Música em partituras e teclas de computador

Nada podia soar a indiferença: a percussão do piano – de um ex-aluno de nota 20 no Conservatório Nacional – exala o clássico até se ligar ao computador e a cada nota pisada pelos dedos atribuir-se-lhe um som electrónico. Uma descrição musical de ressonância sonora do seu peculiar piano munido de sensores.

05 de agosto de 2007 às 00:00
Música em partituras e teclas de computador Foto: Pedro Catarino
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Simão Costa é um compositor electroacústico. Mistura a acústica instrumental com sons captados e transformados – ou criados – por computador (o outro instrumento).

“Qualquer pessoa que ligue o rádio não tem acesso a música electroacústica”, avisa o compositor, de 28 anos. É uma abordagem ao som – e à musicalidade – em que as pessoas se podem sentar numa sala de espectáculos, fechar os olhos, e ser induzidas pelo poder sugestivo da música a projectar no seu imaginário representações quase cinematográficas.

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Na peça ‘Oamis_tel’ – criada durante a residência no Laboratório Electroacústico de Criação (LEC), da Miso Music Portugal –, Simão Costa projecta sons de um “telefone articulado com um piano, onde há passos e vozes (quase alienígenas) de pessoas transtornadas com alguma situação”.

Noutro exemplo, o projecto ‘Alto & Falante’, onde o objectivo é interagir com crianças, o jovem compositor pretende potenciar o imaginário infantil. Num dos espectáculos, alunos da Casa Pia de Lisboa, Fundação O Século e o Externato o Cantinho experimentaram falar ao microfone e ouvir a projecção da sua voz distorcida, transformada em sons animalesco, ou saída de dentro de uma caverna. E é vê-las rir surpreendidas. Os braços dos miúdos rodam e projectam sons em círculo. Os objectos que podem segurar com as mãos emitem sons que perseguem o campo visual. Fica no ar a pergunta inocente: “és mágico?” Simão só não explica às crianças que é o resultado da fusão entre a arte, a ciência e a tecnologia, porque talvez não fosse entendido. É um espectáculo mágico. Isso sim.

“Tenho uma sensação de hiperactividade de compositores e da qualidade dos trabalhos dos portugueses”, afirma. Acredita por isso que “não há nenhum atraso visível nesta área, em relação a qualquer ponto do Mundo”. Até mesmo porque, recentemente, Simão e João Pedro Oliveira (professor na Universidade de Aveiro) arrecadaram um prémio, numa de cinco categorias, no Concurso Internacional de Bourges, em França.

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INVENÇÃO NO LABORATÓRIO ELECTROACÚSTICO DE CRIAÇÃO

Ricardo Guerreiro, de 31 anos, é o residente do LEC que durante Julho e Agosto ocupa aquelas instalações. Está a criar e era suposto que se inspirasse numa cantiga que gravou em Veneza. Só que o trabalho criativo implica, muitas vezes, guardar peças soltas para o futuro recuperar. Decidiu experimentar o improviso. A sala é pequena mas dotada de tecnologia. As mãos do compositor mergulham num controlador midi (que representa tudo o que ele quiser) onde nascem os sons – e a ligação ao computador junta-os aos algoritmos para gravar fragmentos que, no final do trabalho, formarão uma espécie de partitura para música electrónica.

O mercado funciona por nichos difíceis de aceder, considera o compositor. Talvez por isso ainda não se tenha decidido sobre o formato como irá apresentar este último trabalho. Concertos onde o improviso é uma peça forte? Se calhar, uma instalação: pôr a tocar um CD em escolha aleatória ou em loop enquanto se projectam vídeos...

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MISTURA COM SONS ELECTRÓNICOS

Para Ricardo os sons vão ser maioritariamente produzidos electronicamente; já Filipe Lopes – tal como Simão – mistura a sonoridade de instrumentos clássicos, ou dos estridentes do Rock, com os sons electrónicos. “Até hoje não repeti nenhum instrumento e qualquer um me agrada”, diz. Já compôs para electrónica e clarinete; electrónica e guitarra eléctrica; electrónica e flauta de bisel; e até para electrónica (três computadores) e quatro instrumentos, baixo eléctrico, saxofone alto, guitarra eléctrica e bateria.

