O (mau) génio
Os estúdios da Marvel adaptam eficazmente as suas próprias bandas desenhadas. Depois de ‘Homem de Ferro’, chegouonovo‘Hulk’.Em 2003, o realizador Ang Lee transformou-o num melodrama freudiano. Fazer de novo um blockbuster, passado tão pouco tempo, podia ser arriscado. Mas o ‘Hulk’ de Louis Leterrier é aquilo que parece: um filme de acção comercial para o Verão de crianças e adolescentes. Aliás, 'fazer de novo' começa a surgir como uma nova tendência, mais do que sequelas ou remakes. Há dois anos, chegou o novo ‘Super-Homem’. Em breve chegará outro ‘Batman’. Revisionismo?
‘Hulk’, modelado a partir de ‘O Médico e o Monstro’ de Stevenson, foi criado para a Marvel por Stan Lee e Jack Kirby. O cientista ‘Bruce Banner’ é ‘Dr. Jekil’l. ‘Hyde’, o monstro, é ‘Hulk’. Quando ‘Banner’ é ameaçado, transforma-se num disforme verde, seguindo a ‘moda’ dos monstros radioactivos do início dos anos 60. O ‘Capitão América’ recebeu o soro do super-soldado. ‘Hulk’ foi exposto a raios gama.
Este filme pode ser decomposto em três partes. A primeira desenrola-se numa favela do Rio de Janeiro e segue a fórmula da série ‘O Fugitivo’. ‘Bruce’ procura a sua própria cura, tentar escapar aos seus próprios super-poderes, enquanto é perseguido pelos ‘maus’, esforçando-se por manter o seu mau génio verde engarrafado. Há uma dupla fuga, interna e externa, que vai do Brasil à Guatemala, seguindo para o México, passando pela Virgínia e terminando em Nova Iorque. Já as favelas do Rio nunca pareceram tão fotogénicas, prestando-se a boas cenas de caçada, numa espécie de ‘Fuga do Diabo’ da ‘Cidade de Deus’.
A segunda parte do filme inspira-se em ‘King Kong’: ‘Hulk’ é torturado pelos humanos. A terceira, muito ao estilo dos comics dos anos noventa, consiste num desfilar de cenas de acção sem qualquer psicologia. Pura cyber-pirotecnia. Género ‘Godzilla’.
De qualquer forma, ‘Hulk’ dá continuação ao fantasma nuclear. Sobre os filmes de ficção científica pós-2.ª Guerra Mundial, Susan Sontag afirmou que testemunham o traumatismo de massa em relação às armas nucleares, tentando exorcizá-lo: 'O despertar acidental do monstro superdestrutivo (...) é obviamente uma metáfora da bomba', disse a escritora. E este princípio do século XXI voltou a acordar esse fantasma que parecia belo-adormecido, desde o final da Guerra Fria.
MAL AMADO
‘A Bela e o Monstro’ rescreveu-se em ‘King Kong’ (Cooper & Schoedsack, 1933). Mas quem é o ‘Monstro’? Os verdadeiros monstros são os humanos, invasores colonialistas. E ainda hoje é um dos mais influentes melodramas fantásticos da História do Cinema.
MAL HUMANO
Uma versão quase freudiana da novela de Stevenson encontra-se em ‘O Médico e o Monstro’ (Rouben Mamoulian, 1932). É um filme mais sobre a natureza da frustração humana do que sobre o Mal intrínseco ao Homem. Este médico não precisa de se transformar para ser ‘Monstro’.
MAL POR MAL ‘Gojira’, conhecido por ‘GODZILLA, King of Monsters’ (1954) é um monstro que acorda com a Bomba Atómica. E originou uma das maiores sagas de sempre (mais de 15 filmes!). Apesar de se basear em ‘King Kong’ (ou antes, no tiranossauro que o combate), não existe intriga amorosa. É pura destruição!
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