêem.

Passa-se o mesmo com os Masai. Também eles vivem nas regiões limítrofes da reserva Masai Mara…

Exactamente. Comecei a interessar-me por esta área e decidi ir aprofundar os meus conhecimentos para os Estados Unidos da América. Ganhei uma bolsa e fui fazer o doutoramento em Ecologia Humana para o Colorado State University. Eles têm uma conceituada equipa que se dedica ao estudo de pastores, como os Masai e outras tribos que praticam a pastorícia na África do Leste, na Mongólia ou na China. O projecto estava a ser apoiado pela agência americana de desenvolvimento internacional. Fui parar ao Quénia por acaso. Estive lá um mês à experiência.

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Correu tão bem que decidiu regressar por mais dois anos…

A primeira vez estive a acompanhar uma antropóloga americana. Fui para lá em Julho de 2000. O nosso acampamento estava relativamente afastado das bomas (conjunto de casas Masai) para termos alguma privacidade e trabalharmos melhor. Não estávamos ali a fazer turismo e nem podíamos ser solicitadas 24 horas por dia.

Quem é que vos pedia ajuda?

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Quase toda a gente. Pastores a pedir água, crianças e velhotes – alguns andavam o dia inteiro só para nos pedirem um favor. Os Masai não nos viam como antropólogas. Só queriam alguém que os ajudasse a resolver alguns problemas. Quando perceberam que eu estava a ali a estudá-los, e para isso precisava de lhes colocar algumas questões, diziam-me logo: “Por que fazes tantas perguntas se não nos vais ajudar.” Eu respondia que era uma simples estudante e precisava da ajuda deles para aprender mais. Só assim podia escrever um relatório, que mais tarde seria utilizado pelos líderes políticos.

Durante as entrevistas, como é que se entendiam?

Os meus assistentes falavam inglês e eu aprendi Masai – falava suficientemente bem para os impressionar e até fazia trocadilhos. Tirei um curso de cinco semanas intensivo numa missão católica mexicana. Era essencial haver essa ligação.

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Os Masai têm fama de serem um povo orgulhoso e indomável, de pastores e guerreiros. Como é que a receberam?

Fui muito bem acolhida. Quando vêem uma pessoa com mais influência, capaz de os ajudar, são os primeiros a estabelecerem uma boa relação. No início recebia muitas visitas, passava as noites a cozinhar, e a comer, com as mulheres. Depois, deixei de ser uma novidade. De uma maneira geral, ser branca no país Masai é uma lição de humildade. Sentimo-nos feias e sem cor. Tantos os homens como as mulheres olham para nós com desprezo. Acham-nos deselegantes. E eu até fazia os possíveis para andar arranjadinha…

Mesmo no meio do mato tinha cuidados com o guarda-roupa?

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Ao princípio, como não tinha noção dos costumes deles, vestia apenas uma t-shirt e enrolava um pano à cintura. Depois comecei a perceber que os meus assistentes Masai gostavam mais de me ver com uma camisa bem engomada e uma saia comprida lisa. Quando ia fazer entrevistas vestia-me sempre à missionária. O mais formal possível.

Os Masai são famosos pelas suas roupas vermelhas e bijutarias coloridas. Vestiu-se alguma vez de acordo com a tradição?

Vestiram-me de Masai dos pés à cabeça. Cheguei a ir para uma reunião assim. Estava a apresentar os meus resultados preliminares e a sentir as várias camadas de roupa, quase sempre atadas com cordas, a escorregarem. Como se isso não bastasse, as jóias apertavam-me o pescoço. Foi uma sensação muito desconfortável.

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Para conseguir trabalhar, tinha de recusar alguns pedidos de ajuda. Custava-lhe muito dizer ‘não’?

No primeiro mês, como ainda era ingénua, andei a ajudar toda a gente. Apesar de o jipe estar quase a dar o berro, dava boleias, distribuía a água e fartei-me de levar pessoas para o hospital. Conseguir um equilíbrio é muito difícil. Eles têm muito jeito para manipular as pessoas…

Por isso é que precisou de 2 anos para conseguir compilar todos os dados. Houve menos tempo para a parte intelectual…

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Durante dias e dias só me dedicava à logística. Mas às vezes era essencial perder 3 horas a beber chá com os velhotes. Eles gostavam de saber como é que se vivia no meu país. Os mais novos perguntavam-me se em Portugal também haviam estradas tão boas como as deles. Às vezes gostava de os picar e contava-lhes que fazíamos touradas. Eles nunca percebiam qual era o interesse em combater um animal tão pacífico.