Filk (como também é conhecido) inicia o seu processo criativo com a experimentação de sons, na procura de instrumentos a usar. Depois avança o trabalho de programação, porque é na mistura da componente instrumental e electrónica que nasce este género musical. O músico portuense tem como inspiração, por exemplo, a música que ouve. Agora, Duoon de Alva Noto com Ryuichi Sakamoto. O que não é nada limitativo porque Filipe navega entre Miles Davis, Radiohead, ou Bernardo Sasseti, e as composições de Steve Reich, Messiaen, Stravinsky, ou Luís Tinoco.

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Durante a sua residência no LEC propôs-se a compor uma peça “que, embora sendo sempre a mesma, pudesse ser tocada de formas diferentes”. É este o trabalho que ainda o ocupa e só uma coisa o preocupa: “tanto a música contemporânea como a electrónica estão ainda num nível de baixo consumo”.

O mais jovem compositor que consta no Centro de Informação da Música Portuguesa, Jaime Reis, de 23 anos, considera que o mercado profissional depende do que procuram os criadores. Podem compor, por exemplo, para instalações, sound design, concertos, dedicar-se ao ensino, difusão e técnica de som ou colaborar na investigação.

Foi premiado como um dos melhores alunos da Universidade de Aveiro, tendo recebido três bolsas de mérito. Apesar de ter uma explicação complexa, a harmonia da sua música eleva uma performance com texturas e timbres que transmitem uma noção de intemporalidade. ‘Sinais no Tempo’ – a peça criada no LEC –, para guitarra e música electrónica, tem transformações dos sons da guitarra condicionadas pelos elementos musicais imediatamente antecedentes pressupondo alterações detalhadas, momento a momento, criando transformações subtis mas bastante perceptíveis. Também já escreveu várias peças para orquestra e outros grupos instrumentais, o que prova que a música electroacústica tem tanto de futurista como se alimenta das raízes eruditas.

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LABORATÓRIO DE COMPOSITORES

“Estar em residência aqui no LEC [Laboratório Electroacústico de Criação] é potenciar a divulgação do seu próprio trabalho”, afirma Miguel Azguime, fundador da Miso Music Portugal, juntamente com Paula de Castro Guimarães. Ou seja, durante dois meses consecutivos, os jovens compositores – acabados de formar – encontram neste estúdio o equipamento necessário para criarem um trabalho de composição electroacústica. Mais tarde, estes trabalhos poderão ser divulgados no âmbito da temporada da Miso Music e no festival anual Música Viva. Além de que se podem estabelecer contactos internacionais. “O LEC surge como uma constatação de que em Portugal não havia estúdios – ao contrário do resto da Europa onde se criaram estúdios desde os anos 40”, reflecte Miguel Azguime.

FILIPE LOPES

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IDADE: 26 anos

PROFISSÃO: Compositor, maestro

Tem Influências da música minimal, jazz, gamelão e de música orquestral. A sua eleição de instrumentos musicais passa, em primeiro lugar, pelo computador, depois pelo trompete e pela guitarra eléctrica. Filipe frequentou o curso de Composição, da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, no Porto.

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JAIME REIS

IDADE: 23 anos

PROFISSÃO: Compositor, director artístico

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No seu caso pessoal, o rendimento de trabalho vem de várias fontes, permitindo-lhe escolher o seu modo de vida dedicado à composição, ensino, investigação, direcção artística de um festival de música electroacústica. Aos 12 anos, Jaime começa a compor música electroacústica, enquanto estudava no Conservatório de Música de Seia. Muda-se para o Conservatório de Viseu, já com 16 anos, para estudar esta área musical. Licenciou-se em Ensino da Música, na universidade de Aveiro, tendo sido premiado como um dos melhores alunos.

RICARDO GUERREIRO

IDADE: 31 anos

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PROFISSÃO: Compositor, foi professor na Ar.Co

“Para já é difícil ser compositor em Portugal e de música electrónica é ainda mais complicado”, atesta Ricardo Guerreiro. Tirou o curso superior de Composição, pela Escola Superior de Música de Lisboa (2000) e formou-se em Música Electrónica, pelo Conservatório Benedetto Marcello (2004) de Veneza, Itália. Estudou guitarra e agora é residente no LEC (Laboratório Electroacústico de Criação) da Miso Music Portugal.

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