Melhor ser rainha por um dia...

Denise Garrido viveu o sonho de criança ao ser eleita Miss Universo Canadá. Mas depois disseram-lhe que era engano.

09 de junho de 2013 às 15:00
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A lusodescendente Denise Garrido nem teve direito a uma réplica da coroa que foi forçada a devolver, curtas 24 horas após ser anunciada como a vencedora do Miss Universo Canadá. A organização do concurso de beleza permitiu-lhe apenas ficar com cópias da sessão fotográfica que teve lugar no que deveria ter sido o primeiro dia do ‘reinado' que representava o sonho da menina que aos seis anos já via os desfiles de mulheres bonitas na televisão da casa dos pais, em Bradford, a cerca de 60 quilómetros de Toronto.

Depois do sábado de sonho vivido a 25 de maio, quando começou por ficar entre as cinco melhores da noite, e depois ouviu chamar o seu nome - e não o da segunda classificada, Riza Santos, nascida nas Filipinas -, Denise dedicara o domingo a entrevistas e fotografias. Tudo tão dentro da normalidade que a morena, de 26 anos, com dupla nacionalidade canadiana e portuguesa, presumiu que Dennis Davila, o responsável pela organização do concurso, só queria falar consigo depois do jantar para combinarem a agenda da semana seguinte.

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"Foi então que ele me disse que tinha havido um problema com o cálculo das votações e que a verdadeira vencedora da noite era a Riza e eu era a terceira dama de honor, pelo que tinha de devolver a coroa", recorda Denise, numa entrevista telefónica à Domingo, na semana seguinte à revelação de um dos maiores escândalos em concursos de beleza nos anos mais recentes. "Fiquei em choque e desapontada, mas sei que tudo na vida acontece por alguma razão. Só não entendo qual é a razão agora", acrescenta.

Júlia Garrido, natural do concelho de Barcelos e que estava no terceiro mês de gravidez da filha mais velha quando chegou ao Canadá, confirma o quanto custou a perda do título. "Ela era para vir para casa no domingo. Esperei até às dez da noite e depois enviei uma mensagem, a que ela não respondeu. Só na segunda-feira é que telefonou. Estava a chorar e fiquei preocupada, pois pensei que tinha tido um acidente. Só depois é que ela disse: ‘Tiraram-me a coroa, houve um erro na contagem dos votos!'", relata a luso-canadiana, de 51 anos, que trabalha numa fábrica de fechaduras para automóveis.

DAR A VOLTA POR CIMA

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A forma como perdeu o último concurso de beleza de uma carreira repleta de títulos - vai fazer 27 anos em dezembro, pelo que não pode concorrer ao Miss Universo Canadá de 2014 - poderia levá-la a processar a organização, mas a licenciada em Ciências Biomédicas, que não conseguiu entrar no curso de Medicina, ainda que trabalhe num consultório médico, considera que "para fazê-lo teria de estar muito amarga". Em vez disso, com a ajuda da família e dos amigos, preferiu "enquadrar toda a situação de uma forma positiva".

"Algumas das outras concorrentes estão mais zangadas do que eu. Depois de já teres a tua coroa e o teu troféu, tirarem-te isso... Outras organizações talvez tentassem encobrir o erro, mas eles não conseguiram ficar um ano a fingir que nada tinha acontecido. Para mim foi difícil, mas preferia um ano de Miss Universo Canadá se tivesse sido a vencedora, e não a saber que não tinha merecido o prémio", garante, num português capaz de se desviar para o inglês a meio das frases, quem ainda não esteve frente a frente com a "rapariga excelente" que tomará o lugar que foi seu durante 24 horas. O único contacto com Riza Santos deveu-se à CNN, que entrevistou Denise em Toronto ao mesmo tempo que a vencedora, que estava em Las Vegas, para onde viajou logo a seguir ao que julgava ser uma derrota.

A organização do Miss Universo Canadá não perdeu tempo em dar a volta por cima. "Fizemos um erro, um erro humano de que não estávamos à espera", lê-se no site oficial do concurso, numa declaração oficial que não poupa elogios à rainha por um dia e à rainha por um ano: "As palavras, os atos e a graciosidade da Denise são o verdadeiro reflexo do tipo de integridade e verdadeira beleza destas jovens. A Riza demonstrou a sua humildade quando soube que era a verdadeira vencedora."

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DAQUI PARA A FRENTE

Depois de ser Miss Terra Canadá em 2008 e Miss Mundo Canadá em 2010, começando em dezembro do ano passado o caminho para a final do concurso Miss Universo Canadá, apurando-se entre as representantes da Área Metropolitana de Toronto, Denise admite que ainda não sabe quais serão os próximos passos. "Ainda está tanta coisa a acontecer que não tive tempo para me sentar e pensar. Acabarei por ponderar as ofertas e escolher o melhor caminho", diz quem sabe que um dos patrocinadores do concurso lhe irá dar os mesmos brincos com diamantes, avaliados em cinco mil dólares canadianos (3700 euros), que estão destinados à vencedora. Outros convites que já recebeu incluem a escrita de um livro biográfico ou a participação em reality shows.

