Luiz Pacheco: o esplendor da escrita libertina

Provocador e iconoclasta, descreveu a depravação como se fosse uma arte.

17 de fevereiro de 2019 às 13:00
Luiz Pacheco Foto: Bruno Colaço
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Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (1925-2008) foi o melhor aluno do seu ano no liceu Camões e entrou para a Faculdade de Letras com isenção de propinas. Dificuldades económicas obrigaram-no a abandonar a universidade. O seu primeiro emprego foi como fiscal da Inspeção de Espetáculos.

Mas a sua vocação era a escrita e logo em 1950 fundou a editora Contraponto, que viria a publicar escritores como Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Herberto Helder, Mário Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa e Natália Correia, além dos seus próprios livros, de forte pendor autobiográfico. Cultivou desde cedo "a personagem do vadio e do pedinte, de libertino, de libertário, de iconoclasta", como lhe chamou o editor Vítor Silva Tavares, criando um estilo que batizou de ‘neoabjecionismo’.

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Passou por períodos de grandes dificuldades, pedindo esmola para sustentar os filhos (oito, de três mulheres adolescentes). No ‘Diário Remendado 1971-1975’ reproduz uma carta bajuladora enviada em 1973 a um industrial, acrescentando uma nota explicativa: "Esta carta rendeu 2 contos (10 euros)."

Além de publicar os seus textos, com destaque para ‘A Comunidade’ e ‘O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor’, tornou-se também um crítico literário temido e um polemista feroz. Nos anos 80 aderiu ao PCP porque gostou de ver o funeral de Ary dos Santos com a bandeira no caixão. Em 2008, quando morreu, também teve direito à bandeira vermelha.

Do livro ‘O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor’, Edições Colibri

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"Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!

(…) passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou.

(...) Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. (…) vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultado dão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: ‘Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada’, outro, assim: ‘Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom’, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa (...).

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A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha (...). A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. (…) Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: ‘Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...’ O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!"

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