Jogo de elite que dispensa a sorte
O pai deixou a Artur Santos Silva, fundador do BPI, o gosto pelo bridge. A modalidade elitista está em declínio. Durante décadas os clubes olharam com reserva para quem não tinha berço. Agora, a sobrevivência depende de sangue novo na mesa com quatro lugares
A maior das broncas ocorreu em 1965, quando a dupla inglesa Boris Schapiro e Terence Reese foi apanhada a fazer batota quando disputava o mundial em Buenos Aires. Os dois jogadores sinalizavam com os dedos, pelo modo como seguravam as cartas, quantas copas tinham. Uma vantagem que o jogador de bridge reconhece como esmagadora. Dez anos depois, a história repetiu-se com a dupla italiana Facchini/Zucchelli. Os parceiros comunicavam com movimentos de pés. Por estas e por outras é que nas grandes competições internacionais, ou nas finais dos campeonatos de cada país, se passou a colocar um biombo ('cortinas') entre os parceiros, a fim de evitar transmissão ilícita de informação. E até a transmissão oral passou a ser substituída por caixas com cartolinas (‘bidding boxes’) com as ofertas de leilão dos jogadores.
E se se fala de transmissão ilícita é porque no bridge há transmissão lícita. Os dois parceiros podem comunicar através de convenções, informando, por exemplo, o número de cartas par ou ímpar, ou interesse em que o parceiro continue ou não no naipe que está a ser jogado. Só que, como regra de conduta ética, a dupla adversária tem o direito de ser posta ao corrente dessa sinalização, de modo a que todos possam partilhar das mesmas informações.
Em Portugal haverá uma vintena de clubes de bridge activos e outros tantos em letargia. Estimam-se em cerca de três mil o total de praticantes, 600 deles federados. A modalidade – trata-se na realidade de um desporto e não de um jogo, constando, de resto, de inscrição olímpica – está em crise. Nos últimos anos assistiu-se a um declínio evidente que, no entanto, dá indícios de recuperação no Norte. E alguma quota de mérito cabe ao Clube de Bridge do Porto (CBP), a funcionar na rua de Sá da Bandeira.
'O clube foi fundado nos anos 60, como alternativa ao Ateneu Comercial do Porto e ao Clube Portuense onde não eram admitidas mulheres', conta o actual presidente da direcção, Paulo Sarmento. Aos 31 anos, é um dos mais jovens dirigentes de sempre do clube. Aliás, ele próprio reconhece que o bridge precisa de novos jogadores e, sobretudo, de jogadores novos. Assume que para o declínio da modalidade contribuiu o elitismo da burguesia portuense que constituía a generalidade dos praticantes. 'A entrada de novos jogadores era vista com desconfiança, caso não tivessem nome de família ou não fossem recomendados por sócios de confiança. Se esse conservadorismo não cedesse aos novos tempos, o bridge estaria condenado a morrer', afirma Paulo Sarmento.
'A internet afastou os praticantes dos clubes. Os mais jovens, sobretudo, preferem jogar na comodidade do seu lar, tendo diante de si milhares de jogadores e de desafios', diz, por seu turno, Luís Alberto Ribeiro, da Associação Regional de Bridge do Norte (ARBN), no final de mais uma jornada nortenha a contar para a Taça de Portugal e que decorre todas as noites de segunda-feira no CBP.
É segunda-feira. Passeamo-nos por entre as mesas, respeitando a concentração dos jogadores. À medida que a prova vai avançando, os dedos tensos que seguram as cartas parecem mais distendidos, já se trocam, ainda que de modo contido, alguns sorrisos, suspiros, desabafos. O relaxamento é inimigo competitivo e só é permitido no final, altura em que se comentam as incidências do jogo, entre explicações e justificações.
O bridge é um jogo de subtilezas. Depois de aprendidas as regras, nunca mais se deixa de se crescer como jogador. O CBP também organiza cursos. As associações apoiam os custos, que nos jovens rondam os 50 euros e nos adultos um pouco mais do dobro. Ao fim de três meses, com aulas semanais, e com prática constante, pode preparar-se minimamente um jogador para competir.
No bridge ganham sempre os melhores, vai explicando Paulo Sarmento: 'Sorte zero, já que, não existindo carteamento, cada equipa vai jogar com as mesmas cartas que foram já distribuídas em outras mesas'.
Os melhores jogadores são 'os que estudam mais, têm mais capacidade de concentração e interpretação e talento', confessa José Azevedo Campos, do alto dos seus 80 anos e quase dois metros de altura. Sócio número 1 do CBP, de que foi fundador, confessa nunca ter sido um jogador de topo. 'Jogo desde os 15 ou 16 anos, fui sempre um grande entusiasta, mas nunca cheguei a níveis de excelência. Enfim, não podemos lá chegar todos, pois não?!'
