Maddie: A desinvestigação da polícia inglesa
Tive esperança de que os meios dos britânicos ajudassem na investigação, mas a intenção foi sempre a de ilibar os McCann.
Comecei a desacreditar quando ouvi as primeiras notícias sobre este caso, num programa de televisão da BBC, ‘Crimewatch’, mas vi o programa para saber, afinal, o que havia acontecido a Maddie McCann? Infelizmente, não houve resposta. Assistimos apenas a um programa de televisão travestido de investigação policial.
A polícia inglesa cometeu vários erros graves. O primeiro foi aquilo a que chamaram "reconstituição". A reconstituição de um crime tem de ser feita no local onde o mesmo ocorreu e, se possível, na presença de todos os intervenientes. E tinha sido fácil para os ingleses efetuarem essa diligência, bastava trazer a Portugal todo o grupo de cidadãos ingleses que havia estado no Ocean Club.
Uma das dúvidas que persiste é entender a razão de a polícia inglesa insistir em repetir diligências feitas pela PJ e nunca terem tentado efetuar a única que a PJ não fez, a reconstituição.
Mas sejamos sérios; não foi a Scotland Yard que fez aquela reconstituição, mas sim a BBC. Como era possível perceberem onde os McCann e amigos estavam sentados a jantar? Será que de esse local se via a janela do apartamento onde Maddie dormia? Qual o caminho que os McCann e amigos faziam, quando iam ver as crianças? Que tempo demoravam? Aquela reconstituição não podia responder a nenhuma destas perguntas. Mas será que a resposta a estas questões tem alguma importância para os ingleses? Penso que não. Hoje tenho a certeza de que o objetivo não é saber o que aconteceu a Maddie, mas sim afastar eventuais suspeitas dos McCann.
Embuste
A título de exemplo, para a reconstituição contrataram-se atores, sendo um deles Mark Sloan, um conhecido ator porno. A situação vale o que vale, mas quando conhecida foi objeto de críticas da associação Mothers Against Murder and Agression, bem como do deputado trabalhista John Mann.
Num momento de grande impacto televisivo, às 00h00 em ponto, e para todo o mundo, apresentaram vários retratos-
-robôs, como se estes tivessem sido elaborados no decurso daquela investigação. Um embuste. Centremo-nos nos dois únicos que tinham alguma viabilidade de levar ao reconhecimento de alguém.
O primeiro, elaborado pela PJ, era o retrato de um homem com uma criança ao colo. Assim, aos elementos da PJ, um casal irlandês afirmou ter visto um homem naquela noite com uma criança de pijama ao colo. Não conseguiram, no entanto, dar expressão ao rosto do homem. Mais tarde, no dia em que os McCann regressaram a Inglaterra, o mesmo casal telefonou para a PJ a afirmar que o homem que haviam visto naquela noite era Gerry McCann. Tiveram a certeza quando o viram sair do avião com um dos filhos ao colo.
Existia apenas um problema para a PJ. À hora a que o casal irlandês afirmou ter visto Gerry McCann com a criança ao colo, ele tinha seis testemunhas a colocarem-no a jantar no Ocean Club. Este facto descredibilizou o reconhecimento. Mas o que a polícia inglesa fez foi agarrar naquele ‘boneco’, dar-lhe outras feições, para matar toda e qualquer suspeita. Por essa razão, o retrato-robô apresentado pelas autoridades inglesas de um homem com uma criança ao colo é um embuste, não foi visto por ninguém, visa apenas eliminar qualquer suspeita sobre o pai de Maddie.
O outro retrato-robô, o de um homem com um bigode grisalho, também não foi feito pela polícia inglesa, mas sim pelos detetives da agência Oakley, a quem os McCann encomendaram uma investigação.
E a primeira parte da investigação da polícia inglesa resumiu-se a isto: a reconstituição dos factos feita pela BBC, o desvirtuamento de um retrato-robô feito pela PJ e o aproveitamento de um outro retrato-robô feito por detetives privados, os quais nunca o quiseram divulgar. Uma mão-cheia de nada.
De início, a polícia inglesa começou por nos dizer que Maddie havia sido raptada por um predador sexual, mas que estava viva e rapidamente seria localizada. Cruzaram registos telefónicos, registos de pedófilos e demais informações e identificaram quatro suspeitos. O primeiro, o inglês Raymond Hewlett, havia de facto vivido no Algarve, mas havia falecido há algum tempo na Alemanha, vítima de cancro. De seguida, surgiu um suíço, Urs Hans Von Aesch, que residia na vizinha Espanha, em Alicante. Mas também ele estava morto, uma vez que se havia suicidado no seu país natal. Surge um novo suspeito, David Reid, pedófilo britânico condenado, que depois de cumprir pena no Reino Unido veio viver para o Algarve. Mas a sina manteve-se, também ele havia falecido vítima de cancro. Por fim, surgiu um suspeito português, Euclides Monteiro, o qual, imagine-se, tinha falecido há já quatro anos.
Nunca se percebeu o porquê destas suspeitas. Se eram fortes, não se esfumavam com a sua morte, o facto não invalidava que tivessem sido eles os autores do crime. No entanto, para a polícia inglesa, morto o suspeito, morre a suspeita.
Uma questão de fé
Depois desta mortandade, mudaram a estratégia. Afinal não eram só os suspeitos que estavam mortos. A polícia inglesa passou a não ter nenhuma dúvida de que também Maddie estava morta. Maddie afinal havia sido vítima de um rapto, tendo sido morta de seguida e enterrada num terreno baldio perto do Ocean Club. O que os levou a esta nova teoria é um mistério, tão grande como o desaparecimento da pequena Maddie. A mesma certeza que tinham em como ela estava viva é exatamente a que têm hoje em como ela está morta. Tudo se resume a uma questão de fé.