Os entrevistados recebiam-na sempre bem?

O meu assistente, que era muito bem conectado, facilitou-me muito o trabalho. Às vezes as pessoas só respondiam em troca de alguns favores, de uma boleia por exemplo.

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Quem é que a surpreendeu mais?

Quase todas as mulheres, em especial as viúvas. Foram as entrevistas mais inteligentes. Quando abordávamos um assunto muito importante, a privatização da terra, a maioria dos homens era a favor. Diziam todos o mesmo. Passavam a ter um título, podiam ir ao banco e receber dinheiro para desenvolverem a propriedade. As mulheres surpreenderam-me porque foram as únicas a perceber que se a terra fosse privatizada elas já não podiam ir buscar a água a um sítio e a madeira a outro. Perdia-se o nomadismo.

Muitos dos costumes Masai já foram restringidos pela lei, como a caça do leão, por exemplo…

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É ilegal, mas ainda acontece bastante, tanto no Quénia como na Tanzânia, por motivos cada vez mais políticos. É uma forma de chamarem a atenção para o problema deles, e de fazerem pressão sobre os ecologistas e as reservas. Afinal, os animais selvagens são mais protegidos do que os próprios Masai. Além disso, as mudanças sócio-económicas estão a impedi-los de se dedicarem só ao gado – o que para um Masai é uma das actividades mais nobres. Agora, já há Masais jovens, modernos (os chamados dot.com), com famílias mais pequenas e interessados em plantar hortas. Apesar dos mais velhos as desprezarem, para os jovens são uma fonte adicional de rendimento.

No terreno, em que condições é que vivia?

Nós vivíamos em tendas, no meio do mato, ao lado dos animais selvagens. Os meus seis assistentes achavam aquilo horrível. Passados 15 dias, já só queriam voltar para as suas casas, feitas de bostas de animais. Estávamos bastante desprotegidos, mas nunca tive medo. Chamavam-me inconsciente mas nunca tive receio dos animais selvagens. Mas acabei por ser mordida por um escorpião e por pouco não levei uma mordidela de uma cobra.

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Fazia a mesma alimentação do povo Masai?

Não há povo mais conservador, em termos de alimentação, do que os Masai. Demorei um ano e meio a convencer os meus assistentes a experimentarem esparguete. Era o produto mais barato que eu podia comprar, mas eles recusavam-se. Também não tocam em peixe nem em carne de porco. Por isso comíamos carne de cabra grelhada, que é uma delícia, arroz, feijão, milho ou couve frita.

O que lhe custou mais a suportar?

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O calor e a falta de água. Também não se pode contar com a gasolina. Quando íamos a Nairobi, vínhamos sempre carregados de combustível. A comida também era um problema – às vezes havia muita, no dia seguinte desaparecia tudo. Além disso, não tinha noção que os Masai viviam rodeados de tantos animais selvagens.

De que forma é que essa experiência mudou a sua vida?

Mudou radicalmente. Nunca tinha sido ‘patroa’ de ninguém e durante aquele tempo fui responsável por uma equipa de seis assistentes masai, que incluía um bebé de três semanas. Eu passava a maior parte do tempo a fazer logística. Manter o carro em bom estado mas com pouco dinheiro, a pensar nas reservas da gasolina, nos pneus sobresselentes e nas ferramentas. O carro era fundamental porque fazíamos centenas de quilómetros por dia. Às vezes, para arranjar o motor, tinha de me desenrascar com arames ou fita adesiva. As comunicações também não eram fáceis. Como não há rede móvel, os meus assistentes demoravam algumas horas até à cabina mais próxima. Cheguei a esperar vários dias por eles em Nairobi, com o carro cheio de gasolina e comida. Apesar de não ser medrosa, não fazia o percurso que liga Nairobi a Mombaça – conhecida como a estrada da morte. Há imensos assaltos organizados e as pessoas guiam à maluca.

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Nestes contextos culturais muito machistas ser mulher é muito complicado?

Para as tribos nómadas as mulheres não são nada. Eu era uma anedota para o meu assistente e que tem a minha idade. As mulheres lá pertencem à categoria de crianças. Um dos factores mais importantes para a sociedade Masai é a idade. A partir da circuncisão feminina e masculina és adulta, antes disso és criança. E para eles, eu tinha físico de 12 anos – nem sequer fui circuncisada. Pelo menos, nos Masai a parte sexual não existe. Nunca tive o menor problema. Sentia-me em plena segurança. Estava nua atrás da tenda a tomar banho e nessa altura todos se viravam de costas. Eles são muito pudicos.