A prova já começou há cerca de uma hora e em algumas mesas parecem estar a viver-se momentos decisivos. As equipas são constituídas por seis jogadores, sendo que apenas quatro disputam a prova. Os dois que não entram esta noite poderão integrar a equipa na próxima jornada. A personalidade dos jogadores está estampada na sua atitude: da ousadia à impaciência, ou leve irritação. Um corpo mais inclinado para a frente pode sinalizar uma postura mais agressiva ou preocupada, um reclinar para trás corresponderá a um sentimento de segurança.
Bem vistas as coisas, entre estas cerca de quatro dezenas de participantes estão homens habituados a decisões diárias de grande responsabilidade. São gestores e quadros superiores de empresas, homens de negócios, banqueiros. Como Artur Santos Silva, fundador do grupo BPI e presidente da COTEC, entidade que promove a inovação empresarial, de olhos fixos na mesa onde vão caindo as cartas, interpretando mensagens que vão bem para lá do significado dos naipes e algarismos óbvios.
'Jogo desde jovem, já o meu pai gostava deste jogo', diz o banqueiro, já no final da jornada que lhe foi proveitosa. 'Integro uma boa equipa, o desafio maior do bridge é a marcação', insiste, referindo-se à sinalização de jogo ao parceiro de mesa que também tem de ser do conhecimento dos adversários. Um dos elementos da sua equipa é Rui Pinto, que Artur Santos Silva garante ser o melhor jogador nacional. Este engenheiro de 67 anos, com uma vida profissional ligada ao ramo das madeiras, admite que tem uma carreira premiada e reconhecida nacional e internacionalmente, mas devolve muitas dessas responsabilidades a um seu jogador predilecto: Juliano Barbosa, director-geral da Unibetão.
Um dos momentos mais esperançosos para o desenvolvimento do bridge terá ocorrido em 1993, quando se deu início a um projecto nas escolas que o levou, em 1996, a ser reconhecido como modalidade integrante do desporto escolar. Mas a verdade é que, ao contrário do xadrez, que pacificamente se aceita como um jogo de desenvolvimento intelectual, o bridge continua sob o carimbo de jogo de cartas, e de toda a carga pejorativa que esta arrasta, levando os encarregados de educação a olhar com desconfiança a iniciativa. O projecto esmoreceu e definhou. 'Na Holanda os jovens são muito incentivados a aprender bridge, o que faz com que o pais se tenha tornado um dos mais competitivos', afirma o dirigente da associação nortenha, Luís Álvares Ribeiro. Já quanto às grandes tradições de bridge, Paulo Sarmento sublinha que as escolas americana e francesa são as mais consistentes, sendo que a italiana, considerada imbatível até há uns anos, quando venceram 13 mundiais, 10 deles consecutivos, é praticamente 'secreta', pois eles não revelam muito sobre o seu modo de jogar, ao contrário dos rivais que escrevem dezenas de livros e tratados sobre o jogo.
Mas, se não somos os melhores na modalidade, seremos dos melhores em organizar competições. Os mundiais de 2005, no Estoril, que trouxeram até nós milhares de praticantes, foram considerados os melhores de sempre. |
QUATRO JOGADORESE SENTADOS À MESA COM 52 CARTAS DO BARALHO
A história do bridge data do começo do séc. XVI, quando foi criado o ‘whist’, o seu antepassado. Quatro jogadores à mesa jogam em duplas, usando as 52 cartas do baralho, sendo por objectivo ganhar o maior número de vazas. O jogo começa com um leilão, onde se oferece um número específico de vazas e o naipe que o jogador deseja jogar. Cada jogador passa ou faz uma declaração, que deve ser maior que a anterior. O acordo entre os jogadores é designado de contrato. O objectivo do bridge é fazer pontos.
Ao que tudo indica, terá sido na Turquia que o whist evoluiu para o bridge, no início do séc. XIX. A origem do nome poderá estar relacionada com o título atribuído ao vice-rei turco durante a ocupação do Egipto, ou então ficar a dever-se ao nome de uma ponte – Galata Bridge – que ligava as duas partes de Istambul e que era utilizada diariamente pelos soldados para se dirigirem a um café onde jogavam cartas.
A Federação Internacional (WBF) foi criada em 1958 e em 2000 integrava 113 federações com 1,5 milhões de filiados. Os principais eventos são as Olimpíadas de Bridge, os campeonatos do Mundo Open (Bermuda Bowl), feminino (Venice Cup), seniores e juniores.
Em Portugal, a Federação iniciou a sua actividade oficiosa em 1960, sendo que o registo do primeiro encontro de equipas data de 1947.
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