Quanto ao móbil do rapto, existem duas hipóteses; uma, foi um pedófilo que entrou em casa para abusar da menor e, como ela acordou, raptou-a e matou-a; a segunda, a de um ladrão que entrou no apartamento e como a menor acordou, raptou-a e matou-a.
A primeira dúvida quanto a estas teorias radica num pormenor, quiçá sem importância, mas que urge colocar; se houve um rapto, o autor teve de entrar no apartamento. Primeira questão: como é que ele entrou? É que segundo os McCann e amigos, a porta de entrada do apartamento estava fechada e todos eles, sempre que iam ao apartamento ver os menores, abriam-na para entrar e fechavam-na quando saíam. Essa porta não tinha nenhum sinal de arrombamento. A janela do apartamento, que dava para o restaurante onde jantavam, tinha sinais de ter sido forçada, mas do lado de dentro do apartamento, o que torna a coisa mais complicada, pois não era crível que alguém entrasse pela porta para sair com uma criança ao colo pela janela, a qual estava virada para o local onde os seus pais jantavam. Assim, ou os McCann e os amigos estão a mentir e deixaram a porta aberta ou então o raptor tem poderes sobrenaturais. Isto conduz-nos a um impasse; enquanto a polícia inglesa não souber dizer-nos como entrou ou entraram os raptores no apartamento, como podem afirmar de forma tão perentória que existiu um rapto?
Para complicar a situação, o raptor teria de estar às escuras, pois se acendesse a luz seria imediatamente detetado pelos McCann e amigos, que afirmam que tinham contacto visual
com o apartamento. Depois, naquela situação, nenhum criminoso levaria a menor, pois mesmo que ela acordasse e começasse a chorar, as probabilidades de ela o reconhecer eram nulas, a não ser que ele fosse bem conhecido dela. Além disso, a possibilidade de fugir com êxito era muito maior se fugisse sozinho. Levar a menor era um empecilho, retardava a fuga, era um risco acrescido.
Buscas inúteis
Mas mais estranho é ainda a ideia da polícia inglesa de a criança ter sido morta imediatamente pelo raptor e enterrada logo num dos terrenos descampados que ali existiam. Estou em crer que só chegaram a esta conclusão porque, à falta de uma fotografia do tal satélite espião em que acreditei, recorreram a essa poderosa ferramenta de investigação criminal que é o Google Maps. Se algum deles tivesse ido ao local não cometeriam esse erro. É que aquele terreno é rochoso e ninguém conseguiria abrir um buraco para esconder um cadáver, ainda mais sem ferramentas. Claro que quando iniciaram as diligências no terreno, mesmo com toda a maquinaria trazida de Inglaterra, nada encontraram, além de umas ossadas de pequenos animais e mesmo essas à superfície e constataram que abrir um buraco naquele local não era tarefa fácil.
Depois voltaram a trazer os cães-pisteiros de Inglaterra. Não os mesmos que cá tinham estado e que descobriram odor a cadáver no apartamento, nas roupas, nos bonecos e na viatura utilizados pelos McCann. Acredito que esses dois cães, passados sete anos, ou já morreram ou estão presos ou foram despedidos da polícia, devido ao trabalho em Portugal.
Trouxeram dois outros cães, mas mesmo passados sete anos não quiseram correr riscos, assim ou os dois cães não tinham olfato ou então eram pisteiros, mas de produtos estupefacientes e não de cadáveres, porque não encontraram nenhum odor a cadáver, mas sim dois pés de canábis, apreensão imediatamente anunciada de tão importante que era.
De seguida, realizaram a procura do cadáver da menor nos esgotos. Procurar o cadáver de uma menina de cinco anos nuns esgotos sete anos depois é inexplicável. Basta pensar no tempo de decomposição de um cadáver e naquelas condições de tempo e local. Lembremo-nos do último inverno e das chuvas que assolaram o Algarve. A força das águas era tal que ou o cadáver ia à frente de tudo o que lá estivesse ou não havia tampa de esgotos que ficasse no sítio. Aquela procura com câmaras de filmar é anedótica.
Por último, os novos suspeitos e os seus interrogatórios. A polícia inglesa constituiu três arguidos, três pessoas que no seu entender são suspeitas de algo, eventualmente do rapto. Mas existe alguma prova ou indício a ligá-los a um eventual crime? Aparentemente não. Mas regozijemo-nos. Em primeiro lugar, porque estes três suspeitos, ao contrário dos outros quatro, estão vivos e de boa saúde. Estes três indivíduos são suspeitos porque são suspeitos. Esse é o seu maior crime; o de serem suspeitos de serem suspeitos. Um deles, à data dos factos tinha 16 anos, e o maior crime é estar naquele dia na zona onde os factos ocorreram e ter falado ao telemóvel com os outros dois suspeitos.
Agora querem voltar a Portugal, para inquirir mais pessoas e interrogar novos suspeitos. Isto quer dizer que, afinal, tudo o que fizeram até aqui não valeu de nada.
A questão que se coloca é: quando é que os ingleses irão parar com tudo isto, que se não fosse um grave atentado à nossa soberania até seria divertido? Este é o único ponto onde não tenho nenhuma dúvida. Os ingleses vão parar no dia em que as autoridades portuguesas disserem basta. Mas nesse dia a polícia inglesa vai dizer que não descobriu o que aconteceu, porque as autoridades portuguesas não deixaram. Disto não tenho dúvidas nenhumas, e desta vez não estou a brincar.
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