FRANGO: ENFRENTAR OS MEDOS

As notícias sobre produtos cancerígenos nos frangos deixaram inúmeros portugueses na mesma. Logo no dia a seguir à ‘bomba’ muitos foram ao restaurante e pediram o prato habitual: frango assado. É quase uma tradição: quando há alarme, uns recuam, outros arregaçam as mangas e atacam o problema de frente. “De alguma coisa temos de morrer”, dizem

07 de março de 2003 às 16:10
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Henrique Castanheira gere o ‘Bom Jardim’, em Lisboa, há mais de 20 anos e não sente que a polémica sobre a presença de substâncias cancerígenas no frango, especialidade da sua casa, tenha afectado o negócio. “Para mim não existe qualquer tipo de problema, porque os aviários com quem trabalhamos não foram encerrados, o que só prova que por aqui estamos seguros”.

Conhecedor do meio, Henrique confia no bom trabalho das autoridades sanitárias e afirma: “Hoje até temos mais garantia de qualidade do que há oito dias atrás, porque quem de facto não cumpria as regras tem agora que arcar com as consequências dessa atitude e passar a fazê--lo”. Relativamente ao despoletar da situação, o homem do leme deste restaurante tão famoso entre artistas – está situado perto do Coliseu dos Recreios – revela que, se as pessoas começarem a pensar muito nisso, qualquer dia deixam de comer o que quer que seja. “Agora dizem que o frango faz mal, há algum tempo foi o peixe, antes eram as ‘vacas loucas’ e até já chegámos às alfaces”. O que é que havemos de fazer? – parece pensar para com os seus botões.

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Cliente habitual deste restaurante alfacinha, que visita pelo menos duas vezes por mês para “desenjoar” dos pratos mais consumidos, José Tomé já sabia das novidades veiculadas pela televisão e, ainda assim, não deixou de encomendar frango assado, petisco que tanto aprecia. “Há coisas, como a carne de porco, que fazem pior”. Bem disposto e sem qualquer preocupação quanto à qualidade do prato, remata: “Isto é assim: a mulher pode ser muito feia, mas se eu gosto dela não vou deixar de me deitar ao seu lado por isso. Também toda a gente diz que o tabaco faz mal e toda a gente fuma mais, não é?”

CASA CHEIA

Fevereiro, dia 27, 20H30. Mais um dia de casa cheia no Clube do Frango, em Lisboa, de onde saíram 30 pratos de ‘frango da guia’. “Um dia normal, portanto, com 120 a 130 clientes”, garantiu-nos Alberto Gouveia, co-proprietário deste restaurante e pastelaria, a servir 52 pratos feitos ao momento. As notícias sobre os frangos contaminados com nitrofurano não tinham produzido, portanto, qualquer pânico por parte dos ‘habitué’ deste espaço. Com o ‘know-how’ de 20 anos na restauração, Alberto, de 46 anos, há quatro anos que dirige o ‘Clube’ juntamente com o seu sócio e sobrinho, o jogador de futebol Rui Costa. E diz acreditar nos seus fornecedores, garantindo que até ao momento não houve queixas.

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“Entro aqui às seis horas da madrugada e só quando sair, por volta das 21 horas, é que vou pôr a leitura em dia e amanhã entrar em contacto com as entidades de direito. Hoje, o prato principal de frango continuou a sair. Claro que houve clientes que me falaram da notícia dos 43 aviários sob sequestro pela Direcção-Geral de Veterinária e, inclusive, de que há testes que não são totalmente fidedignos, pelo que de qualquer modo quero saber o que se passa. E, se os meus fornecedores estiverem entre os que estão proibidos de colocar os seus produtos no mercado, suspendo as encomendas”.

“Qualquer que seja a minha opção, o risco é sempre elevado”, sustenta Paulo Lopes, 38 anos, enfermeiro, cliente habitual do Clube do Frango. Com as notícias do dia, este enfermeiro afirma, descontraído, que estas só serviram para que confirmasse a sua “desconfiança” em relação àquilo que come na generalidade. “As notícias não interferiram na selecção daquilo que vou comer hoje: frango. Os meus filhos – de sete e cinco anos – não comeram porque não quiseram. Eu não os impediria.”

