Missas com outro sotaque
Há anos que a diocese de Coimbra traz padres de Angola e do Brasil para as suas paróquias. Histórias de quem se diz feliz por cá.
Dono da mercearia e café que faz esquina com a Capela do Sacramento, João Sousa, de 36 anos, só tem elogios para descrever o padre da paróquia. Afonso Makiadi, angolano de 39 anos, chegou a Vila Nova de Anços em agosto de 2011. "O primeiro batizado que ele fez aqui foi o da minha filha mais nova. Ao princípio é verdade que a sua vinda causou alguma estranheza, por ser negro. Mas as pessoas habituaram-se a ele. Ele tem conseguido trazer as pessoas à igreja como outros antes dele não tinham conseguido."
O padre Afonso vive ali ao lado, na pequena casa paroquial que fica no largo do pelourinho, um dos orgulhos da terra. A porta está sempre aberta para receber os paroquianos de Vila Nova de Anços e das outras três paróquias de que é responsável: Granja do Ulmeiro, Alfarelos e Brunhós. Todas freguesias do concelho de Soure, e parte da diocese de Coimbra, uma das que mais padres estrangeiros - vindos sobretudo de Angola e do Brasil - tem ‘importado' para colmatar a falta de vocações que enfraquece a Igreja Católica portuguesa.
"Venho da diocese de Uíge, em Angola, onde há três ou quatro padres por cada paróquia. Aqui as coisas são muito diferentes", conta Afonso Makiadi. O acordo entre os bispos angolanos e portugueses trouxe-o de África para os frios invernos das terras à beira do Mondego, mas Afonso conta que a adaptação não foi difícil. "Partilhamos a mesma língua e isso faz toda a diferença. Deixei a minha zona de origem muito cedo. Aprendi que não se deve criar imagens dos sítios para onde vamos, para evitar desilusões. Temos de estar preparados para tudo."
O que mais lhe custa é ver o quanto envelhece a Igreja em Portugal. "Faço mais funerais do que batizados ou casamentos. Quando cheguei praticamente não havia jovens na missa. Conseguimos atrair mais jovens à catequese, mas aqui tenho 40 crianças. Na minha paróquia do Uíge havia mais de 600 meninos na catequese."
O padre Afonso Makiadi está a fazer o curso de Letras na Universidade de Coimbra (prática comum aos padres angolanos em Portugal), mas não pensa abandonar o sacerdócio. "Foi um pedido do meu bispo, porque em Angola é preciso gente qualificada", explica. Não sabe quando volta a Angola, mas garante que se sente "muito acarinhado" em Vila Nova de Anços.
SER PADRE É FIXE
Mais a norte, no concelho de Cantanhede, a paróquia de Febres e mais outras quatro estão entregues a um padre brasileiro. Luiz Maurício Lemos, de 55 anos, está em Portugal desde abril de 2010. "Faço parte de uma sociedade do apostolado católico [padres palotinos]. Somos 2700 padres e estamos presentes em todo o Mundo", conta o sacerdote, nascido em Minas Gerais, no Brasil, mas que revela com orgulho que é "português de quinta geração".
Luiz Maurício vê muitas diferenças entre as missas que se celebram nos dois lados do Atlântico. "Ir à missa no Brasil é uma alegria. Aqui parece que é cumprir um preceito, um castigo, e isso não pode ser." Diz que essa melancolia pode ajudar a explicar a crise de vocações: "Ser padre é encarado como abdicar de uma vida. Nada disso. Eu só entrei no sacerdócio aos 32 anos e nunca fui tão feliz. Fui empresário durante dez anos, mas gosto muito mais desta vida. É preciso dizer aos jovens que ser padre é fixe." Luiz Maurício está a tratar uma doença em Coimbra, mas espera regressar a Febres, onde lhe pediram que mantivesse o sotaque: "Tentei falar como os portugueses, mas toda a gente me pediu para continuar com o sotaque do Brasil. Só não me habituei a usar palavras como camisola - que é roupa interior de senhora no Brasil - ou bicha, que significa homossexual."
MISSAS CANTADAS
Nascido no estado brasileiro do Mato Grosso do Sul há 45 anos, Lucas Pio Farias juntou-se em 2009 a dois colegas missionários em Meãs do Campo, Montemor-o-Velho. Os padres brasileiros mudaram a rotina dos católicos. "As missas deles são muito alegres, há muitos jovens a cantar", conta Catarina Jorge, de 12 anos, aluna da catequese. O padre Lucas até gosta do "ritual mais solene" das missas portuguesas e diz que o facto de os brasileiros serem vistos como pessoas mais descontraídas tem dado origem a equívocos. "Alguns não percebem que temos de seguir as regras. Não é por sermos brasileiros que podemos facilitar batizados sem padrinhos católicos e outras situações do género."
Apesar de achar que os portugueses se queixam "muitas vezes de barriga cheia, porque no Brasil a fome tem uma dimensão que não existe em Portugal", aponta como uma das explicações para a falta de padres as condições financeiras das famílias. "Ser padre não é uma profissão. É uma vocação e não tem rendimentos certos." Diz que recebe da paróquia 850 euros mensais, "muito menos do que em São Paulo, onde estava colocado." Ali, "todas as despesas eram pagas pelas paróquias", o que não acontece em Portugal. Mas diz-se feliz em Meãs do Campo, onde partilha casa com mais dois compatriotas. "Criámos a nossa receita de pão de queijo, com queijo português e farinha de mandioca que já se compra por cá."
EUROPA ACOMODADA
No concelho de Coimbra, a freguesia do Ameal é dividida entre dois padres, um português e um angolano. Geraldo Kanjala Mário chegou há vários anos e está a gostar muito da experiência. "Estou a enriquecer como padre e julgo que os paroquianos também estão a ganhar em ter uma pessoa diferente", conta o padre, que estuda Direito em Coimbra. Veio de Benguela, em Angola, onde a juventude vive a Igreja com intensidade: "Em África há uma estrutura de base nas famílias, que são indispensáveis para a construção da Igreja. Sem filhos não há padres. A Europa definha e parece acomodada."
Ali perto, na Figueira da Foz, outro padre de Benguela está na paróquia de Alhadas. Pedro Hoka chegou há cinco anos. "Vim acompanhar três irmãos que vieram fazer um curso de artes gráficas. O bispo de Coimbra soube da minha presença e pediu-me que tomasse conta de algumas paróquias. Fui-me inserindo na comunidade e estou a gostar muito da experiência". Pedro Hoka completou entretanto um mestrado em Psicologia e não sabe quanto tempo mais fica em Portugal.
D. Virgílio Antunes, bispo de Coimbra e presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, explicou à CMTV as benesses e limites desta importação de padres: "Tem sido uma preciosa ajuda porque na Igreja tem havido uma comunhão. Mas não é a solução deste problema. A solução tem de ser encontrada cá, embora agradeçamos a ajuda."
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