Como é que se convive com a solidão?

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À noite, quando estava a tomar banho atrás da tenda, a olhar para a lua, com o Kilimanjaro como cenário, a ouvir os barulhos dos animais, é que me apercebia o quão longe eu estava de casa. Sentia-me ainda mais sozinha porque era a única branca naquele mar de Masai. Mas fui fazendo alguns amigos em Nairobi. É um meio muito internacional.

Nunca lhe passou pela cabeça abandonar o projecto?

Apesar da pressão da família, fiz questão de terminar o que tinha começado. Tive de regressar a casa durante cinco meses e depois regressei em força. Sofri um esgotamento e o meu sistema imunitário ressentiu-se. Enfraquecida, apanhei um vírus que me obrigou a ir parar ao hospital. Quando fui ao médico pedi-lhe drogas porque já não estava a aguentar. Ele assustou-se e mandou-me para um psiquiatra. Foi ele que me disse que eu já tinha ultrapassado os meus limites.

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Descobriu que era menos resistente do que pensava?

E fiquei a saber que é frequente as investigadoras femininas sofrerem esgotamentos. Talvez porque somos mais sensíveis e queremos fazer tudo mais perfeito. Além disso, temos os nossos limites físicos. Estes bracinhos não foram feitos para guiarem um jipe daqueles… Quando regressei ao Quénia disse aos meus assistentes que já não era a mesma ingénua. E eles passaram-me a respeitar mais. O meu erro foi ter ficado deslumbrada com as pessoas, com a pobreza, e tornei-me querida demais.

Contou sempre com o apoio da família?

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Quando estava no terreno, era impossível entrar em contacto com eles. Só quando ia a Nairobi é que lhes conseguia dar notícias. Imagino o pânico da minha mãe quando sabia que eu ia deixar a capital ao volante de um carro quase sem travões. E o pior é que eu lhe contava tudo…

Eles foram lá visitar-me e ficaram deslumbrados. O meu pai, como é homem, alto e tem alguma barriga, sinal de um certo estatuto entre os Masai, foi tratado nas palminhas. A minha mãe já foi tratada com menos respeito.

À medida que a data de partida se aproximava, ficava com o coração apertado?

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Na última semana no país Masai parecia que estava a dizer adeus aos sons que se ouvem nas Bomas, aos badalos dos animais, às vozes das pessoas. Foram os sons que mais me marcaram. Mas como foi uma semana tão dura, fiz tantos quilómetros para acabar as entrevistas, que me senti aliviada quando acabou tudo. Isso facilitou a despedida. Mas custou-me muito.

Foi um adeus definitivo?

Daqui a um ano regresso. Feita a pesquisa, resta-me introduzir os dados, analisá-los e escrever a tese. Depois, vou defendê-la aos EUA. O meu estudo era perceber que factores influenciam a relação dos Masai com os animais selvagens, se é a idade, o sexo, o nível de educação. A minha ideia era desmistificar a lenda que os Masai vivem em harmonia com a natureza.

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Afinal, acho que não. Podia-se pensar que por serem nómadas o impacto deles no ambiente é menor, mas outras tribos nómadas no Quénia acabaram com os animais selvagens. Os únicos sítios onde ainda existem parques naturais e muitos animais selvagens são nas zonas Masai. Para os mais velhos tudo foi criado por Deus, a natureza, os animais, os homens e até o Governo. Por isso, não temos o direito de matar nada. Matar só por matar, é errado. Há uma relação de tolerância com os animais selvagens. Os mais novos têm expectativa de receber o dinheiro dos turistas que visitam os parques.

Uma formação académica no estrangeiro garante um visto de entrada para uma carreira surpreendente?

Se não tivesse ganho a bolsa da Fundação Fulbright não tinha ido para os Estados Unidos. Foi o pontapé de saída. Isso permitiu-me enveredar por uma área muito específica. Ainda não sei se quero ficar por cá ou regressar ao estrangeiro. Agora estou num momento de indefinição. Gostava de voltar para o Quénia. Se não tivesse regressado para escrever a tese, tinha ficado por lá e arranjava trabalho. Mal apresentei os resultados tive propostas de ONG (Organizações não governamentais). Mas já sabia que se ficasse ali, não ia acabar a tese. E gosto sempre de terminar o que começo.

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