EUA & INGLATERRA: TÃO AMIGOS QUE NÓS SOMOS

Inimigos no séc. XVIII, americanos e britânicos aproximaram-se com a guerra, o anticomunismo e o 11 de Setembro. A ‘Velha Europa’ não entende

02 de março de 2003 às 19:01
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Desde a II Guerra Mundial (1939-45) que as relações anglo-americanas se caracterizam por serem ‘especiais’, termo utilizado por Churchill no famoso discurso pronunciado em Março de 1946, no qual anunciou que uma ‘Cortina de Ferro’ se tinha abatido sobre a Europa Central e de Leste.

Mas os laços desta união remontam ao séc. XVI e à colonização da orla atlântica da América do Norte. Os colonos, oriundos das ilhas britânicas, preservaram a língua e as tradições da sua terra de origem, ao mesmo tempo que se adaptavam às condições do novo continente. A distância a que se encontravam, as perseguições religiosas e políticas que tinham levado muitos a fugirem da pátria e o abandono a que eram votados pela Inglaterra, não contribuíram, porém, para alimentar uma ligação forte ao país de origem.

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Por outro lado, no séc. XVIII, o gosto por viver em liberdade tornou intolerável a política colonial inglesa, designadamente quando pretendeu reforçar o exclusivo comercial e estabelecer novos impostos. Estoiraram por isso várias revoltas, das quais a mais emblemática ocorreu em Boston em 1773, e que levaram à Declaração da Independência a 4 de Julho de 1776, data do nascimento dos EUA.

O novo país, que emerge em luta contra a Inglaterra, conta com o apoio diplomático e militar da França e é em Paris que é assinado o tratado que, em 1783, assegura a independência americana.

A paz dura menos de duas décadas já que, entre 1812 e 1815, estala a guerra anglo-americana. As questões não resolvidas – como a presença inglesa na região dos Grandes Lagos, junto ao Canadá, ou o apoio militar aos índios – juntou-se então a pretensão britânica de impor o bloqueio Continental à França napoleónica, prejudicando o comércio americano.

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Os EUA declararam então guerra à Inglaterra e tentaram, sem sucesso, a invasão do Canadá. Depois de sofrerem vários desaires na guerra naval, os americanos ainda vêem, em 1814, Washington D.C. ser invadida pelos ingleses. Mas haveriam de ripostar.

CHURCHIL E ROOSEVELT

O ponto de viragem nas relações anglo-americanas dá-se na I Guerra Mundial (1914-18). De início, o conflito constituiu uma excelente oportunidade de negócio para os americanos – fornecedores da Inglaterra e, ao mesmo tempo, neutrais. Contudo, essa neutralidade foi posta em causa quando os submarinos alemães começaram a atacar indiscriminadamente navios que se dirigiam de/e para a Grã-Bretanha. A perda de vidas americanas sensibilizou a opinião pública para uma intervenção na Europa e, em Abril de 1917, o presidente Woodrow Wilson assumiu a participação dos EUA na Guerra.

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A entrada em acção de quase um milhão de soldados americanos desequilibrará a balança a favor dos Aliados, pondo fim a uma guerra que ameaçava eternizar-se. À Alemanha e Áustria não lhes restará mais do que a rendição, em Novembro de 1918.

De regresso ao isolacionismo que caracterizava a sua política externa, os americanos são de novo despertados pelos tambores da guerra. A 1 de Setembro de 1939 a Alemanha de Hitler invade a Polónia, dando início à II Guerra Mundial. Dez dias depois, o Presidente americano Franklin Roosevelt escreve a Winston Churchill, então Primeiro Lorde do Almirantado britânico, para que este o informe sobre o conflito.

Começa aí uma amizade pessoal sem precedentes. Ambos tinham ocupado lugares de destaque na marinha de guerra dos respectivos países durante a I Guerra, partilhavam o gosto pela História e a forte determinação em pôr fim ao domínio do sanguinário Adolf Hitler sobre o Continente Europeu.

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Quebrar o isolacionismo americano não foi fácil: os EUA só entram na guerra em finais de 1941, após o ataque japonês a Pearl Harbor. Nesse ano, Roosevelt fez aprovar a lei que lhe permitia ajudar materialmente a Inglaterra, único país a fazer frente à máquina de guerra nazi. À ajuda em equipamento militar e bens, seguir-se-á o envio de tropas.

As boas relações resistiram a contrariedades, principalmente quando aos ‘Dois Grandes’ se juntou um terceiro aliado: a União Soviética, de Estaline – ao qual, segundo Churchill, o presidente americano fez demasiadas cedências na Conferên-cia de Ialta, em 1945. Franklin Roosevelt morreria pouco depois, a 12 de Abril de 1945, escassos dias antes do fim da guerra na Europa.

Findo o conflito, os americanos acabaram com o sistema de financiamento do esforço de guerra britânico mas, logo em 1946, aprovaram um empréstimo que permitiu à Inglaterra ultrapassar as dificuldades económicas de então.

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Nesse mesmo ano, Churchill chamou a atenção para a ‘Cortina de Ferro’ que caía sobre a Europa, dominada pelos soviéticos. O medo do comunismo acabou por cimentar a relação especial entre os dois aliados, apesar das divergências.

Terminada a ‘guerra fria’, não se esbateu a cooperação militar, bem visível na Guerra do Golfo, nas intervenções na Península Balcânica ou no Afeganistão. No plano diplomático a Inglaterra assumiu destaque na formação da coligação antiterrorista após o 11 de Setembro e o primeiro ministro Tony Blair – pelo esforço que tem feito para convencer a Europa a colaborar num ataque americano ao Iraque – merece bem as palavras com que George W. Bush se dirigiu ao Congresso: “Os EUA não têm amigo mais verdadeiro do que a Grã-Bretanha”.

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