FILIPE S. FERNANDES: NÃO ME DOU COM NENHUM RICO

É um dos homens que mais sabe sobre fortunas em Portugal. O jornalista, de 42 anos, acaba de lançar o livro ‘Fortunas & Negócios’, onde estão retratados os 20 mais ricos do século XX

14 de fevereiro de 2003 às 18:10
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Foi durante anos o autor das principais listas portuguesas de bilionários. Hoje é quem mais sabe das fortunas nacionais. No livro ‘Fortunas & Negócios’, recém-editado, Filipe S. Fer-nandes conta tudo sobre quem construiu e quem perdeu os maiores impérios financeiros e empresariais do País.

É herdeiro rico e trabalha por prazer, ou vive do trabalho?

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Vivo exclusivamente do trabalho. Nada mais.

O que conta no livro ‘Fortunas & Negócios’?

‘Fortunas & Negócios’ é uma série de biografias (20 no total) de empresários portugueses, que tenta contar a história em termos cronológicos. Desde Henry Burnay, que foi o primeiro até Belmiro de Azevedo. O livro abrange um século de grandes empresários em Portugal. Não estão todos os grandes, mas estes são, de facto, os mais importantes.

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Porque escolheu este título?

O título tem duas razões de ser: por um lado, conta-se a história das fortunas que existem e dos maiores negócios que se efectuaram, desde fábricas até bancos. A segunda é de natureza afectiva, porque este trabalho foi feito no âmbito de uma revista que se chamava ‘Fortunas & Negócios’. Digamos que é quase uma homenagem póstuma à revista, que acabou.

Como lhe nasceu o interesse pela vida de empresários que são também os homens mais ricos do País?

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Comecei no jornalismo económico, no “Semanário” e escrevi quase sempre sobre temas económicos. Ao longo do tempo fui falando com muitos empresários, lendo e pesquisando sobre os empresários portugueses. Uma das pessoas que mais me despertou para este tema foi Maria Filomena Mónica, que escreveu dois livros com empresários e fez investigação sobre as elites empresariais no século XIX. Procurei ouvir pessoas que os conheciam, pesquisei em alguns documentos. Foi um bocado assim que começou este meu interesse, articulado com o facto de fazer a lista dos ‘Bilionários’ desde 1992, o que me deu um volume de informação muito grande.

Conhece muitos ricos?

Só conheço ricos por via profissional: entrevistas que tenha elaborado para revistas, jornais, etc. No meu dia-a-dia não me dou com nenhum rico sequer.

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Que milionários conheceu em trabalho?

Entrevistei Américo Amorim, Fernando Guedes, Ricardo Salgado, Manuel Ricardo Espírito Santo. Já falei pessoalmente com José Manuel de Mello, com Jorge de Mello…

Basta. Estes homens surpreenderam-no muitas vezes?

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Não. Certamente porque quando falei com eles já sabia muito sobre os seus negócios e vidas. De qualquer modo confirmo a ideia de que têm geralmente um certo carisma. Evidenciam algum pormenor que os fez, de facto, serem pessoas diferentes. Sim, isso nota-se. Nota-se, por exemplo, que são pessoas inteligentes, com capacidade de argumentação. Que têm algumas qualidades de liderança. Mas não me surpreendem, porque à partida era isso mesmo que eu esperava deles.

O que distingue os ricos do cidadão comum?

Tratando-se de herdeiros, ou de ‘self made man’, como são empresários que são donos de boas empresas, têm normalmente uma característica comum, que é a intuição para o negócio. Não basta ser um bom gestor para ser um bom empresário. Schumpter dizia que ser empresário é um mistério. Muitas vezes as decisões não são tomadas com base somente em meros critérios de racionalidade. Há sempre alguma coisa que distingue um bom empresário de um mau empresário. É a intuição que os distingue do cidadão comum. O ir contra-corrente, contrariando a racionalidade.

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Existem grandes diferenças entre os herdeiros e os ‘self made man’?

Tirando Belmiro de Azevedo, que é um empresário recente, mas não é um ‘self made man’ na exacta definição do termo – ele tem um MBA – e é uma pessoa muito sólida em termos intelectuais. Do que sabe fala e diz sempre alguma coisa. Eu distinguiria o herdeiro que se tornou empresário, gere negócios e cria riqueza, daquele que é mero accionista de empresas, e que se dedica simplesmente a receber os seus dividendos, não sendo especialmente relevante para a empresa, para além do capital que lá tem aplicado. Não há muitos herdeiros como estes últimos em Portugal. Quanto aos outros, houve uma preocupação de os preparar para assumirem responsabilidades nas empresas que herdaram e quase todos eles têm formação académica e cultural. Os bons empresários herdeiros ou os bons empresários que se fizeram por si (‘self made man’) não têm grandes diferenças. São até muito parecidos. Aliás vê-se quando há negócios em comum, sentam-se a uma mesma mesa e chegam a acordo.