Apesar desta postura, Paulo Lopes assegura-se de que tudo o que entra em sua casa tem o mínimo de qualidade. Tem uma loja de referência, tenta sacar a origem dos produtos e assim “reduzir riscos”. Quanto a excluir aquilo de que desconfia, afirma: “É impossível, porque isso seria excluir 90 por cento da minha alimentação diária.”

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Uma postura mais preocupada é a de Guilherme Garcia: “Hoje senti-me intimidado e não comi frango”. Este motorista, de 37 anos, diz que durante algum tempo vai evitar comer frango, como fez aquando dos problemas da BSE. Mas depois “tudo volta ao normal”. Já Sónia Gerardo, 25 anos, é da opinião de que alguma coisa se tem de comer. “Não podemos ser paranóicos, mas já vi que o melhor é dar em vegetariana”. Todavia, acabou por comer frango. “Olhe eu comi vaca louca [sorriso]. Temos de comer alguma coisa, não é!?” questiona Adília Gerardo, de 64 anos.

70 FRANGOS PARA A MESA

A Churrasqueira do Campo Grande, em Lisboa, junto ao Estádio José de Alvalade, ‘despacha’, por dia, uma média de 70 frangos. João Mouro, de 58 anos, encarregado do restaurante, diz não ter sentido qualquer diminuição nos pedidos de frango. Se bem que este já não faz parte do ‘ranking’ de pratos que mais saída têm. “Temos confiança nos fornecedores. De qualquer modo contactei--os logo pela manhã e tranquilizaram-me ao dizerem-me que os frangos deles são de criações de confiança. E mais: disseram que, se eu tivesse algum problema, se responsabilizavam.”

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“Sou perfeitamente inconsciente”, diz Isabel Duarte, 52 anos, gerente comercial e há anos cliente da conhecida churrasqueira. “Viemos aqui comer frango sem me lembrar de todo da notícia. Fui delegada de informação médica e sei que os estudos são muito aprofundados, de altíssima credibilidade. No entanto nem isso serviu para que entrasse em pânico”, remata. Enquanto isso, o marido, Francisco, comia frango ‘desalmadamente’ e, entre uma dentada e outra, dizia: “Eu é que não deixo de comer frango!”

SEM MEDO DO ‘PRONTO-A-COMER’

À hora do jantar, nas filas de espera do Kentucky Fried Chicken (KFC) do Centro Comercial Colombo, existe quem procure saber mais sobre os condimentos de determinado menu, mas ninguém pergunta pela qualidade da carne ou inicia sequer uma conversa sobre o tema que um dia antes preencheu bastante tempo de antena dos telejornais.

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José Fernandes e Eva Almeida, por exemplo, degustam umas suculentas coxas de frango quando são questionados sobre se sabiam do encerramento de 43 aviários portugueses. Eva fica algo apreensiva: “Está a brincar comigo, não está!? Diga lá onde é que estão as câmaras dos apanhados”, brinca, num misto de receio pouco depois ultrapassado por mais uma dentada no petisco. Quando explicada a situação, revela alguma preocupação e responde num misto de à-vontade e resignação: “Eu adoro este frango e, olhe, de alguma coisa havemos de morrer.”

Conscientes da atitude tomada e decididos a continuarem com este tipo de refeição, ambos demonstram que não será um alerta noticioso que os impedirá de jantarem num local por eles visitado entre duas a três vezes por semana. José Fernandes desabafa mesmo que só deixará de comer frango se a situação se agravar. “A partir de aí teremos de pensar em alternativas, mas de momento não nos passa pela cabeça deixar o frango”.

Tranquilo face ao rumo da informação, Luís Torres, gerente daquele KFC, soube da notícia através de outros trabalhadores da rede. “O nosso frango em pedaços é português, enquanto as sanduíches vêm de França. Se houvesse algum problema o nosso departamento de qualidade actuaria de imediato, até porque nunca tivemos qualquer problema”.

