O mago regressa com livro que dispara sobre a futilidade

A acção de ‘O Vencedor Está Só’ passa-se em 24 horas. O suficiente para Paulo Coelho fazer uma crítica do Mundo contemporâneo.

07 de setembro de 2008 às 00:00
O mago regressa com livro que dispara sobre a futilidade
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É um dos escritores mais lidos do Mundo e também um dos mais polémicos e menosprezados. Os seus livros não pertencem ao cânone da crítica mas são best-sellers. Este brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1947 - numa família católica da classe média, que o pôs a estudar, aos sete anos, num colégio jesuíta - já vendeu mais de 100 milhões de livros em 160 países. Este extraordinário sucesso teve início tremido em 1982, com ‘Arquivos do Inferno’, seguido, três anos depois, de ‘O Manual Prático do Vampirismo’. O próprio não renega esse desastre - 'O mito é interessante, o livro é péssimo'.

A biografia oficial refere uma peregrinação pelo Caminho de Santiago, em 1986. Setecentos quilómetros que cumpre deste França a Santiago de Compostela. A experiência sai parcialmente em livro - ‘O Diário de um Mago’. Estava criada a receita, aprimorada um ano depois, em 1988, com ‘O Alquimista’. É o livro brasileiro mais vendido de sempre - já ultrapassou a fasquia dos 40 milhões de exemplares.

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Nas páginas que escreve, Paulo Coelho mistura o esotérico e o religioso, ensinamentos e protagonistas carismáticos. A receita repete-se com rigorosa cadência em ‘Brida’, ‘As Valkírias’, ‘Nas Margens do Rio Piedra eu Sentei e Chorei’, ‘Zahir’ ou ‘A Bruxa de Portobello’, entre tantos outros títulos. Uma produção que transforma Paulo Coelho no escritor em língua portuguesa mais vendido de sempre - ultrapassou até Jorge Amado. Apesar da forte crítica, Paulo Coelho foi eleito em 2002 para a Academia Brasileira de Letras, que já tinha rejeitado autores como Carlos Drummond de Andrade, exactamente por considerá-lo demasiado popular. O escritor foi ainda nomeado, em Setembro de 2007, Mensageiro da Paz da ONU. ‘O Vencedor está só’, o seu último título, do qual fazemos a pré-publicação, representa, para muitos, um corte com a temática original do autor.

PRE-PUBLICAÇÃO

JASMINE OLHA PARA o mar enquanto fuma um cigarro inteiro sem pensar em nada. Nesses momentos sente uma ligação profunda com o infinito, como se não fosse ela que estivesse ali, mas algo mais poderoso, capaz de fazer coisas extraordinárias. Lembra-se de um velho conto que lera já não sabia onde. ‘Nasrudin apareceu na corte com um magnífico turbante, pedindo dinheiro para fazer caridade.

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– Você veio pedir-me dinheiro e usa um ornamento tão caro na cabeça. Quanto lhe custou essa peça maravilhosa? – perguntou-lhe o soberano.

– Foi uma doação de um indivíduo muito rico. E o seu preço, pelo que pude apurar, são quinhentas moedas de ouro – respondeu o sábio sufi.

O ministro sussurrou:

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– É mentira. Nenhum turbante custa essa fortuna.

Nasrudin insistiu:

– Não vim aqui só para pedir dinheiro, vim também para negociar. Sei que, em todo o mundo, apenas um soberano seria capaz de o comprar por seiscentas moedas, para que eu pudesse dar o lucro aos pobres, e assim aumentar a doação que tem de ser feita.

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O sultão, lisonjeado, pagou a Nasrudin o que este lhe pedia.

À saída, o sábio comenta com o ministro:

– Você pode conhecer muito bem o valor de um turbante, mas sou eu quem conhece até onde a vaidade pode levar um homem.’

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Era esta a realidade que a rodeava. Não tinha nada contra a sua profissão, não julgava as pessoas pelos seus desejos, mas estava consciente do que é realmente importante na vida. (...)

Não, não ia fazer as fotografias naquele momento. Precisava de a conhecer melhor, porque carregar no botão da máquina é o último passo de um longo processo, que começa por desvendar a alma da pessoa. Marcaram um encontro para o dia seguinte, e conversaram mais algum tempo.

– Tens de escolher um nome.

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– Jasmine Tiger.

Sim, o desejo tinha voltado.

A fotógrafa convidou-a para passar um fim-de-semana numa praia na fronteira com a Holanda, e ali passaram mais de oito horas por dia a fazer todos os tipos de experiência diante das lentes da câmara. (...)

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As pessoas andavam de um lado para o outro na estação. Jasmine olhou para o horário do comboio, sugeriu que fossem até lá fora – estava louca para fumar um cigarro e ali era proibido.

Pensava se deveria ou não dizer o que lhe passava pela alma naquele momento. (...)

Acendeu outro cigarro; era agora ou nunca.

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– Sabe porque é que consegui mostrar o meu talento? Por causa de uma coisa que nunca imaginei que me fosse acontecer na vida: apaixonar-me por uma mulher. Que desejaria ter ao meu lado, guiando-me através dos passos que terei de dar. Uma mulher que, com a sua doçura e o seu rigor, conseguiu invadir a minha alma libertando o que havia de pior e de melhor nos subterrâneos do espírito. Não o fez através de longas aulas de meditação ou com técnicas de psicanálise – como a minha mãe desejaria e insistia que fosse. Usou...

Fez uma pausa. Estava com medo, mas tinha de continuar:

não tinha absolutamente mais nada a perder.

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… usou uma máquina fotográfica. (...)

Quem estará na passerelle naquele dia, além de Jasmine – a única razão que o levou a estar presente?

Seguramente, nenhuma das quatro ou cinco top models do mundo, porque estas fazem apenas o que desejam, cobram uma fortuna e não têm qualquer interesse em aparecer em Cannes para prestigiar o evento dos outros. Hamid calcula que verá duas ou três Classe A, como deve ser o caso de Jasmine, que ganhará cerca de mil e quinhentos euros naquela tarde; para isso é preciso ter carisma e, sobretudo, futuro na indústria. Outras duas ou três modelos Classe B, profissionais que sabem desfilar na perfeição, exibem uma silhueta adequada, mas que não tiveram a sorte de participar em eventos paralelos como convidadas especiais das festas dos conglomerados de luxo, que custarão entre oitocentos e seiscentos euros. O resto do grupo será constituído pela Classe C, raparigas que acabaram de entrar na roda-viva dos desfiles e que ganham entre duzentos e trezentos euros para ‘conseguirem obter a experiência necessária’.

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Hamid sabe o que se passa na cabeça de algumas raparigas deste terceiro grupo: vou vencer. Vou mostrar a todos aquilo de que sou capaz. Serei um dos modelos mais importantes do planeta, mesmo que tenha de seduzir homens mais velhos.

Os homens mais velhos, porém, não são tão estúpidos como elas pensam; a maioria é menor de idade, e isso pode conduzir à prisão em quase todos os países do mundo. A lenda é completamente diferente da realidade: ninguém consegue chegar ao topo graças à sua generosidade sexual; é preciso muito mais do que isso. (...)

(...) Foi-se o tempo das manequins que serviam apenas como cabides ambulantes para os estilistas. Claro, é mais fácil vestir uma pessoa magra – a roupa cai sempre melhor. Foi-se o tempo em que a publicidade para produtos de luxo masculinos era feita com lindos modelos; funcionou muito bem na época yuppie, nos finais dos anos 80, mas hoje em dia não vende absolutamente mais nada.'

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