Jorge Jesus: Quem fala assim não é gago
Tem 62 anos e é sócio desde os 13 do clube que agora treina. Ganha seis milhões por época. ‘Piners’, como diz à sua moda
Orgulhoso e com tiques absolutistas. Simpático e generoso. O ar inquebrável que aparenta parte-se em milhões de pedaços com uma criança. A frase é bem capaz de parecer pirosa, mas é tão verdade como o leitor nos ler, agora. A personalidade do Jesus da bíblia futebolística não é apenas o que vemos e não é canja. Teimosia, ui, desabafa um amigo, não lhe falta: "Na semana passada li, na ‘Domingo’, que ‘o ministro da Defesa era teimoso como uma porta’. Eu digo-lhe uma coisa: mais teimoso do que o Jorge Jesus é impossível". Essa porta já o fez entalar os dedos. E curvar as rótulas nas Antas. Tudo bem. O nível da fé que deposita em si mesmo mostra-se infindável, e surpreendentemente elevado.
A relação com o presidente leonino nem sempre rima com as mãos que deram quando subiram ao relvado para apresentar a nova equipa. Basta estar atento nos jogos, adverte um membro da antiga direcção do Sporting, para perceber que Jorge Jesus não passa cavaco ao presidente. Ambos querem ser protagonistas, embora, prossegue a mesma fonte, Bruno Carvalho seja mil vezes mais civilizado nos dias em que os resultados andam pela hora da morte.
Esta época os árbitros não lhe têm perdoado e foi expulso do banco de suplentes por duas vezes em cinco jogos do clube leonino. Frente ao FC Porto e ao Real Madrid, o português acabou a ver o jogo junto dos adeptos. E ninguém o pode mandar embora.
Jorge Jesus, nascido na reserva de 1954, prefere chá ao vinho, o peixe à carne e cartas não as escreve; com elas joga à sueca. Tem três filhos, dois netos, e o que menos terá importância: um apartamento T4 de luxo no Atlântico Estoril Residence.
Também tem um par de maxilares fortíssimos que suportam pastilhas elásticas. Rugas já teve mais. Em tempos recentes, as pregas no rosto foram embora através de um tratamento específico. Não está, como se diz nos cafés, nas ‘tintas’ para a aparência. No cabelo as verdadeiras tintas acabaram. O dourado desapareceu. Ficou o cinzento e o branco, como Deus dita, ao cuidado de Tânia Ferreira, a proprietária de um cabeleireiro em Campo de Ourique, Lisboa.
Jorge Jesus, o treinador do desporto onde as mãos ficam de fora, faz manicura. Unhas rentes e alinhadas, de cor transparente. O dinheiro em excesso pode impedir a simpatia e subir à moleira. Aos olhos da técnica, esse mal nunca chegou ao seu cliente de longa data: "Continua muito simpático e muito humilde." Em relação à humildade, um ponto e vírgula vindo de Manuel José: "Joguei com Jorge Jesus no Clube de Futebol Estrela da Amadora e, depois, ele foi meu treinador no Amora Futebol Clube. É uma pessoa especial. Exigente. Ninguém gosta de perder, mas, como ele, nunca vi. Devemos saber perder e saber ganhar. Ele devia ser mais humilde."
‘Nelo’, como assim é conhecido no clube Amora, refere-se à frase dita ao estilo autoritário na antevisão ao jogo em Vila do Conde, entre o Sporting e o Rio Ave: "Não tenho o melhor plantel, tenho é uma equipa trabalhada por mim e se está trabalhada por mim tem de ser a melhor, a diferença está no treinador"– Pimba; três secos na baliza de Rui Patrício, ao intervalo. O comando do Sporting no campeonato descia para segundo. Carlos Barbosa diria, depois, que Jorge Jesus devia deixar de ser a prima-dona. O antigo vice-presidente do clube leonino considera que o mais importante são os jogadores e não o técnico.
Nesse tempo já dizia "portanto" e o que interessava não assentava na forma como as palavras saem pela boca, mas a táctica que sai da sua cabeça. "Jorge Jesus, como jogador, não foi um craque, mas como treinador é muito bom. Poucos vivem o futebol como ele vive: intensamente". Mais nos diz ‘Nelo’: "Jorge Jesus não é o que as pessoas pensam dele." E o que é que as pessoas pensam do actual treinador de Alvalade? "Pensam que ele é burro, mas ele não é. Jorge Jesus é muito inteligente."
Joaquim Rebelo, uma das grandes referências do Amadora, recebeu treino de Jorge Jesus e, no início de 2000, incorporou a equipa técnica quando Jesus passou a comandar o plantel do Vitória de Setúbal. Lembranças, todas boas, até "o feitio especial" e a "exigência". No balneário as falas distanciam-se de serem mansas. Haveria de ser assim nos outros clubes. Consta, inclusive, que nos olhos de dois ou três jogadores, as lágrimas sondaram as suas caras.
A custo, ao telefone, consegue-se tirar um conjunto de palavras ao professor Manuel Sérgio: "Jorge Jesus sabe muito de futebol. É um tipo genuíno. Através da prática que é a sua especialidade faz uma grande leitura de jogo."
HERANÇA PATERNA
Um antigo vizinho do bairro da Falagueira, Amadora, presenciou: "Jorge Jesus era um rapaz muito agarrado à família, pai e mãe, Dona Elisa, já falecida, e aos irmãos Carlos e José." Casou a primeira vez, ainda novo, teve um filho, Gonçalo, e uma filha, Patrícia. A paixão de juventude terminaria na separação. Jorge Jesus voltou a dizer o sim, com Ivone, e dessa união nasceu Mauro. A ida para o Benfica provocaria azia a um rol de amigos e familiares. À excepção da cunhada que é benfiquista, e da ex-mulher, Isabel Silvestre, o verde circula em abundância nas veias de tantos na Amadora. Fonte directa ironiza: "Tivemos de engolir sapos."
Jorge Jesus assinava, em 2015, pelo clube de coração do seu pai. E do seu preciso coração. Jorge Jesus é sócio desde os seus 13 anos, e o seu número de cartão é o 3289. Antes da assinatura, a sua viagem passou por várias paragens: Amora, Felgueiras, Setúbal, Guimarães, União de Leiria, Belenenses, Braga. E o Benfica. O ex-director de Comunicação do Benfica, nesse Junho de 2015, resumiu a troca da Luz por Alvalade com duas bombas: "ego" e "conta bancária". Se 2013 foi uma época de terríveis perdas, a transferência de Jorge Fernando Pinheiro de Jesus para o rival Sporting acabou por ser encarada, por alguns, como uma ingratidão. Um histórico sportinguista assegura: "Essa história está mal contada. Não queriam o homem. Não queriam que ele fosse para outro clube. E toca de o tentarem vender para as arábias."
Bruno de Carvalho conseguiu o "óbvio", avança um antigo guarda-redes. O provérbio ‘um bom filho à casa torna’ traduz o que é, então, evidente. Mas a evidência será vivida em tribunal. O julgamento que confronta o Benfica a Jorge Jesus terá início a 5 de Janeiro de 2017. O Benfica exige-lhe uma indemnização de 14 milhões de euros por incumprimento de contrato. Jorge Jesus é célebre por ter uma língua tanto afiada como desafinada. É bom em gafes. Uma das últimas foi depois do jogo com o Real Madrid. No seguimento de uma pergunta colocada por um jornalista espanhol, a situação acabaria por ser suavizada pelo treinador: "Até já falo espanhol e tudo." Não falava, e as redes sociais reagiram ao "portuñol". Oitenta e oito minutos pronunciados com se de uma eternidade se tratasse.
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