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Sem notar qualquer tipo de bloqueio, Luís admite que, se o tema continuar a ser abordado, dentro de algum tempo poderá haver quem opte por outra alimentação. Mas por enquanto não tem notado nada de anormal no movimento da loja. “Tem sido normalíssimo, os clientes não têm feito qualquer tipo de pergunta em relação a isso, e até lhe posso dizer que os pedaços de frango têm um acréscimo de vendas; é o que estamos a vender mais”. Também no restaurante ‘Sr. Frango da Guia’, no mesmo centro comercial, o ambiente era de acalmia, o que permite concluir que se registou a afluência habitual de clientes. “O mesmo não se pode dizer dos restaurantes do Chiado, Saldanha, Guimarães e Gaia que registaram uma quebra na procura, devido, claramente, às notícias sobre a substância encontrada nos frangos de 43 explorações” conta ao ‘Domingo Magazine’ (via telemóvel) Crisfal Joaquim Anjo, administrador do grupo empresarial que explora o ‘Sr. Frango da Guia’. Num universo de 15 restaurantes desta cadeia em todo o País, porém, só em quatro se sentiram os efeitos nocivos da notícia do dia.

RAÇAS E CRUZAMENTOS DE GALINHAS EM PORTUGAL

NOME: Leghorn Branca

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PESO MÉDIO: 1,7kg/ 2kg

ORIGEM: EUA

NOME: Leghorn Castanha

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PESO MÉDIO: 2,7kg/ 3kg

ORIGEM: EUA

NOME: Light Sussex

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PESO MÉDIO: 2,9 kg

ORIGEM: Grã-Bretanha

NOME: Barnevelder

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PESO MÉDIO: 2,8 kg

ORIGEM: Holanda

NOME: Playmouth Rock

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PESO MÉDIO: 3kg/ 3,3kg

ORIGEM: EUA

NOME: Galinha-da-Índia

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PESO MÉDIO: 1kg

ORIGEM: desconhecida

NOME: Bantam preta

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PESO MÉDIO: 600 kg

ORIGEM: Java

ISTO PROVOCA CANCRO

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AGENTES ALIMENTARES E POTENCIALIZADORES DE DOENÇAS*

Amendoins e pistácios

Tal como as sementes oleaginosas, os cereais e os frutos secos, também os amendoins e os pistácios podem conter substâncias cancerígenas, e apenas 0,8 miligramas por quilo bastam para matar.

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As bebidas alcoólicas fragilizam as mucosas do aparelho digestivo, podendo provocar cancro do estômago.

Simples ou alimentos que o contêm, potencializa a ploriferação de células potencialmente cancerígenas.

Óleos alimentares refinados

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Quando utilizados acima da sua tempertura crítica (depende do tipo de óleo e varia entre 120ºC e 230ºC) formam uma substância tóxica chamada acrolina. Utilizada como asfixiante na 1º Grande Guerra.

Se queimada, a parte escura da carne contem tóxidos que podem causar cancro.

Charcutaria com nitratos e nitritos

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Formam nitrosaminas, composto relacionado com o cancro do estômago.

Alimentos guardados e aquecidos em plásticos de cor

O plástico liberta metais nos alimentos em concentrações que se podem tornar nocivas.

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*O engenheiro alimentar Miguel Penaguião explica que a comida é cada vez mais transformada e adianta: "A carne dita saudável também tem químicos, só que estão no limiar daquilo que é aceitável a nível de farmacologia e veterinário. Ou seja, o nível de toxidade é aceitável com os valores indicados pela FDA". Segundo este especialista, a alimentação está associada a um terço de todos os cancros, mas como a doença pode demorar muitos anos a manifestar-se clinicamente, a relação entre causa e efeito é dificil de estabelecer.

RECEITAS: FRANGO COM TODOS

FRANGO COM CERVEJA

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Corta-se o frango aos pedaços, rega-se com uma cerveja pequena, polvilha-se com uma sopa de cebola (pacote) e leva-se ao lume. Pode acompanhar-se com batata frita.

COXAS DE FRANGO

Colocam-se as coxas de frango ordenadamente numa travessa de ir ao forno. Embebe-se as coxas de frango em natas e polvilha-se com uma sopa de cebola.

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CATAPLANA DE FRANGO

Numa cataplana colocam-se peitos de frango, tomate, batatas e cebolas às rodelas, temperados com sal, pimenta e alhos. Rega-se com azeite, conhaque, vinho e junta-se manteiga e pimentos.

FRANGO À MARICAS

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Colocar numa travessa de ir ao forno, um frango com margarina e rega-se com limão.

FRANGO NO FORNO COM ERVAS

Parte-se um frango em pedaços e barra-se com sal, azeite, ervas aromáticas, salsa, coentros e manjericão. Polvilha-se o frango com dentes de alho esmagados e tempera-se com sal, pimenta e molho de soja. Vai ao forno.

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