Quem teve a ideia de fazer a lista dos ‘Bilionários’?

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O pai da ideia foi o jornalista Álvaro Mendonça, que é agora director da revista “Economia Pura”. A prestigiada ‘Forbes’ já fazia a sua lista anual e nós sentimos necessidade de fazer a nossa, sobre portugueses. Estávamos na altura a lançar a revista ‘Fortuna’ (que mais tarde passou a ‘Fortunas & Negócios’) e começámos a pegar nas maiores empresas, nos maiores accionistas, e conversar com as pessoas.

Em 1992.

No primeiro ano há-de ter dado uma trabalheira…

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Tivemos uma ajuda importantíssima do Leonardo Ferraz de Carvalho, sobretudo a nível da metodologia, que nos deu pistas sobre como fazer. Na primeira lista tivemos disparates inacreditáveis, tendo recebido vários telefonemas… Entretanto, o Álvaro saiu, penso que juntos ainda fizemos mais uma, mas depois fiquei eu com essa responsabilidade.

Como se faz uma pesquisa tão aprofundada?

Mantendo sempre uma base de dados actualizada ao longo do ano e estando constantemente a fazer perguntas, a entrevistar pessoas, a tentar colher informação para acertar o mais possível.

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Enquanto fez ‘Bilionários’, sentia que conseguia caçar para a lista todos os ricos? Ou há por aí muita fortuna encapotada?

Há algumas fortunas que é complicado “medir”, nomeadamente aquelas que são muito sustentadas no sector imobiliário. Os ‘Bilionários’ eram feitos com base em informação pública e confirmada. Eu posso saber que uma pessoa tem uma conta qualquer num banco estrangeiro de não sei quantos milhões, e há casos, mas se o facto não for confirmado pelo próprio e por mais alguém, nada feito.

É adepto da tributação das grandes fortunas?

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A lista dos ‘Bilionários’ estava relacionada com o património das pessoas. E um grande património pode não ter grande rendibilidade. Acho que deveria haver declarações de património e declarações de rendimentos, que são duas coisas distintas. Era uma forma de o fisco cruzar mais informação.

Conhecendo tão bem as empresas, nunca se sentiu tentado a entrar no mundo dos negócios?

Não. Porque não tenho grande jeito para lidar com aspectos de gestão, de administração de fortunas. As questões do dinheiro quase só me interessam em termos intelectuais. Não seria capaz de gerir o que quer que fosse. Além disso, não é um mundo que me atraia para eu participar activamente nele. Atrai-me, sim, mas como observador externo, que gosta de ouvir as histórias. Definitivamente não sou um homem de negócios.

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É um mundo que obriga ao uso permanente do fato e gravata, às almoçaradas, às permanentes viagens…

É muito mais do que isso. O dia-a-dia dos empresários que criam riqueza (para eles e para o País) é feito a tentar motivar pessoas, convencer clientes, discutir assuntos com bancos. Não é aquilo que o cidadão comum imagina. Se formos ver bem a que horas é que os proprietários, ou os administradores de grandes empresas começam a trabalhar e a que horas deixam de o fazer ficaremos certamente admirados. Claro que têm carros bons, fatos óptimos, almoçam em restaurantes caros. Mas isso é apenas uma parte. Trabalha-se muito, ao contrário do que geralmente se pensa.

Não.

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É adepto de algum outro jogo de sorte/azar?

Não jogo a nada. Entrei duas vezes no Casino Estoril, em trabalho. Entrei sempre pela porta de trás, a da administração. Pertenço àquele grupo de pessoas que nunca gastou um tostão num casino.

Ambiciona tornar-se rico?

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Não, não é uma meta de vida.

Filipe S. Fernandes nasceu em Angola. É licenciado em comunicação social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e tem uma pós-graduação em Comunicação Social, Cultura e Tecnologia pelo ISCTE . É jornalista desde 1985 quando se iniciou no jornal ‘Semanário’. Em 1988, passou a integrar a equipa fundadora da revista de negócios ‘Exame’ e, três anos depois, fez parte do grupo de criadores da revista ‘Fortuna’, hoje ‘Fortunas & Negócios’. Actualmente é editor do ‘Diário Económico’.

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