Maria Filomena Mónica: “Espero que se indignem”
‘Os Pobres’ é uma espécie de raio-x à pobreza em Portugal. A que passou – a dos analfabetos e descalços – e a atual.
No início do prefácio, confessa-se a quem se atrever neste livro que se intitula simplesmente ‘Os Pobres’ ( Esfera dos Livros). Não é um livro de ficção. Escreveu Maria Filomena Mónica: "Nunca passei fome. Os meus filhos nunca passaram fome. Os meus netos nunca passaram fome. Mas, em Portugal, ainda há pessoas que sofrem por não terem o que comer. São elas que me levaram a escrever este livro."
Conta também que a vontade de escrever este livro parte do reencontro com o seu diário de adolescente, em que escreveu "quando vou aos pobres, tenho vergonha de ser rica". Ainda sente isso?
Porque é que hoje em dia não se chama pobre ao pobre e prefere-se palavras como ‘excluído’?
O que é um pobre hoje em dia?
Já não estamos em 1932, quando no ‘DN’ se escrevia – como cita no livro – "os cemitérios em Portugal devoram crianças com uma avidez pantagruélica".
E os mais pobres quem são? Os sem-abrigo?
A pobreza deixou de ser uma herança?
E é a escola o fator fundamental para uma sociedade mais justa?
São ainda as mulheres os pobres entre os pobres, como escreve no livro?
"O subsídio sem o trabalho compensador desmoraliza indivíduos, torna-os indolentes e comodistas, completamente inúteis à vida em sociedade. O subsídio a troco do trabalho, pelo contrário, não desabitua os homens da sua função dentro da vida e enriquece o país com o acabamento e a iniciação de obras públicas que são de utilidade para todos." Não acha que há quem se reveja nesta frase de António Oliveira Salazar, em entrevista de 1933 a António Ferro, que cita no livro?
Existe uma espécie de raiva crescente entre os que têm e os que nada têm?
De quem são os pobres?
Discute-se o problema da sustentabilidade do Estado...
No espectro político, a direita e a esquerda ainda disputam os pobres?
Hoje em dia, a mobilidade social no sentido ascendente – a de os filhos serem melhores do que os pais – já não é exatamente assim.
Estamos a criar pobres instruídos e com horizontes?
O seu livro acaba por ser uma espécie de biografia sua e do seu trabalho. Foi propositadamente ou isto que estou a dizer está errado?
Sempre foi assim ou é especialmente agora, com a doença?
A pobreza estava mais presente na sua vida quando era jovem do que agora?
E, no entanto, estaremos mais egoístas?
Conta que deu esmola, a primeira em muito tempo, em 2014. O que a levou a não ter dado até então?
Escrever este livro, nesta fase da sua vida, ajudou-a?
O que espera que o leitor retire de um livro que se intitula ‘Os Pobres’?
UM BILHETE DE IDENTIDADE
Nasceu em Lisboa em 1943. Licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa (1969) e doutorada em Sociologia pela Universidade de Oxford (1978), é investigadora emérita do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Fez séries para TV e assinou artigos na imprensa. É cronista no CM. Entre outros livros, publicou ‘Educação e Sociedade no Portugal de Salazar’, ‘Eça de Queirós’, ‘Dicionário Biográfico Parlamentar, 1834/1910’ (org.), ‘Bilhete de Identidade’, ‘Os Dabney: Uma Família Americana nos Açores’ (org.), ‘A Sala de Aula’ e ‘A Minha Europa’, este em 2015.
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