Imagine que Yoko é autora do sucesso de John Lennon

Numa decisão inesperada (mas tardia), a viúva do ex-Beatle está agora nos créditos da canção.

25 de junho de 2017 às 15:00
Yoko Ono Foto: EPA
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Yoko Ono pode ser uma das mulheres mais odiadas da história do rock – atribuíram ao seu romance com John Lennon o fim dos Beatles e os fãs não lhe perdoam a desfeita –, mas também (já) é dela aquela que é considerada uma das 100 melhores músicas do século XX. A canção ‘Imagine’ – um hino internacional de consolo e esperança ouvido pela primeira vez em 1971 – foi creditada à viúva do cantor, num pedido com 46 anos que só foi agora validado (de forma inesperada) pela National Music Publishers Association.

Foi uma decisão tardia, mas com toada de justiça. Pouco antes de morrer, numa entrevista do casal à BBC, Lennon admitiu ter sido machista ao deixar Yoko fora dos créditos. "[‘Imagine’] deve ser creditada como uma música de Lennon-Ono porque a letra e o seu conceito vieram de Yoko. Mas naquela altura, eu era um pouco mais egoísta, um pouco mais machista, e omiti a sua contribuição", disse ao canal de televisão britânico, sem disfarçar o constrangimento.

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"Se fosse um homem, talvez não tivesse dúvidas de pôr o nome dela, como fiz com a ‘Old Dirt Road’, que é ‘John Lennon-Harry Nilsson’. Mas quando fizemos ‘Imagine’, pus apenas ‘Lennon’ porque, sabe, ela é a esposa e não se põe o nome da esposa, certo?", questionou o músico, que haveria de ser assassinado a 8 de dezembro de 1980, à porta de casa, em Nova Iorque, por um fã psicopata, numa altura em que os ‘quatro de Liverpool’ já estavam separados.

A música, que se tornaria marca registada de Lennon – e seria o single mais vendido da sua carreira a solo –, terá tido como base o livro de poesia ‘Ono Grapefruit’, de Yoko Ono, que inclui uma série de desafios similares aos do hino pela paz, embora (ligeiramente) mais enigmáticos, como: "Imagine a neve a cair / Imagine a neve a cair em todo o lado." A gravação da música começou no estúdio da casa onde Lennon residia, no Tittenhurst Park, em Inglaterra, em maio de 1971, e a edição final aconteceu no Record Plant em Nova Iorque, no mês de julho. Um mês após o lançamento do LP em setembro, Lennon lançou ‘Imagine’ como single nos EUA e a canção alcançou a terceira posição da Billboard Hot 100 – as 100 músicas mais tocadas –, enquanto o LP alcançou o primeiro lugar no Reino Unido em novembro. A canção vendeu mais de 1,6 milhões de cópias no Reino Unido e alcançou o primeiro lugar após a morte de John Lennon.

E se é pouco provável que graças a isto Ono tenha qualquer ganho pessoal num futuro imediato – uma vez que já é a herdeira do património de Lennon –, a decisão agora tomada representa grandes mudanças nos direitos de autor: uma canção passa a ser do domínio público 70 anos depois da morte do seu último compositor. Agora, esses direitos foram prolongados por um mínimo de 37 anos, pelo que ‘Imagine’ fica na posse da família pelo menos até 2087.

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Yoko Ono, agora com 84 anos, pode celebrar. Ela que conheceu Lennon na década de 60 – ele viria a divorciar-se da primeira mulher – e sem a qual o britânico garantia não conseguir viver. "Mesmo quando estou a ver televisão, há um buraco onde tu deverias estar", dizia-lhe.

ACUSADA DE INVADIR 'ESPAÇO SAGRADO'

Lennon e Yoko conheceram-se em 1966, numa exposição da artista, e casaram três anos depois em Gibraltar. No ano seguinte, os Beatles separaram-se e a interferência da japonesa na banda fez com que a culpa pelo fim do grupo lhe fosse atribuída. Consta que pediu que colocassem uma cama de casal no estúdio de gravações e um microfone sobre a sua cabeça para que pudesse dar palpites na produção dos discos. Tiveram um filho, Sean.

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