Para Júlia Garrido, outra possibilidade é uma nova tentativa de entrar para a Faculdade de Medicina. "A minha filha é muito esperta e quando põe algo na cabeça, vai até ao fim", afirma, dividida entre o orgulho que sente pela forma como Denise enfrentou a montanha-russa de emoções vividas naqueles dias e a incompreensão pelo engano nos cálculos. "Fiquei chateada por não terem desfeito o erro logo. Só verificaram no dia seguinte, depois de ela ter aparecido coroada nas páginas dos jornais. Isso não se faz...", diz.

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Bastante mais incisivo, o marido, Luís Garrido, de 54 anos, que viu ao seu lado a transmissão do concurso graças à internet, refere-se ao sucedido como um "balde de água fria". E não poupa críticas ao critério dos jurados: "Deviam tê-la tratado de outra maneira, porque a beleza da minha garota não tem nenhuma cirurgia plástica. A outra é toda de plástico."

UMA FAMÍLIA PORTUGUESA

Quem ouvir falar o pai de Denise não ficará admirado ao saber que o construtor civil, reformado por invalidez devido a problemas nas rótulas e hérnias discais, nasceu no Brasil. Apesar de ter passado os primeiros anos de vida no Rio de Janeiro, o pai era natural de Vila Nova de Foz Côa e a mãe de Águeda, e a família regressou a Portugal quando tinha 12 anos. Mais tarde, emigraria para a Venezuela, onde trabalhava na panificação.

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Luís encontrou a mulher e mãe dos seus três filhos - Denise é a mais velha, seguindo-se Dennis, de 25 anos, e Ricardo, de 19, todos eles com dupla nacionalidade - graças ao correio aéreo. "Conhecemo-nos através das cartas. Foi assim que começou", diz Luís, que aterrará amanhã de manhã no Porto, para mais uma visita à família da mulher, que vive em Barcelos.

"Deu certo", comenta Júlia, por entre risos, quando se lhe pergunta até que ponto a troca de correspondência entre a Venezuela e o Minho foi persuasiva. Casaram-se e ela foi juntar--se ao marido em Caracas, cidade de que assegura ter "gostado muito", mas a instabilidade no país aconselhou-os a tentar a sorte no Canadá, onde chegaram a estar em situação ilegal.

"Eles casaram-se em Portugal, depois foram para a Venezuela e só depois é que chegaram ao Canadá. Estou em todo o lado no mapa", graceja Denise Garrido, que tem o hábito de visitar Portugal de dois em dois anos, admitindo conhecer melhor o Norte. "No ano passado vim a Lisboa pela primeira vez e foi muito agradável. Fomos aos pastéis de Belém, que são deliciosos", diz a rainha de beleza, que conheceu a capital de Portugal com o namorado canadiano, Scott Dietrich, que é um mágico profissional.

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OLHAR PARA O COPO

Em declarações à Domingo, Scott reforça o quanto a namorada ficou abalada com o desfecho da competição. O mágico estava sentado na terceira fila do auditório quando Denise teve a ilusão de ser a nova Miss Universo Canadá, cumprindo o sonho de menina, "que, de uma forma ou de outra, definiu quase todas as decisões da sua vida". Mas realça como ela conseguiu ver o lado positivo do que lhe tinha acontecido.

Denise concorda com D. Luísa de Gusmão, que terá dito "melhor ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida", convencendo o marido a tornar-se D. João IV, embora a nobre nascida em Espanha tenha sido rainha e regente mais de 20 anos e não apenas 24 horas. "Tudo depende de vermos o copo meio cheio ou meio vazio. Preferi vê--lo meio cheio, embora esteja sempre cheio: metade com água e metade com ar", diz, admitindo estar grata à pessoa que cometeu o erro de cálculo. lD

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ERRO NO MISS PORTUGAL DE 1997 FOI CORRIGIDO NO AR

Icília Berenguel teve uma experiência totalmente inversa à de Denise Garrido no Miss Portugal de 1997, pois foi anunciada como a segunda dama de honor minutos antes de ganhar o concurso de beleza. E com a vantagem de que o erro foi corrigido logo na cerimónia, resultando em pouco mais do que um extremo embaraço para quem o cometera. Foi o apresentador Humberto Bernardo quem se enganou ao ler o envelope com o nome das vencedoras, corrigindo-se quando Icília já tinha recebido a fita correspondente.

"A culpa é minha. E agora? Enganei-me... Isto não é possível, pois não?...", disse Humberto Bernardo, enquanto a coapresentadora Carla Caldeira comentava: "Eu não o conheço..." No final, Icília Berenguel tornou-se na nova Miss Portugal.

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